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quinta-feira, 8 de outubro de 2015


PORQUE COSTA NÃO FOI O VENCIDO/VENCEDOR?

(Ou o discurso que Costa não fez na noite eleitoral)
Camaradas!
Em 1º lugar quero agradecer a dedicação e o esforço que todos no Partido puseram nesta campanha. A todos o meu eterno obrigado.
Em 2º lugar quero cumprimentar a Coligação, e os partidos que a constituem por terem sido a força política mais votada.
Em 3º lugar quero assumir pessoalmente inteira responsabilidade pela derrota de hoje. Não atingimos os nossos objectivos e o único responsável de isso ter acontecido fui eu.
Por último e mais importante, não posso deixar de destacar a leitura que faço dos resultados eleitorais.
Para além do facto de a Coligação de direita ter sido a força política mais votada embora sem maioria, é clara a existencia de uma maioria de esquerda com mais de 62% dos votos.
Esta maioria resulta para já apenas de um exercício aritmético, não corresponde a uma maioria política, e a nossa história tem demonstrado a dificuldade de passar de uma a outra.
No entanto, o PS, como a maior força da esquerda portuguesa, tem o dever moral de tentar construir essa maioria política, mesmo sabendo da sua improbabilidade e das dificuldades de um processo desses.
O PS nunca deixou de assumir as suas responsabilidades com o País, com o povo português e com os nossos ideais de esquerda, e continuará a fazê-lo.
(Aí suponho que a sala já estaria a aplaudir de pé)
Mas não julgue ninguém que nos poderá utilizar apenas para nos desgastar e nos abandonar nos momentos difíceis da governação, o PS não servirá nunca de mero trampolim para as ambições de quem quer que seja.
Antes de qualquer negociação, o PS deixa desde já bem claro que não abdica de nenhuma das suas responsabilidades no quadro europeu, no que respeita à moeda única, à dívida pública, ou aos tratados europeus. O PS orgulha-se de ser um pilar da construção europeia, com os seus acertos, falhas e correcções e não será nunca um factor de instabilidade desse grande projecto.
Também para nós é claro que qualquer acordo à esquerda, apenas poderá ser estabelecido com base no programa de governo apresentado pelo PS ao eleitorado.
Portanto só poderá existir uma maioria de esquerda, no quadro das nossas responsabilidades no ambito europeu e no enquadramento do nosso programa de governo.
Assim, manifesto desde já a minha disponibilidade para negociar com o PCP e o BE, um acordo para a formação de uma maioria política de esquerda, que respeite o quadro que descrevi.
O PS dedicará toda a proxima semana a essas negociações se tal for necessário. Após o que, caso não haja sucesso, o PS assumindo as suas responsabilidades de grande partido português, estará então, e só então, disponível para viabilizar um governo da Coligação.
O PS nunca será uma força de bloqueio, temos demasiada história e sentido das responsabilidades para o poder fazer.
Nunca alinharemos em coligações negativas.
Ou a esquerda tem capacidade para estabelecer uma maioria política construtiva, ou não iremos brincar às maiorias.
Mas deixo desde já à Coligação o mesmo aviso que deixei ao PCP e ao BE, o PS não servirá de trampolim para ninguém, o PS assumirá as suas responsabilidades como sempre fez, mas não será nunca usado para benefício de outras forças, ou de outros ideais.
Hoje é um dia histórico, que abre caminho a tempos menos sombrios dos que aqueles que temos vivido.
VIVA PORTUGAL!
VIVA O PS!
(Aí, suponho que Costa teria sido levado em ombros.)
(Porque Costa não fez isto?)


COISAS DE CAVACO

Elas já são habituais, umas mais ou menos inofensivas, salvo para o ridículo do próprio, outras mais graves e esta agora gravíssima. Não há ninguém em Belém que consiga controlar o senhor?
O país tem neste momento duas maiorias, uma de esquerda com mais de 60% e outra, pró-Euro, com tudo o que isso implica, de mais de 70%.
Só que aquelas duas maiorias são meramente aritméticas, não são maiorias políticas convertíveis em coligações governamentais. Digo que não são convertíveis em coligações, não óbviamente porque tal não seja possível em teoria, mas porque para que uma coligação possa funcionar tem de haver um nível mínimo de confiança entre os coligados, o que claramente não existe, e não poderá existir no futuro mais proximo, nem na maioria de esquerda, nem na maioria pró-Euro. E todos sabemos que essa confiança não se estabelece de um dia para o outro, por decisão Presidencial, ou pelas saudades de poder de João Soares.
Os inúmeros exemplos europeus de coligações com vários partidos, têm origens históricas completamente diferentes das nossas, são países onde normalmente existem quatro ou cinco partidos centrais, que ao longo dos tempos se têm aliado de diversas formas, e em que, portanto, todos os acordos são possíveis.
A nossa história é a de três partidos centrais e dois outros contra o sistema. As coligações seriam bem mais fáceis em Portugal se os nossos 70% pró-Euro, os tais "centrais", estivessem distribuídos por quatro partidos em vez de três, na prática tenderia a haver acordos em que um ou dois partidos ficariam de fora, quase que de forma "rotativa".
Para bem ou para mal, também a possibilidade da solução tipo Bloco Central, está afastada, pelo menos na actual conjuntura e com os actores de serviço.
A somar àqueles problemas temos o facto de Portugal estar numa situação económica e financeira muito grave, embora não suficientemente grave para justificar um governo de "Salvação Nacional", o que torna muito mais perigosa qualquer tipo de "experiência". Não é tempo para amadorismos, invenções ou experiências.
Neste contexto não se pode querer estabilidade e durabilidade, qualquer tentativa de durabilidade levará a uma coligação contra-natura, pelo que resta procurar a estabilidade.
Vamos ano a ano, entretanto muita coisa pode mudar.
Até pode ser que venhamos a ter quatro partidos centrais, mais cedo do que se espera...

