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quinta-feira, 2 de julho de 2015

A REVOLUÇÃO GREGA E PORTUGAL
Ao contrario do que tem sido dito Tsipras não é o bipolar, ingénuo, incompetente, inconsistente, etc que tem sido anunciado, ele parece-me mesmo ser o único competente no meio desta ópera-bufa europeia que vai acabar em tragédia, grega e não só.
E o mais estranho é que ele sempre disse ao que vinha. Os pequenos objectivos de simples melhoria de vida das população, são claramente objectivos pequeno-burgueses desprezíveis para ele, o seu objectivo foi sempre a revolução, a mudança radical da sociedade grega e se possível europeia, a bolivinização da Europa.
Ainda pouco tempo antes de ser governo, Tsipras afirmou: " o nosso objectivo não é o socialismo imediato, mas apenas o princípio do fim da Europa tal como a conhecemos", lembrando então que faria como fez Chavez, "nós não pedimos o voto no socialismo, nós pedimos o voto para uma mudança real na vida das pessoas, e assim gradualmente as pessoas irão se aperceber que o socialismo é uma boa idéia, tal como aconteceu na Venezuela".
E quando o sonho é grande, e os objectivos também, que interessam os meios utilizados? as mentiras apregoadas? as alianças com quem quer que seja? os custos do processo para as populações? Nada disso é relevante quando a História nos chama para uma missão regeneradora da humanidade!
Assim já pensaram muitos antes dele, com os resultados que se sabe, Lenine foi o primeiro estratega que adaptou o pensamento de Maquiavel aos tempos modernos e que com o dinheiro americano fez a revolução Russa, depois os seguidores foram muitos à direita e à esquerda, com destaque para Hitler e Mao.
A base é sempre a mesma, confundir o inimigo, depois fatiá-lo e finalmente aniquilar qualquer suspiro oposicionista, da forma mais radical que for possível, ao mesmo tempo que se vai negando toda a realidade porque se sabe que os burgueses bem instalados darão tudo para não ter que tomar iniciativas difíceis e irão sempre acreditar até chegar a vez deles. Ao fim e ao cabo trata-se apenas de cozinhar rãs em lume brando.
Como tenho dito, e apesar de toda a propaganda em contrario, em termos económicos o facto de a Grécia sair da zona euro não enfraquece a zona, antes pelo contrario, as questões dos perigos da "geometria variável`e outras não têm qualquer fundamento, apenas a saída de uma grande economia ou de um grupo de economias afectaria de forma significativa a solidez da zona euro. Esse é apenas mais um mito que a Grecia com os seus amigos tem conseguido vender, e em que os mercados farão de conta acreditar enquanto isso der dinheiro para ganhar.
Dentro da zona Euro os campeões da Grécia têm sido Juncker e França, agora já menos Juncker. Fora da zona Euro temos os ingleses, que como sempre não querem pagar nada mas que acham que nós temos de pagar para amparar o país que eles inventaram para chatear os turcos. e os americanos que querem fazer mais uma vez o que já fizeram em muito lado, ou seja, alimentar um pequeno animal perigoso na doce ilusão que assim se estabiliza a área, quando o que vai acontecer é o contrario, o animal vai virar grande e vai pôr todo o espaço em polvorosa.
Todos sabemos da importância geopolítica da Grécia, em especial agora, mas julgar que ao apoiar as pretensões de Tsipras se está a contribuir para a estabilizaçao da região isso é uma idiotice sem fim, pior que o dinheiro que os americanos deram a Lenine, ou que a ingenuidade de Chamberlain com Hitler.
No meio disto tudo não sei se a Comissão Europeia e os governos europeus tencionam continuar a ser os palhaços desta história, mas se tencionam fazê-lo Portugal vai ter agora de assumir de forma clara e pública uma posição sobre esta situação.
Portugal tem de deixar claro que, ao contrario do que se tem dito nada tem contra que à Grécia sejam dadas condições especiais, dado que a Grécia está na pior situação entre os países da zona euro, mas que a bem do processo europeu e da protecção dos nossos interesses, só aprovará medidas que signifiquem alterações nos montantes, nas maturidades e no nível dos juros da dívida grega que proporcionalmente se apliquem também ao caso português. Qualquer outro caminho, além de injusto para Portugal seria consagrar dentro da Comunidade o prémio à indisciplina.
Já que, que por culpa das instituições comunitárias tudo isto vai acabar muito mal, pelo menos não sejamos os parvos da história.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015



