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terça-feira, 22 de novembro de 2016



TRUMP E PUTIN - II

No texto anterior defendi que Trump e Putin, face às suas caracteríticas pessoais e à sua visão do mundo, têm muito boas condições para virem a ter um bom relacionamento.
Argumentei também que a Europa ocidental nunca compreendeu nenhuma das Rússias historicas, o que além de estranho, pode ser muito perigoso para o nosso futuro.
Nos proximos textos vou procurar expor o contexto russo através dos tempos e a importancia da Rússia para a Europa, isso antes de entrar nas grandes questões da geopolítica e de voltar a Putin, a Trump e à defesa dos interesses europeus.
No Ocidente, desde sempre, tendemos a olhar a Rússia com "olhos ocidentais", quando a realidade russa sempre foi muito diferente da nossa, para compreender aquela realidade é necessario ter uma visão da sua historia, da sua demografia e dos seus desafios actuais como grande potencia.
Mesmo que eu fosse historiador, seria impossível dar em meia dúzia de linhas uma visão geral do que foi a história russa e da Europa oriental ao longo dos tempos, pelo que vou referir apenas alguns pontos para que se compreenda que quando falamos daquela zona do mundo estamos a falar de uma região com uma historia muito especial e muito diferente da da Europa ocidental, sobretudo da mais ocidental.
- a Rússia tem a sua origem em Kiev, no sec IX.
- nos séculos XIII e XIV a Rússia quase que desaparece com a ocupação Mongol
- no sec. XIV o maior país da Europa oriental é a Lituânia
- nos sec. XV e XVI a grande potencia da região, e maior país da Europa, é a Lituania/Polonia
- no sec XVII a Polónia invade a Rússia
- no sec XVIII grande parte da Europa oriental é invadida pela Suécia.
- no sec XIX a Polónia desaparece
- no sec XX a independencia da Polonia é restabelecida e a Ucrania torna-se independente (por cinco anos, 1917/22)
- para além de todos os conflitos regionais, durante este período a Rússia foi invadida, destruída e saqueada por dois países da Europa ocidental ( sob Napoleão e Hitler)
Este conjunto de pontos dá ideia da instabilidade da região, da facilidade com que as coisas por ali mudam e logicamente da enorme mistura étnica que se foi formando ao longo dos séculos. Como sempre, não há aqui nem bons nem maus, apenas conflitos em virtude de interesses proprios ou de terceiros, facilitados pela historia, pela geografia, e pelas diferenças etnicas e religiosas.
É neste quadro historico que o maior país do mundo tem de ser olhado, tão grande como fragil, sempre ameaçado, do Pacífico à Europa ocidental, sabendo sempre que desaparecerá no dia em que não for uma grande potencia, como já aconteceu no passado.
Ser uma grande potencia para a Rússia não é uma opção, é uma condição da propria existencia e é neste quadro que tem de se compreender Putin, que, obviamente, não quer ser o coveiro da "Santa Rússia".
É por aquelas razões que a Rússia tem sempre defendido a necessidade da existencia de uma zona neutra (não Nato) na sua fronteira ocidental, o que a levou aos avisos que desde 2007 vem lançando após o anuncio da futura adesão à NATO da Georgia e da Ucrania.
Embora possa parecer estranha, a aparente hiper-sensibilidade russa é facil de compreender quando se olha para os EUA, a super-grande potencia, protegida por dois Oceanos, com apenas dois "inofensivos" vizinhos terrestres. Qual seria a reacção americana à simples instalação de mísseis anti-balisticos no Mexico, ou até em qualquer outro ponto da America central, ou mesmo do Sul? Todos sabemos a resposta.
Todas as grandes potencias tendem a ser paranoicas em termos da propria segurança, facto que é facil de confirmar quase todos os dias, seja com a China, os EUA ou a Rússia.
Mas o que é importante, para nós europeus. é ter-se consciencia de que. o pior que nos poderia acontecer seria o desmembramento da Grande Potencia Russa, isso sim, seria o abrir de uma caixa de Pandora de consequências inimagináveis para toda a Europa.
Esta ameaça é tanto mais grave quanto a Rússia é a mais fragil das grandes potencias, por razões demograficas, económicas, geograficas e culturais.