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

COSTA DEMITE-SE?
Demitir-se porquê, depois de uma vitória tão difícil contra a direita? Vitória clara porque para a direita apenas a maioria absoluta servia, sem ela que vai fazer essa direita?
Todos sabem como ele se esforçou nesse combate desigual que foram estas eleições, todos sabem da sua garra, da sua disponibilidade, da sua vontade, de servir o país e o partido.
Agora é tempo de o partido decidir se o quer no Parlamento a continuar a sua luta contra a direita, o que fará com o mesmo espírito de combate e de serviço que tem tido até aqui. Ou se, em alternativa, o partido o quer como candidato presidencial, onde com a sua longa experiência, tem todas as condições para ser um candidato vencedor, numas eleições que não estão inquinadas à partida como estas estavam.
Cabe ao partido decidir onde ele poderá ser mais útil. Como sempre, ele estará disponível para se empenhar totalmente em qualquer batalha que lhe seja atribuída, com o mesmo espírito de serviço ao país e ao partido, com humildade, com energia, e com disponibilidade total para todos os combates

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

CONTRA A EUFORIA
Há alguma garantia? Já se ganhou alguma coisa? Mesmo que a coligação vença, o problema fica resolvido?
Eu sei que as sondagens têm sido sempre positivas, sei também que o PS tem tido uma estratégia suicida, sei ainda que já faltam apenas três dias.
Mas será este o tempo de euforias e festa? Não será que este é o tempo crucial para o "sprint" final? É preciso ganhar indecisos, é necessário convencer hesitantes, é imprescindível mobilizar "preguiçosos".
Se o PS não tivesse radicalizado a sua posição, uma "boa maioria" seria suficiente, o país poderia ser gerido por dois ou três anos com base em acordos inter-partidários, mas com a radicalização do PS isso será impossível.
Ou a coligação vence com maioria absoluta, ou iremos entrar de imediato num período de grande instabilidade, que é exactamente aquilo que o país não pode ter neste momento.
A maioria absoluta da Coligação, que noutro contexto poderia ser dispensável, foi tornada uma necessidade imprescindível pela actuação do PS.
É agora necessário o esforço final, só com ele a vitória será conseguida. Apenas esse esforço poderá garantir que o país não vai rapidamente entrar em forte instabilidade institucional.
Deixem a festa para depois.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

A BOMBA ATÓMICA DE COSTA  (FB  26/9/2015)
Depois de um início de mandato atabalhoado, seguiu-se uma pré- campanha em que as gaffes se sucederam.
Por fim António Costa lá fez um bom debate contra Passos, mas logo depois voltou a enredar-se em confusões diversas.
No entanto o pior veio recentemente. Quando foi evidente que não conseguia arrancar nas sondagens, Costa jogou aquilo que ele julga ser a sua bomba atómica. O PS não viabilizará nada à direita, seja governo, seja orçamento, seja o que for, nada.
Assim Costa coloca o PS na pior das posições, ou tem uma maioria absoluta em que ninguém, nem ele, acredita, ou vai governar à esquerda.
Mas como é que Costa vai governar à esquerda com um programa neoliberal que ele tanto anunciou, embora não tenha compreendido?
Então Costa anuncia desde já que vai trair o eleitorado que votar no seu programa?
Mas se é assim, a tal bomba atómica não será sobre a sua própria cabeça?
Não será que Costa não destrói qualquer hipótese de o PS ter qualquer voto útil? Apenas um que seja?
- A parte do eleitorado de centro que habitualmente vota PS, não o vai fazer porque sabe que o PS terá um outro programa desconhecido que irá negociar com o BE e/ou PCP. A grande maioria destes eleitores irá votar na Coligação.
- A ala centro esquerda do eleitorado do PS, sem saber o que aí vem, vai dividir-se entre a abstenção e a Coligação.
- O eleitorado de esquerda que por vezes vota útil no PS não terá razão nenhuma para o fazer, já que sabendo que ele se irá aliar à esquerda o melhor é garantir que o faça nas piores condições possíveis, e usarão os seus votos para reforçar o peso negocial dos seus partidos de coração.
- Por esta via Costa e o PS vão ficar apenas com os votantes de "camisola" do Partido, aqueles que votarão sempre no PS, aconteça o que acontecer.
Com a sua bomba atómica, Costa arrisca a dar ao PS a pior derrota da sua história.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

ELOGIO DA IRLANDA

Será que o tigre celta não passa de um gato tinhoso, zarolho e trôpego, apenas tão vagamente celta como os nossos minhotos?

Existem em inglês duas frases, que embora aparentemente contraditórias entre si descrevem melhor que qualquer longa tese os fenómenos das subidas e descidas da imagem pública das pessoas, organizações e países. "Nothing succeeds like success" e "Nothing fails like success". A admiração, os jogos de interesses, e a inveja, aliadas ao superficialismo das análises, acabam por nos levar de forma repetida à construção e destruição de imagens muitas vezes sem quaisquer fundamentos efectivos.

A Irlanda, considerada em 2005 pelo Economist o melhor sítio do mundo para viver, rapidamente foi esquecida e virou patinho feio. Mas a verdade é que aquele país foi um indiscutível caso de sucesso, e não se pode ignorar esse sucesso nem a forma como ele foi conseguido, porque para além da justiça que lhe é devida, existem aí lições importantes que devem ser estudadas. A imensa e absurda bolha imobiliária que a Irlanda produziu, não é razão para não nos debruçarmos sobre as fontes do seu êxito.