CARTA ABERTA AOS POVOS DA EUROPA (Projecto)


O Syriza tem tentado por todos os meios junto das instituições comunitáriass, defender o povo da Grécia e com ele os povos de toda a Europa.

Mas, na realidade, todos os nossos esforços em prole dos nossos povos e da humanidade, têm sistemáticamente esbarrado no autoritarismo alemão, e dos seus apaniguados, assim como de outros governos amedrontados, sem coragem para dizer basta à Alemanha.

Para que a Grécia possa iniciar esta nova fase da sua vida, libertar o seu povo e vencer a crise humanitária que vive, querem os burocratas de Bruxelas que lhes apresentemos um plano detalhado do que pretendemos fazer. Os burocratas incompetentes e irresponsáveis são sempre assim, enquanto o povo morre de fome eles querem mais papeis! Vivem do papel e para o papel.

Como é óbvio nós não podemos dizer o que pretendemos fazer, nem como vamos pôr a Grécia no que eles dizem ser o bom caminho, os burocratas e os governos reacionarios que dominam neste momento a Europa, não podem ter esse tipo de informação, porque se a tivessem usá-la-iam para nos destruir, a nós e ao nosso projeto de uma nova Europa!

Que melhor garantia podem os burocratas de Bruxelas querer do que os curriculla, e a palavra  dos nossos líderes?

O nosso líder, Tsirpas, ainda recentemente afirmou que o nosso objectivo não é o socialismo imediato, mas apenas o princípio do  fim da Europa tal como a conhecemos, lembrando então que faria como fez Chavez, "nós não pedimos o voto no socialismo, nós pedimos o voto para uma mudança real na vida das pessoas, e assim gradualmente as pessoas irão se aperceber que o socialismo é uma boa idéia, tal como aconteceu  na Venezuela". Portanto é falso que sejamos comunistas ou queiramos uma revolução, queremos apenas uma nova Europa, beneficiando da riqueza da experiencia Venezuelana. Temos esse direito e não vão ser os burocrats europeus e a Alemanha que nos vão parar!

Depois, temos como responsável da economia e das finanças gregas um professor que é a inveja de toda a Europa, apoiado por vários prémios Nobel, como Krugman e Stiglitz, e que apresentou logo no início das negociações uma enorme panóplia  de soluções aos iletrados ministros e burocratas europeus, pelas quais teria sido possível de imediato resolver todos os problemas da Europa e foi logo recusada, porque se aceite ficaria patente a incompetencia geral. Depois de tão brilhante apresentação, aqueles eurocratas refugiaram-se em mais um pedido de medidas concretas para fazer face à crise grega, sem inteligencia e sem visão os burocratas acabam sempre no mesmo. Agora para tentar destruir a imagem do nosso génio financeiro, os seus inimigos passam o tempo a relembrar que ele terá dito que é um economista acidental e um marxista errático. Mas nem com todas as campanhas eles vencerão, o mundo sabe que temos razão, e que temos as melhores soluções para a Grécia, para a Europa e talvez  mesmo para o mundo.

A campanha contra nós já envolve também o nosso parceiro de coligação, chegam ao ponto de dizer que Kammenos é xenofobo e anti-semita, tudo apenas porque ele é um patriota que luta pela dignidade grega dentro da Europa, melhor, pela Grécia  como lanterna da Europa como históricamente foi, e temos direito de voltar a ser.