(continua)

terça-feira, 15 de novembro de 2016



TRUMP E PUTIN

O relacionamento entre Putin e Obama nunca funcionou, na verdade julgo que se desprezavam mútuamente, Putin via Obama como um negro pacifista com pretensões intelectuais, Obama via Putin como um troglodita racista, e um mero operacional dos serviços secretos.
Já entre Trump e Putin tudo leva a crer que o relacionamento venha a ser bem mais facil, na pratica são dois operacionais pragmáticos e brancos, um vindo dos negocios e o outro das polícias.
Para além das semelhanças temperamentais e de formas de actuar, existe outra razão muito forte para que o relacionamento entre os dois venha a fluir.
Os dois têm uma mesma visão do mundo, resumidamente pode dizer-se que os dois temem a China, os dois odeiam os muçulmanos e ambos desprezam a Europa.
Dificilmente poderia existir melhor plataforma para potenciar um entendimento.
Os dois olham a Europa como um conjunto de pequenos países que, quando não se estão a matar uns aos outros, se dividem a todo o tempo sobre as mais diversas questões, comandados por chefes palavrosos, complicados e cobardes, uma Europa ainda por cima cheia de latinos e adormecida por um estado social com custos exorbitantes.
Claro que, apesar de tudo isto, Trump não vai entregar a Europa a Putin, mas, de qualquer modo, é seguro que a nossa vida vai ser bem mais complicada, e para que ela não seja mais dificil do que aquilo que tem de ser, talvez fosse tempo de a Europa tentar compreender a Rússia.
A realidade é que a Europa, nunca compreendeu o seu maior vizinho, fosse a Rússia dos Czares, a dos sovietes, ou a de Putin, pior ainda, nunca a compreendemos, sempre a tememos e fomos continuadamente acumulando erros de relacionamento.
Este desconhecimento europeu da Rússia, é tanto mais estranho quanto foi graças à consolidação do imperio Russo que as hordas de hunos e mongois deixaram de "inesperadamente" aparecer às portas de Roma ou de Viena, antes disso, qualquer capital europeia estava sempre em risco, de que uns Átilas, ou uns Gengis Khans quaisquer, aparecessem para jantar, e alguma coisa mais...
(continua)


quarta-feira, 7 de outubro de 2015


A CAMPANHA OCIDENTAL DE PUTIN
Não, não se trata de uma campanha militar (pelo menos para já!), trata-se de uma operação de confusão da opinião pública ocidental, que já começou há algum tempo mas que a partir da intervenção russa na Síria tem vindo a crescer.
Ao contrario da maioria dos ocidentais não sou Putin- fóbico, acho mesmo que o Ocidente tem muita culpa na deterioração do relacionamento internacional no que respeita à Rússia.
Foi aquela deterioração que acabou por gerar as difíceis situações em que estamos, na Ucrânia, na Síria, na Líbia, nas ondas imigrantes, etc. Problemas esses que ainda não sabemos até onde irão, e que poderão ficar totalmente fora de controle.
Farto de ser constantemente flagelado dentro da Rússia por ONGs diversas, todas elas totalmente "independentes", e dedicadas às melhores e mais diversas causas humanitárias, Putin tem vindo há já bastante tempo a montar uma rede de comunicação no Ocidente com o fim de "devolver" o bom tratamento que tem recebido da comunicação Ocidental.
Em alguns países a Rússia já comprou mesmo alguns jornais, mas o meio privilegiado de intervenção tem sido a internet e as redes sociais. Apenas agora essa "rede" começou a produzir informação em quantidade, embora eu julgue que estamos apenas numa fase de teste de várias experiências, e ainda não dentro de uma campanha totalmente estruturada.
Quem esteja atento, tem reparado nas diversas novas newsletters de origem desconhecida dedicadas à geopolítica, assim como de notícias nas redes sociais, entre o totalmente forjadas e as apenas muito parcialmente verdadeiras.
No Facebook, hoje foi um dia rico para os "exercícios" desta campanha, lembro-me de três, mas certamente houve muito mais:
- Obama vira o púlpito onde está a falar e sai porta fora (totalmente fake)
- A força aérea chinesa junta-se à russa nos ataques na Síria (igualmente fake)
- Os ataques russos resolveram a questão em três dias, o que o Ocidente não fez em mais de um ano (no mínimo uma divagação)
Tempos interessantes, vamos ver se não demasiado perigosos.