A forma mais simples de explicar a diferença entre a situação portuguesa e a Irlandesa talvez seja usando duas historietas metafóricas. Era uma vez uma família em Dublin que começou um pequeno negócio, depois aliou-se a parceiros estrangeiros e teve grande êxito no mercado externo com os jovens quadros que foi recrutando. Aquele sucesso foi de tal maneira grande que completamente inebriados por ele, a tal familia resolveu ir ao Casino acompanhada pelos seus melhores quadros, e numa noite jogaram tudo, o que tinham e o que não tinham, o resultado obviamente foi o que seria de esperar. Esta a história da crise Irlandesa.

Agora falemos da família portuguesa, o seu negócio de construção teve um crescimento significativo, embora a parte de leão tenha ficado para "os grandes que sabem lidar com o peixe graúdo", graças a muito trabalho e também ao primo lá da Câmara, deu para ganhar bom dinheiro, empregar toda a família, crescer e até fazer uns investimentos no imobiliário ("que agora não está lá muito bem mas há-de melhorar"), "agora o problema é que ninguém paga a ninguém e não se vê saída para isto, os políticos cada vez são piores, o euro também não ajuda, acabaram com as obras todas e o resto já se sabe que não existe, Deus nos ajude...".

Com taxas de crescimento anual entre os 5% e 15% nos anos de 1991 a 2007, a Irlanda conseguiu multiplicar por quatro o seu PIB e dobrar o volume de emprego. Foi tudo artificial dirão alguns, foi a bolha imobiliária, mas atenção, o boom da construção só começa no final dos anos 90, e somente a partir daí é responsável por parte destes números. Façamos um exercício, se considerarmos que o excesso de construção equivaleu à totalidade do PIB de 1991 e a metade do emprego total desse mesmo ano, teríamos assim que o PIB em vez de ter ter quadriplicado teria "apenas" triplicado e o emprego em vez de ter duplicado teria "também apenas" aumentado em 50%. Quem na Europa fez isso? Quantos no mundo?

A "história universal das bolhas" tem diversos casos totalmente absurdos, no fundo ela é apenas uma parte da história da ganancia humana. Naquela história, a bolha das tulipas, na Holanda do sec. XVII, continua a ser a líder incontestada do absurdo, mas a bolha imobiliária irlandesa vai certamente ficar com um lugar destacado nessa mesma história, dado que chegou a construir 14 vezes mais casas per capita do que aquelas que eram construídas à época em Inglaterra! Mas tal como a bolha das tulipas não destruiu a Holanda, também a do imobiliário não vai destruir a Irlanda; no final, os fundamentais são sempre determinantes.

A Irlanda deu as maiores alegrias que um país podia ter dado às nossas esquerdas radicais, o caso tido por elas como o exemplo "neo-liberal" por excelência afinal era uma fraude, como aliás são todos e eles sempre tinham avisado. Apesar de durante o "milagre" a taxa de desemprego ter descido de 18% para pouco mais de 4%, e de o país ter absorvido um crescimento da população de 10% com a chegada dos novos imigrantes, nada disso comoveu as nossas iluminadas esquerdas. É pobreza de espírito? É. Mas na verdade a da direita também não é melhor, porque envergonhadamente apenas se resumiu a olhar para o lado, tentando que o "fiasco neo-liberal" irlandês não a afectasse.

Na verdade o caso irlandês está até longe de ser uma verdadeira experiência neo-liberal, e contra as primeiras aparências talvez seja até mesmo o contrario disso. É um caso cheio de matizes diversas que devíamos estudar profundamente para dele tirar as lições adaptáveis à nossa realidade, o comodismo da posição que reduz todo o sucesso da Irlanda à bolha, ao domínio do inglês, e à agressividade da sua política fiscal, é apenas mais um sinal da nossa preguiça intelectual.

segunda-feira, 14 de março de 2011

A VITIMIZAÇÃO DA GERAÇÃO DEOLINDA

Antes de expor os meus argumentos contra uma visão que se instalou e que parece querer vitimizar esta geração, quero esclarecer que não pertenço ao grupo dos que tem como certo que houve uma degradação geral do ensino, arrastada pela massificação, e que os licenciados de hoje são praticamente analfabetos funcionais. Antes pelo contrário, acredito na melhoria conseguida na qualidade média de todo este sector aos diversos níveis, e acredito sinceramente que os licenciados de hoje têm mais bagagem que os do passado, sobretudo os da minha geração saídos da caótica Universidade dos anos 60.

Já agora um aparte, o que eu não acredito é que ao actual governo possam ser atribuídos méritos especiais nestes resultados, estas coisas nunca são resultados de políticas de curto prazo. Na verdade a nossa revolução na Educação começa com Marcelo Caetano e Veiga Simão, depois foi fortemente reforçada com o 25 de Abril, e a partir daí, com erros e acertos pelo meio, todos os governos têm continuado de forma razoável este projecto.

Voltando à geração Deolinda, que acredito uma das melhores formadas que o país já teve, o que eu quero afirmar é que não posso aceitar a vitimização desta geração, como sendo uma geração sacrificada pelos erros das precedentes. Que esta geração se achasse vitimizada seria normal, faz parte do processo usual entre gerações, outras houve que foram muito mais longe com o seu ódio a tudo que os pais tinham construído, como foi o caso da geração de 60 que prometeu mudar o mundo e livrá-lo de todos os males que os seus pais lhe tinham trazido, tudo isso com as consequencias que conhecemos.

Todas as gerações se consideraram vítimas das anteriores, isso nada tem de novo, a novidade é que agora é a geração dos pais que se junta à vitimização da dos filhos, num processo que não só é ridículo, como não tem bases sérias e sobretudo é perigoso, porque ao fomentar a vitimização pode estar agravar a doença, em vez de estimular as melhores formas para sair dela.