Perante esta realidade apelamos a todos os povos da Europa, que se revoltem e imponham aos seus governos, o apoio claro e irrestrito aos desejos do governo grego, porque esse é o único caminho que resta à Europa.

Viva o Syriza! Viva a Nova Europa! Abaixo a Alemanha e seus apaniguados! Abaixo os eurocratas!




terça-feira, 10 de fevereiro de 2015



A VERDADE SOBRE AS DÍVIDAS EUROPEIAS  - A GRÉCIA


Esta questão das dívidas nunca é abordada de forma global e sem preconceitos, uns porque querem esconder a verdade, e outros porque querem apenas transformar este assunto em arma de arremesso.
É importante  analisar esta problemática de uma forma realista e independente, sem segundas intenções, porque só depois disso se podem tomar opções conscientes sobre a forma como cada um pensa que o problema deve ser gerido.
Assim, existem à partida duas grandes questões:
.qual a origem das actuais dívidas públicas?
.as dívidas são "pagáveis"?

-Qual a origem das actuais dívidas públicas?
As actuais dívidas podem ser decompostas em três partestes, a dívida pré-crise, a dívida fruto da socialização dos prejuízos do sistema financeiro, e a dívida resultante do acumular dos novos deficits orçamentais entretanto verificados.
As dívidas "pré-crise"  normalmente apresentadas estão muito sub-avaliadas, porque era normal em todo o Sul esconder dívida do sector estatal em empresas públicas deficitárias, debaixo do tapete, do colchão e onde mais fosse possível... artifícios esses de desorçamentação diversa que depois foram eliminados. Na verdade essas dívidas efectivas na Europa do Sul eram já muito maiores do que aquilo que usualmente aparece referido, sendo em toda a região já no início da crise da ordem dos 100% do PIB, isto nos casos menos graves.
A outra componente, a socialização da dívida do sistema financeiro, é a componente injusta que resulta da total incompetência da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu. A Europa adiou enquanto foi podendo o reconhecimento de que vivia uma crise financeira, argumentando que isso era um problema americano ao qual o Euro estava imune. Assim, enquanto os EUA e o UK obrigaram o bancos a recapitalizarem-se com dinheiro público, contra a vontade dos respectivos accionistas que tiveram mais tarde de comprar ao estado as novas acções entretanto emitidas (estado esse que as vendeu realizando um lucro substancial), enquanto isso na Europa a questão foi sendo empurrado com a barriga, graças ao lobbie da banca, e como os problemas não foram encarados de frente logo no início, foram tornando-se maiores e acabaram por ser transferidos para os orçamentos dos estados em lugar de ter sido assumidos pela banca. A grande vítima deste processo foi a Irlanda, que tem a maior percentagem da sua dívida proveniente desta origem.
A terceira parte das dívidas é fruto de estes países terem continuado com deficits orçamentais e portanto com necessidade de recorrer a novos financiamentos.

- Estas dívidas são pagáveis?
Na generalidade dificilmente, basta pensar que mesmo a um juro médio de 2% indexado ao PIB  e amortizando as dívidas a 50 anos se teria um desembolso anual superior a 3% do PIB por cada 100% de dívida/PIB que se quizesse anular, o que não sendo totalmente incomportável seria no entanto muito limitativo do investimento público.
A Europa do norte, melhor, a Alemanha, vai impedir a reestruturação destas dívidas? Não acredito, a Alemanha sabe que é melhor para ela que as economias do sul ganhem dinamismo, mas o norte tem dois problemas, um  são os seus eleitorados e o outro  é a fé dos respectivos governos em que o sul venha mesmo a resolver os seus problemas e a aumentar a sua produtividade.
Os "incomportáveis" custos da dívida têm assim dois objectivos, obrigar o sul a fazer o trabalho de casa e não assustar os eleitorados do norte. Apenas isto, porque todos os governos sabem que um dia todas estas dívidas vão ser reestruturadas, só que seria um desastre duplo dizer isso publicamente neste momento.