domingo, 22 de fevereiro de 2015





      A QUESTÃO GEOPOLÍTICA GREGA - PUTIN GANHA SEMPRE

       Já se percebeu que para a Europa não existe um problema económico com a Grécia, o país pode falir, sair do Euro, e mais o que quiser, que tudo isso não será mais do que uma beliscadura na economia europeia, que em menos de um mês estará esquecida. Nesse caso haverá, então sim, uma enorme crise humanitária na Grécia, que a Europa não vai poder ignorar, mas cada coisa a seu tempo.

       No ponto de vista geo-político a questão é muito mais complicada, mas a decisão não será também muito difícil, dado que não existe uma solução boa resta escolher a menos má. A escolha é entre viabilizar um projecto Chavista na Europa, ou deixá-lo desenvolver-se fora da Europa numa zona geográfica já muito complicada e importante para nós.

      A escolha parece-me clara, é preferível um problema junto às nossas fronteiras, por mais delicado que isso seja, do que um cavalo de Troia dentro de casa. Não que o problema dentro de casa leve a uma revolução Chavista na Europa, não é essa a questão, a razão é muito pior, o Chavismo em dois ou três países levará à radicalização na Europa, provavelmente mesmo a guerras civis, e isso será o caos, e o fim do projecto europeu.

       Se a Europa hoje viabilizar a aventura do Syriza, não o obrigando a seguir o essencial das regras comunitárias (certamente com adaptações), podemos dizer desde já adeus ao sonho do projecto de uma Europa una e democrática. Os nacionalismos estarão de volta, com as personagens habituais.

       No meio de tudo isto o grande vencedor é Putin, qualquer solução é boa para ele, Troia seria melhor porque destablizaria e radicalizaria, a solução da Grécia fora só destabiliza, de qualquer modo um ganho importante.

      Se a Europa sobreviver ao dia de hoje , é melhor começar a pensar a sério numa política de defesa.



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015



A UCRÂNIA, PUTIN E A EUROPA

Quando da negociação do acordo entre a Ucrânia e a CE, Putin defendeu a realização de um encontro a três para garantir que o processo decorreria sem sobressaltos. Naquela altura a Europa assumiu a posição formalmente correta de recusar qualquer negociação a três, dado que sendo a Ucrânia um estado soberano não fazia sentido sentar à mesa com uma Rússia, que se assumia como parte interessada no processo. Isto deu no que todos sabemos hoje em dia. Podia ter sido diferente?

Podemos gostar ou não de Putin, mas temos de reconhecer que ele tem de gerir o problema político mais complicado do mundo. A Rússia é o maior país do mundo, com uma densidade populacional muito baixa e em redução, com uma grande diversidade étnica e religiosa, tudo agravado por se tratar de uma população envelhecida e com um nível de alcoolismo extremamente elevado. A Rússia continua a ser uma grande potencia militar, continua e tem de continuar, no dia em que o não for a Rússia deixará de existir, as forças centrífugas internas e as ambições de diversos e poderosos vizinhos tornariam a sua existência impossível. Obviamente Putin não quer ser o último dos Czares da Santa Rússia.

Agora assistimos à peregrinação a Moscovo dos principais líderes da Europa continental,pedindo a Putin que viabilize uma solução para a crise Ucraniana. Vai ser  ainda possível recuperar a situação depois dos enormes estragos, traumas e compromissos assumidos, entretanto verificados? Vamos ver.

A lição mais importante que a Europa deve tirar desta crise é sobre a necessidade do realismo político na gestão das relações internacionais, o formalismo é importante mas só se pode ser infléxivel na sua defesa, quando se está preparado e decidido a assumir no campo militar, de forma imediata todas as consequencias necessárias. Quando assim não é a defesa de formalismos tem tudo para acabar mal.

A maneira como a Comissão Europeia geriu a crise Ucraniana, assim como a forma como geriu a crise económica europeia, irão ficar na história como exemplo do que não deve ser feito.