A vitimização não tem sentido nem no tempo nem no espaço, quero dizer fazendo comparações históricas, ou com outros países. Claro que se podem sempre descobrir situações melhores, mas elas estão longe de ser a regra.

Começando a "análise histórica" pelas situações mais dramáticas, o que diriam as gerações da Europa Central a quem os pais deixaram por diversas vezes apenas países destruídos, fome e miséria? Pense-se apenas no que as diversas gerações do primeiros 50 anos do sec XX na Alemanha e na Rússia receberam como heranças, e pior ainda, quais foram as heranças das novas gerações das minorias perseguidas naqueles países?

Para não ir muito longe, e agora nas comparações espaciais no tempo presente, porque não olhar para os emigrantes de leste, muitos deles com formação superior, alguns com doutoramentos e PHD`s, que hoje em dia em diversos países da Europa Ocidental executam tarefas humildes para sobreviver?

Mas esqueçamos as comparações internacionais, vamos ao nosso país, esta geração é vítima de quê? de ter podido estudar? a maioria dos seus pais e avós não pôde, na idade em que muitos hoje saem das universidades já grande parte dos seus avós tinham mais de dez anos de trabalho, por vezes muito duro. Não, não é disso que se queixam, é da incerteza, mas onde estão essas gerações que tiveram vidas descansadas cheias de certezas? A geração que hoje tem 55 a 70 anos, a única certeza que tinha era de no mínimo 3 anos de tropa, a maior parte dos quais passados na guerra, e apenas depois disso talvez um emprego ou a emigração. O quadro das gerações anteriores não foi melhor com as guerras mundiais, a pobreza nacional e a emigração.

Quais são então essas gerações douradas tão invejadas, as dos 30/55 anos de idade? As geração que chegam ao mercado de trabalho depois do 25 de Abril, já sem guerra e com a adesão à CE? Têm sido de facto gerações com sorte, sem guerra, com emprego, com um mercado que abriu enormes oportunidades, as primeiras gerações que beneficiaram a sério da sociedade de consumo, a geração que não só passou a ter carro cedo, como a ser a geração que em toda a Europa teve carro novo mais cedo!, a geração para quem as viagens de férias ao estrangeiro são normais e indispensáveis, e por aí fora..., mas sobretudo as gerações em que as diferenças sociais se esbateram e as pessoas ficaram mais próximas. Se fosse para dramatizar diria que as primeiras gerações em que entre nós quase ninguém teve fome, nem frio, nem dentes podres, ou a necessidade imperiosa de emigrar para poder sobreviver, nem medo de que uma qualquer guerra lhe entrasse de repente pela porta dentro.

São essas as gerações invejadas? Por mim não tenho inveja, gosto que seja assim. Qual o futuro destas gerações? Como irão acabar? Irá tudo correr bem até ao fim? Não parece, mas ninguém sabe, a única coisa que se sabe é que todas fizeram erros e vão continuar a fazer, é preciso reduzir esses erros ao mínimo para que não existam transferências desmesuradas de encargos inter-geracionais, não vejo que tenhamos em Portugal situações especialmente anómalas que justifiquem esta autocrítica em relação à geração que agora chega ao mercado de trabalho.

Julgo que a explicação é outra, a maior parte destes novos licenciados é filha de pais não licenciados, que construíram dentro de si a imagem de que tudo era sempre fácil para drs. e engs. e que por isso os seus filhos chegando lá teriam a vida resolvida. De facto assim foi por muito tempo em Portugal, como anteriormente tinha sido com o 5º ano do liceu, e mais atrás com o simples saber ler e escrever, mas os tempos mudam e essas coisas acabam. Hoje os cursos são cada vez mais apenas um dos elementos a ter em conta numa selecção para um cargo, elemento esse que já é até menos importante do que a experiência profissional efectiva, e por isso esta nova geração ficará numa posição crescentemente difícil se não entrar no mercado de trabalho rapidamente mesmo que em funções "inferiores" à sua formação.

Falemos claro, com excepção dos cursos muito técnicos, o que a generalidade das universidades ensina é sobretudo a pensar e a saber procurar o que não se sabe, quase ninguém sai da universidade pronto para gerar valor para as organizações, todo o recrutamento representa um investimento (tempo, dinheiro, erros, confusões, etc), investimento esse que por vezes é perdido porque as pessoas ou não são aproveitáveis na função ou se vão embora. Daqui resulta que as organizações se defendem, recrutando os com maior probabilidade de não serem uma desilusão em função da sua experiência profissional e das suas perspectivas, esta realidade inultrapassável agrava-se em tempos de crise.

Grande parte destes jovens licenciados à procura da primeira oportunidade serão na sua grande maioria aproveitáveis nas suas áreas, quero crer, mas todos sabemos que de há muito tempo existem inúmeros licenciados que nunca conseguiram trabalhar como tal, por diversas razões, desde licenciaturas pouco procuradas, desajustamento das oportunidades, ou até meras questões do foro comportamental. A licenciatura garante que o seu titular tem, além de alguns conhecimentos técnicos, uma capacidade intelectual e de trabalho no mínimo de valor razoável, mas nada mais garante: qual a sua capacidade de relacionamento (em trabalho de cooperação, em competição, nas relações de poder)? qual o seu nível de objectividade a avaliar situações? qual seu nível de criatividade? como se comporta sobre stress? etc.