- Que fazer?
 Até agora têm coexistido dois caminhos, caminhos esses que são melhor exemplificados pelos casos diametralmente opostos da  Irlanda e da Grécia.
A Irlanda , que foi de facto a grande vítima da incompetência europeia, aceitou as regras do jogo, não discutiu, não hesitou, fez rapidamente uma grande reestruturação da sua economia, com os custos sociais inerentes, e é hoje de novo o tigre celta, apesar de alguns problemas que ainda tem.
A Grécia foi sempre o doente que fez batota, aquele que diz ao médico que toma os remédios e não o faz, assim dedicou-se a simular reformas que não fez, impostos que não recolheu, etc A culpa, essa, foi sempre dos remédios e do médico, tudo no meio de uma confusão bem Mediterrânica. O resultado só podia ser o desastre que se verificou, não vale a pena dizer que a culpa é da Europa, da austeridade, etc,  a culpa é da Grécia, poderá não ser do seu povo, ou se se quiser, sê-lo-á apenas na medida em que continuou a suportar as suas elites.

- A Grécia
A Grécia do Syriza surge agora com um hipotético terceiro caminho, que teria pelo menos a vantagem de acabar com o faz de conta grego.O Syriza quer virar a mesa e começar tudo de novo. Tudo bem, concordo que existem outras soluções se a Europa der algum apoio, o que é estranho é que só agora o partido e o seu economista chefe parecem ter começado a pensar nisso, esse trabalho não devia ter sido feito antes das eleições? O Syriza esperava que a Europa se rendesse de joelhos às suas reivindicações que  se limitavam a que a Europa lhe passasse um cheque em branco, ainda por cima  ao seu pior aluno? Agora, em quinze dias a Grécia vai ter um plano alternativo minimamente credível?
Existem caminhos alternativos e essa experiência de um novo socialismo seria interessante, só que não existem alternativas que sejam um caminho fácil, acreditar nisso é a receita para o insucesso, o único caminho que resta à Grécia é o da austeridade distribuída de outra maneira, mas esse caminho também não é fácil, como percorrê-lo sem paralisar a economia?
Não sou dos que deseja o desastre para o Syriza, até porque a conta seria paga pelo povo grego, mas neste campo não existem milagres, se não existir uma proposta bem fundamentada não haverá aprovação e a Grécia estará à beira do desastre. e depois dele, a saída do euro.
A ilusão de que a Grécia é a carta que sustenta um castelo que  hipoteticamente seja o euro é apenas isso, uma ilusão.
Apostar tudo na sua importância geopolítica, esperando que isso viabilize o inviabilizável não é solução, por muitos telefonemas de Obama e Cameron que haja.
Uma Grécia fora do euro financiada por americanos, russos e ingleses? Possível?

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015



GRÉCIA, O LABORATORIO - II  

A IRRELEVANCIA?

Embora haja quem ache que as coisas até não começaram mal com a vitória do Syriza, atrevo-me a pensar exactamente o contrario.

Uma aliança de governo com um partido da direita "radical"??? É desespero? É aventureirismo? Porque é que a aliança óbvia com a esquerda moderada não foi possível? Quanto tempo pode durar este casamento contra-natura? Seja como for, um casamento que tem como único padrinho o mais básico dos nacionalismos não anuncia nada de bom.

Depois veio a benção dos mercados financeiros, a começar pelo alemão, o que pode isso significar? Apoio ao Syriza? Crença em que vai ser fácil um acordo com um governo com um programa que é apenas uma lista de desejos contraditorios e impossíveis, de um menino mimado?
Feliz ou infelizmente o que o mercado está a dizer é apenas que a Grécia já passou o ponto da relevancia, aconteça o que acontecer à economia grega é irrelevante para a Europa e para a economia mundial. Ou seja, agora sim, agora o povo grego está á beira de uma catástrofe.