Não quero com isto dizer que não haja a necessidade de tomar medidas, no campo da legislação laboral, do apoio ao emprego, etc. Qual a solução? Não tenho solução, mas certamente não é vitimizando esta geração, e de uma forma ou de outra alimentando o seu desânimo e passividade, que a vamos ajudar. Esta geração teve enormes vantagens relativamente às que a antecederam, está a viver uma situação difícil e só vai sair dela se explorar até ao fim todas as oportunidades possíveis, tanto numa perspectiva individual como colectiva, com toda a humildade e garra que puder, senão o fizer será de facto perdida, poderá então vitimizar-se se quiser, mas dificilmente conseguirá demonstrar a sua tese se tiver o simples bom senso de olhar para a História, ou até apenas para o que se passa por esse mundo fora com as gerações congéneres.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

PORTUGAL/BRASIL - LITERATURA NO FEMININO

A actividade literária foi até há pouco uma actividade essencialmente masculina, até ao séc.XX são muito poucos os vultos literários femininos, e só recentemente as coisas começaram a ficar equilibradas entre os dois sexos.

No entanto esse equilíbrio varia muito de país para país, e se há casos em que o desequilíbrio é facilmente explicável (países muçulmanos, países pobres) outros há em que essa explicação não é tão simples, e para mim, humildemente o digo, o Brasil é um desses casos para que não consigo explicação fácil.

Estou a falar de literatura com L grande, enquanto ao longo do séc XX as literaturas portuguesa e brasileira se foram equivalendo, com vantagens alternadas de um lado e de outro (tema para outro texto), quando pensamos apenas em termos de literatura no feminino as coisas são muito diferentes, e à excepção de Clarisse Lispector, não vejo outras escritoras ou poetas ao nível de uma Espanca ou de uma Agustina, ou mesmo mais recentemente de uma Dulce Cardoso, ou de uma Inês Pedrosa (no romance, que na crónica ela é a maior maçadora do mundo, mas aí a Clara Ferreira Alves é imbatível) ou ainda nas novas esperanças, uma Filipa Martins e até pode ser que a louca da Mónica Marques (carioca) se venha a fazer, e pelo meio temos um conjunto muito grande de boas escritoras, como Hélia Correia, Lídia Jorge, Maria Velho da Costa, etc.

Enquanto que do lado brasileiro o quadro é muito mais limitado, claro que existe uma Lígia Fagundes Telles, claro que temos as outras académicas como Nelida Piñon, Raquel de Queiroz e Zélia Gattai, claro que na nova geração temos Patricia Mello e muitas outras, mas tudo sabe a pouco, ou melhor sabia, porque hoje li "Suite dama da noite" de Manoela Sawitzki e finalmente! uma brasileira da nova geração a escrever a saber a muito!

Este desequilíbrio Portugal/Brasil na literatura feminina, que não corresponde porem a um desinteresse da mulher brasileira pela escrita em si, dado que elas teem um enorme peso nas redacções de todos os meios de comunicação, com grande relevância até em algumas áreas técnicas da economia às finanças (julgo que maior que em Portugal), mas parece apenas derivar de um interesse mais limitado pela escrita criativa.

Esta divagação levou-me a comparar este fenómeno com o que se passa entre os USA e Inglaterra, e curiosamente tenho a mesma sensação, se as literaturas em termos globais se equivalem, já quando falamos de literatura no feminino a vantagem inglesa parece clara, e mais uma vez pergunto, porquê?
MADEIRA - TRÊS LIÇÕES

Como de todas as catástrofes, já que não foi possível evitá-las, o mais importante é tirar delas lições para o futuro, e deste caso para mim ficam três lições, que muito provavelmente vão ser ignoradas como é habitual, mas que seria vital não esquecer por muito tempo.

Não me refiro a três lições para a Madeira, repisando os pormenores habituais, de uma forma mais abrangente refiro-ma a uma lição para a Madeira, outra para a região de Lisboa e outra para o país.

Para a Madeira trata-se da necessidade de repensar a ocupação de solos nas zonas urbanas e periferias críticas, e de encontrar soluções que minimizem ocorrências deste tipo, que os meteorologistas dizem que se vão intensificar nos próximos anos. E tudo isso tem de ser decidido agora no calor dos acontecimentos porque senão nunca o será, ou apenas depois de uma tragédia muito maior do que aquela a que agora assistimos. Eu estava na Madeira quando foram as inundações de 1979, e apesar de ter sido um pequeno fenómeno em relação ao de agora, foi assustador o suficiente.

A 2ª lição é para a região de Lisboa (e não vou falar de sismos), todos os mais velhos se lembram do que foram as inundações dos anos 60(?), com um número dramático de mortos em especial na periferia de Lisboa, pois a verdade é que se o mesmo fenómeno ocorresse de novo entre nós, os resultados seriam ainda muito mais dramáticos, a percentagem de área impermeabilizada aumentou imensamente, a ocupação de antigas linhas de água hoje deve estar perto dos 100%, o número de habitantes em zonas "frágeis" explodiu, etc. e tudo isto num tempo em que os especialista em assuntos do clima dizem que fenómenos extremos vão se tornar mais usuais, ou seja, estamos perto de uma catástrofe anunciada, mais ano menos ano. O que é que se tem feito? o que é que se pretende fazer?

A terceira lição é menos directa e mais política, quer entre nós, quer um pouco por todo o mundo, as situações mais dramáticas sob o ponto de vista mediático são as que teem maior impacto junto do público, no entanto as situações de "morte lenta", são muitas vezes muito mais importantes em termos das suas repercussões sociais e económicas. O que quero dizer com isto? apenas que situações como as da Madeira com largas dezenas de mortos são sem dúvida de um dramatismo absoluto, mas a existência de 500.000 desempregados no país, de milhares de empresas a fecharem as portas, sendo um fenómeno menos dramático em termos mediáticos, não o é menos (ao contrário)em termos sociais e económicos, e esta situação vai certamente originar muito mais mortes, violência, suicídios e rupturas sociais do que a catástrofe madeirense, só que a conta-gotas, o que tem pouco apelo mediático. Desemprego a estes níveis vai originar que muita gente de todas as idades passe a comer de forma não regular, que esses mesmos não vão ter acesso aos medicamentos de que precisariam, que a criminalidade, o alcoolismo e outra dependências irão aumentar, muitas famílias se irão desestruturar por completo, etc. Isto para não entrar pelos custos sociais em cadeia originados pelo mau funcionamento das economias. Todos sabemos que grande parte destas situações não tem solução de curto prazo, mas de qualquer modo não é de certeza com o triste espectáculo diário dos nossos políticos lutando todos entre si por migalhas de um poder imaginário, que as coisas poderão melhorar mais rapidamente. Isto sim, é um espectáculo escandaloso, mas que como não tem o impacto mediático de uma catástrofe, não só dá para levar, como ainda para agravar transformando tudo isto em simples espectáculo que vende

domingo, 14 de fevereiro de 2010

CIMPOR - IV

No início era o receio mas também a esperança, agora parece restar apenas o desânimo mais completo.

Era o receio de vermos partir centros de decisão nacionais, mas era também a esperança de um primeiro grande investimento brasileiro fazer uma base em Portugal para actuar a nível mundial, e assim mudar o nosso quadro empresarial, a nossa presença económica global e o nosso, historicamente apenas palavroso, relacionamento com o Brasil.

Tudo parece ter ido por água abaixo, três grandes grupos brasileiros tomam posições na empresa sobretudo para se bloquearem uns aos outros, daqui todos os males podem advir, paralisia, venda de activos, etc.

Será que os nossos problemas de dimensão, agravados pelo individualismo exacerbado de pequenas quintas, e pela visão de curto prazo, levam a que seja impossível Portugal ter uma empresa que seja um player mundial em alguma área?
INGOVERNABILIDADE - II

Como já subentendia no texto anterior, acho que está tudo a ficar doido, senão vejamos o que se passa:

- A esquerda radical (PCP e BE), que apesar dos alguns bem intencionados que abriga, continua a ter uma matriz revolucionária, arvora-se agora em defensora ardorosa das liberdades e da democracia burguesa, isto ao mesmo tempo que idolatra o Sr Chavez e a "revolução Bolivarina". Alguém acredita nestas lágrimas de crocodilo? mais uma vez estamos numa estratégia pura e simples de quanto pior melhor, habitual e coerente com os objectivos desta esquerda.

- O PS sente-se um pouco perdido, não consegue sequer passar à população uma mensagem clara sobre toda esta situação, situação que lhe custa tanto mais quanto ele se considera o pai das liberdades, e vai resistindo com dificuldade aos convites do PSD e do Presidente da República (não se pode interpretar de outra maneira a intervenção de Capucho), para substituir o primeiro ministro, porque sabe que isso é suicídio político

- Sócrates, para o bem e para o mal, mantém-se igual a si próprio, arrogante, sempre agressivo, mesmo quando não se vê a mínima necessidade de o ser, mas mantendo a sua capacidade de lutar e de resistir, é sem dúvida um corredor de fundo, poucos não teriam já entregue os pontos há muito tempo

- O PSD, está obcecado pelo poder, julga que finalmente volta a estar perto, depois de por incompetência ter desbaratado a oportunidade das legislativas. Nada garante que tenha razão, e de certeza que a não terá se os seus dirigentes, continuarem a fazer intervenções patéticas como a do candidato a leader em Estrasburgo, com o seu ar de taberneiro espanhol.

- O CDS, tal como a esquerda radical, tem pelo menos uma estratégia coerente, que não é do quanto pior melhor mas a de fazer aumentar o preço para ser o salvador da situação, numa qualquer forma de coligação paga a peso de ouro, em nome da salvação nacional. Mas também aqui enormes problemas se põem, em especial na área económica, onde a intransigencia fiscal do CDS é totalmente irrealista face à situação portuguesa

- O Presidente, que está óbvia e legitimamente ferido com a imbecilidade que o PS demonstrou relativamente ao estatuto dos Açores, e p. da vida com o que se passou com as referencias ao BPN, não tem mostrado qualquer vontade de agir como poder moderador, o que seria de esperar na gravíssima situação que o país vive, limitando-se à sua pose enigmática, enquanto vê o circo pegar fogo, posição essa agravada pelas referidas declarações de Capucho

E tudo isto porquê? Em última análise porque o primeiro ministro, como todos os políticos, é mentiroso, só que ele, como é muito arrogante, não prepara as mentiras com o cuidado devido. E depois tem outro problema, ele não tem o charme de um Clinton, e embora os seus fãs achem que se parece com o George Cloonie, na verdade é um troglodita ao pé do dito cujo.

O grande argumento que é esgrimido pela imprensa e partidos ofendidos, é o atentado ao estado de direito, por favor não sejamos ridículos!!, a tentativa de um governo influenciar, directa ou indirectamente , grupos económicos para que assumam posições na imprensa, não pode ser um atentado ao estado de direito, se assim fosse, todas as democracias do mundo teriam de fechar.

Alguns vêem falar de Watergate!!, mas Watergate é exactamente o inverso, o problema de Nixon não foi tentar influenciar a imprensa, foi sim o de fazer escutas!!, foi esse o atentado às liberdades que os americanos não perdoaram, e não perdoariam mesmo que Nixon viesse argumentar que o conteúdo das ditas escutas era tão grave para os interesses do país que as legitimava, para os americanos elas eram inelegitimáveis!!, só assim se defendem de facto as liberdades individuais.