Mas os mercados podem estar enganados, a Grécia é hoje económicamente irrelevante, mas existem também os aspectos geopolíticos, como dizia no texto anterior, e um Syriza desesperado irá tambem entrar em chantagens diversas nesse campo, numa região geográfica ultra-sensível.
O Syriza vai namorar Putin, outro nacionalista, para tentar ganhar o peso que não tem.
Os ideiais do partido  foram logo arrumados no primeiro dia depois da vitoria, agora vamos assistir apenas a um jogo de poder, sem regras e com riscos imensos. Tudo pode acontecer.

Pobres gregos

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014



GRÉCIA, O LABORATÓRIO

O ano acaba com a garantia de eleições antecipadas na Grécia, o que é uma óptima notícia para os cientistas políticos, mas tudo leva crer que péssima para a população grega, já tão sofrida.
A notícia é boa para os cientistas políticos porque abre a possibilidade de surgirem respostas reais a uma série de questões e esse interesse será tanto maior quanto maiores forem as mudanças na Grécia, quase que quanto pior melhor.
Quais são as grandes questões em aberto:
- Como reage um eleitorado da periferia europeia depois de sofrer anos de austeridade, quando tem de escolher entre uma solução "realista" e a "aventura" mais ou menos populista?
- Caso a direita ganhe até que ponto os apoios europeus serão mais vigorosos do que até aqui?
- Caso o Syriza ganhe vai rapidamente transformar-se num realista ou irá mesmo partir a loiça toda?
- Irá o Syriza iniciar de facto uma nova experiência de socialismo democrático? Com que contornos? Irá destruir a economia?
- Como irá a Comissão europeia gerir os acontecimentos subsequentes? E o Banco Central Europeu?
- Que solidariedades internacionais irá o Syriza conseguir? Vamos assistir a experiências que destabilizem ainda mais o equilíbrio geopolítico da região?
- Qual vai ser a reação dos outros eleitorados europeus aos acontecimentos na Grécia? O Syriza vai ser uma vacina contra os populismos na Europa ou o início de uma nova vaga?

e por aí fora...

Tempos interessantes..., esperemos que os custos sociais não sejam demasiado grandes.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

BOM SENSO DE CURTA DURAÇÃO

Primeiro Junker diz que as condições dadas à Grécia serão extendidas a Portugal e Irlanda, de seguida Passos e Gaspar confirmam a ideia como conquista da sua brilhante actuação.

Agora o Conselho Europeu vem dizer que não há "extensões", o caso grego é especial. Claro que o caso grego é especial, não era uma solução igual que se pretendia, mas apenas a extensão aos outros países da redução dos juros e do aumento dos prazos da dívida. Depois, como já é habitual, Passos e Gaspar confirmam que nunca pretenderam qualquer extensão das condições gregas.

Mais uma vez a pressão dos falcões (Alemanha, Áustria, Holanda e Finlândia) agora acompanhados pela França, veio travar aquele que era o entendimento inicial do Conselho Europeu.

Isto não seria grave se o objectivo dos ditos falcões fosse apenas ter os países em resgate sempre no fio da navalha para os obrigar a fazer o que tem de ser feito, mas a verdade é muito pior, o que os tais falcões  pretendem é ter esses países sempre em posição de serem mandados "borda fora" do euro, se e quando as condições económicas o permitirem, e o acharem da sua conveniencia.

Nisto tudo o mais preocupante é a arrogância ignorante. Mais uma vez a Europa quer convencer-se e convencer o mundo que o seu problema está resolvido. Não está, nem sequer a caminho disso. A Europa insiste em não fazer o que precisa para resolver os seus problemas, o que é tanto mais grave quando a economia mundial volta a dar sinais de estagnação.