O que é um atentado ao estado de direito é o nosso sistema judicial/procuradoria que é ineficaz e está totalmente feudalizado, não há democracia que possa resistir a este estado de coisas. Enquanto vivermos nestas condições vai ser sempre possível encontrar um juiz inimputável que pratique toda a sorte de erros, omissões, ou mesmo actos dolosos, e que a oportuna quebra do segredo de justiça (sempre sem consequências também) transformará em fonte inesgotável de material para exploração jornalística. Isto sim, é um atentado ao estado de direito, de consequências que as pessoas agora preferem simplesmente ignorar, mas que pagaremos todos, mais cedo ou mais tarde. Isto vai-se pagar em falta de liberdade e em ineficácia da justiça, o que vai querer dizer menos desenvolvimento económico, mais corrupção, etc.

Mas tudo isto não seria muito grave, se o mundo não estivesse numa crise de proporções gigantescas, e Portugal à beira do abismo,mas parece que ninguém está preocupado, o importante não é resolver os problemas do país, o importante é que cada um desenvolva os seus pequenos jogos de poder, para reforçar um poder ilusório num barco que se afunda.

Já que a vergonha e a capacidade de raciocinar se perderam, ao menos algum decoro, senhores!

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

FALTA IMAGINAÇÃO E CORAGEM EM PORTUGAL

Recentemente, conforme foi amplamente noticiado por este mundo fora, um advogado de um dos países da "Centro-América" (desculpem, mas não me lembro nem do país, nem do nome do referido advogado entretanto assassinado), contratou um assassino profissional para o matar a tiro na via pública, o que foi feito conforme previsto.

O auto-assassinado advogado havia previamente armado todo um cenário para envolver como mandante do crime o presidente do seu país, conseguiria assim, embora póstumamente, derrotar o inimigo a quem tanto ódio dedicava.

Embora tudo tenha acabado por se descobrir, não se pode deixar de considerar uma imaginosa e curiosa nova forma de golpe de Estado.

È pena que entre nós, apesar do ódio que corre solto pelas ruas e pela imprensa, não se descortine nenhum gesto com a imaginação e a coragem do exemplo Centro-americano.

A sociedade mediática em que vivemos precisa urgentemente de um novo feito desses, coragem senhores!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A INGOVERNABILIDADE E A PRESIDÊNCIA (desculpem mas esta não dá para ser curta)

A verdade é que o problema que se põe hoje ao país já não é o da governabilidade, mas o de estar à beira da ingovernabilidade, a situação é de tal maneira grave que até Vasco Pulido Valente, dos homens que mais sabe da história da nossa monarquia constitucional e da 1ª república, e conhecido como o veneno nacional, está de tal forma preocupado que já pede calma aos políticos, ele que adora ser o incendiário de serviço.

Claro que Sócrates não é o menino do coro que nós gostaríamos que ele fosse, mas nenhum político o é. Claro que ele pode ter ido longe demais nas suas tentativas de controlar a imprensa desafecta, mas, com maior ou menor intensidade, todos os governos o fizeram. Claro que ele tem, amigos envolvidos em operações duvidosas, mas todos os políticos os teem, até porque não se faz política sem dinheiro (a história de Helmut Kohl,na rica e prestigiada Alemanha, um dos poucos grandes políticos do nosso tempo, aí está para o demonstrar), isto é especialmente verdade para os políticos que começam de baixo, como Sócrates e seus amigos, e que teem de galgar degrau a degrau as escadas do poder, sendo obviamente mais fácil para os políticos que entram por cima, e que teem quem trate dos assuntos "mais delicados" que suas Exas vão olímpica e cândidamente ignorar.

Desculpem mas em política não acredito em vestais inocentes, o que não quer dizer que não existam políticos honestos.

Também são claros os traços autoritários de Sócrates e a sua pouca abertura a ter deixado, como é da tradição da nossa democracia, que se sentassem à mesa do Orçamento elementos dos outros partidos com vocação de poder (sobretudo do PSD, mas também do CDS), transformando como ninguém o fez, aquela mesa num lugar para repasto exclusivo do PS e seus amigos.

E também todos sabemos como é duro para os partidos de poder estarem muito tempo afastados do dito, os quadros partidários começam a agitar-se, contaminando as bases e as lideranças, os ódios crescem, a razão vai-se perdendo, e por aí se vai. E tudo isto é tanto mais importante quanto toda a gente lúcida nesses partidos (que sabe alguma coisa de política) sabe que, se a crise se tivesse atrasado um pouco mais, estaríamos agora a ser governados por uma 2ª maioria absoluta do PS, e os outros partidos de poder continuariam no seu jejum insuportável e sem perspectivas. Por isso, todos sentem com maior intensidade o risco que estiveram à beira de correr, que se transforma em alívio e em vontade de aproveitar a oportunidade criada.

Mas atenção, este quadro de exaltação geral, no contexto de uma grande crise económica como a que se vive (e cuja dimensão ainda se ignora), é extremamente perigoso, podendo desencadear processos políticos e sociais que ninguém vai controlar.

Não podemos esquecer que no fundo não passamos de um bando de celtas,mouros, judeus, e outros, mais ou menos selvagens, dificilmente disciplináveis, a que Salazar deu uma fina capa de compostura, pronta a estalar a qualquer momento.

Face ao ponto a que chegámos só vejo duas saídas, ou o governo estabelece um acordo partidário que lhe dê condições para governar (mais fácil com o CDS), ou o Presidente consegue transformar-se num poder moderador efectivo e credível que permita a sobrevivencia do governo minoritário.

Para o Presidente os próximos tempos também são vitais, porque muito provavelmente é agora que se vai decidir o resultado eleitoral do próximo ano. Será o tempo em que ou o Presidente se consagra como estadista, ou ficará apenas como caso fortuito de um professor que, num final de semana, nos idos de 80, foi à Figueira fazer a rodagem do seu carro.

Carbonários, anarquistas e outro revolucionários, atenção! preparem-se! parece que vai haver festa!!!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

MADEIRA

Não vou opinar sobre que tem razão, até porque ninguém tem, nem sobre a solução menos má para o imbróglio porque não sei.

A única coisa que eu sei é que todos vão (vamos?) pagar pelo adiamento da solução do problema, que se verificou ao longo de muitos e longos anos.

Adiar é cómodo mas quase nunca compensa, como os próximos tempos virão demonstrar em relação à timidez do Orçamento de 2010.

A outra coisa que eu sei é que o Alberto João (Excelência) deveria ser nomeado, já por este governo, chefe vitalício da REPER em Bruxelas, para conseguir para o país o que conseguiu para a Madeira.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

CIMPOR II

Parece que Benjamim vai ter que abrir os cordões à bolsa bastante mais que o inicialmente previsto, depois da recusa da OPA por parte do CA da Cimpor e, sobretudo, depois da entrada da Votoratin no capital da empresa.
No entanto, se o mercado vier a confirmar a correcção que parece estar a desenhar, OPA´s desta dimensão poderão vir a ser enormemente dificultadas.
UTOPIAS

É difícil lidar com utopias como se se estivesse a lidar com realidades, sempre foi assim com o PC, defendendo a construção de uma sociedade ideal, que por si só quase toda a gente desejaria, mas que sempre pareceu inexequível à maior parte da população.

Nesses tempos, como pobres exemplos apenas tinham para apresentar os casos da Europa de Leste, já na época pouco convincentes e que depois da queda do muro vieram mostrar à evidencia dos maiores crimes ecológicos, políticos, económicos e até sociais da história da humanidade, praticados por regimes totalitários "em nome do povo" e de uma futura sociedade ideal, e efectivamente em beneficio exclusivo de uma numenclatura que usufruía de todos os privilégios.

Depois de tudo quanto se passou tudo se mantém na mesma, o partido comunista continua a defender não se sabe bem o quê, com os seus velhinhos mais ou menos simpáticos, com maior ou menor curricullum anti-fascista e alguns bons quadros perdidos numa máquina envelhecida, que como único ponto positivo continua a fazer passar uma imagem de honestidade, a todos os títulos louvável nos tempos que vão correndo.

Mas mais grave é o BE, que apesar de esporádicamente ter alguma relação com a realidade, tem uma cartilha que na essência não se afasta da do PC, apesar de ter alguns intelectuais de respeito e quadros muito mais jovens, que deveriam dar ao partido um outro papel na sociedade portuguesa, que bem precisaria de uma esquerda "radical" séria.

Se eu fosse psiquiatra, ou mesmo apenas psicólogo, como a Barbie da esquerda radical, diria que os problemas por estas bandas, andam entre a esqizofrenia e o alzheimer.
PASSOS COELHO

O homem está a crescer, e bem precisa se quer controlar o partido verdadeiramente lusitano (que não se governa nem deixa governar), que nem Sá Carneiro domou, o que Cavaco só conseguiu porque os barões estavam distraídos e o PRD ajudou.

Tem as qualidades de Sócrates, quer o poder, é perseverante e determinado, resiste bem ao desgaste, não tem experiência governativa mas parece preparado. Não será um intelectual mas o cargo é para um executivo bem preparado, que saiba ouvir e decidir.

Talvez o PSD consiga finalmente um líder, bem precisa, ele e o país, porque as coisas não podem ir bem em Portugal sem um segundo partido grande e forte.
CIMPOR

Benjamim Steinbruck, grande empresário, com sentido de oportunidade dificilmente igualável, abriu as hostilidades, ele quer o controle da multinacional construída pedaço a pedaço pelo eng Sousa Gomes (acho que foi assim), mas a Votoratim está assustada, ela sabe que não vai ser fácil concorrer com Benjamim no mercado brasileiro.

Tudo leva a crer que vamos ter um bom despique(com bons resultados também para os minoritários, espera-se!).

Mas em toda esta questão o mais interessante é que pela primeira vez um grupo brasileiro vai fazer um grande investimento numa empresa portuguesa (não pelo mercado português mas pelas posições detidas no exterior), se isso se vier a confirmar, vamos ter o grande teste da nossa capacidade de manter centros de decisão entre nós. A ver vamos.

Sobretudo, o que é importante é que não acabe tudo em "pizza" (como dizem os brasileiros),ou seja em negociatas por fora (venda de activos estratégicos), sem quaisquer ganhos para o país nem para os minoritários.
ORÇAMENTO

Menos mau, podia e devia ter ido mais longe, a viabilização à direita não o deve ter permitido, adiados os aumentos de impostos pela direita e as medidas mais impopulares por acordo geral.

Adiando pode ser que passe.
CAVACO E OS GAYS

Depois do desastre das escutas o Presidente começou muito bem o ano de 2010, pressinto no entanto alguns indícios de novo problema, agora à volta da "questão fraturante" (??!!) do casamento gay.

Ora a questão só é fraturante para quem não tem nada que fazer, tanto mais depois de a própria Igreja Sueca ter começado a celebrar estes casamentos.

Claro que por este caminho o mundo ocidental pode estar a pôr em causa o modelo civilizacional que se construiu ao longo de séculos, mas mesmo se assim fosse, este não seria mais que uma pequeno passo nesse sentido ( e aí estamos no campo puro da filosofia), e nós já deixámos há algum tempo as veleidades de sermos baluarte da civilização ocidental, ou não?

O que eu acho é que o casamento gay não devia ser só permitido, ele deveria ser obrigatório, por duas razões, para saberem como o casamento é difícil e porque andaram a chatear toda a gente por causa de um direito que não têm intenção de exercer!!

Este assunto já teve muito mais tempo e energias do que merece.