Mais uma vez o que se fez foi adiar problemas e apenas tirar, para já, a Grécia do banco das urgências. Os mercados responderam com descidas dos juros e subida do euro em relação ao dólar americano, que já passou o 1,3 e talvez até venha a chegar de novo ao 1,36. Depois, como vem sendo hábito, teremos nova crise, novas medidas, mais ou menos avulsas, e o empurrar de novo os problemas com a barriga sem os resolver. Até quando?

 No meio disto tudo continuamos com o nosso pretenso comportamento de bom aluno, que  seria até uma estratégia com sentido, se fossemos um bom aluno com personalidade, ideias e coragem, mas não como um pequeno aluno médio, que se limita a ser um lambe-botas de professores, ignorantes também eles, e no fundo desprezado pelos ditos professores e odiado pelos colegas.

Por este caminho vamos afundar-nos todos, entre egoísmos, miopia e incompetência.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

FINALMENTE ALGUM BOM SENSO

Ao fim de longas negociações, a Europa, ao que parece apenas graças ao FMI, lá acabou por reconhecer que de nada serve fazer de conta que os problemas não existem e continuar a adiar as inevitáveis soluções.
A Grécia, e por extensão Portugal e a Irlanda, vão ter juros mais baixos e aumento da maturidade das suas dívidas.
Não é o fim das crises, mas pelo menos permite que os deficits possam de facto começar a cair e com eles as dívidas públicas destes países.
Venceu o bom senso. O lamentável é que isso se deva apenas e tão só ao mau comportamento sistemático da Grécia e à razoabilidade do FMI, por si só a Europa não teria sido capaz de o fazer.
Para que as perspectivas de facto melhorem e toda a austeridade faça sentido, é necessário agora que se encontrem formas de garantir o financiamento à actividade das empresas competitivas.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

AS TROYKAS DESISTEM DE CONTROLAR OS DEFICITS, VIVA A BANCA-ROTA!

Está a acontecer em relação à Grécia, Portugal, Irlanda e até com a pré-troyka espanhola.
Parece ser uma boa notícia, mas não é, é mesmo exactamente o contrário.

Como todas as previsões que fazem têm-se comprovado erradas, agora as troykas decidiram que os deficits não importam, desde que as reformas preconizadas sejam feitas. Isto seria óptimo se as dívidas públicas dos países envolvidos parassem de aumentar, o que é impossível com a continuação dos deficits existentes, ou seja, esta postura "flexível" das troykas não resolve nada, limita-se a empurrar os problemas com a barriga.

Isto é como se a um doente grave o médico lhe dissesse que não o ia incomodar mais com o controle da febre, mas que de resto mantinha todo o tratamento, mesmo não estando a fazer efeito, como se bastasse  ignorar os sintomas para que o doente se curasse.

Em vez de finalmente as troykas assumirem que os programas de ajustamento precisam de modificações, seja descida dos juros, seja apoio ao crescimento económico, as troykas limitam-se a empurrar  todos estes países para uma inevitável banca-rota a prazo, decidindo depois se fazem o "hair-cut" das dívidas, ou os expulsam do euro.

Como todas as estratégias que passam por não enfrentar e simplesmente adiar os problemas reais, esta também só pode acabar mal, e ainda por cima desacreditar as dolorosas reformas que têm de facto de ser feitas, mas que neste contexto são muito mais difíceis de realizar e que poderão acabar por não servir para nada.

Todos sabemos da indisciplina grega, e que aquele país sempre tentou não implementar a maioria das reformas preconizadas, de qualquer forma vale a pena ver o gráfico abaixo sobre os sucessivos erros das previsões da troyka relativamente  ao crescimento do Produto Interno grego de 2009 a 2012 (erros sempre superiores a 6%, entre a primeira estimativa e o resultado final):


http://rwer.wordpress.com/2012/11/09/folly-from-olly-the-disasterous-quality-of-the-economic-predictions-of-the-european-commission/

quinta-feira, 21 de julho de 2011

FINALMENTE O DEFAULT GREGO!

Chamem-lhe temporário ou "selected", na verdade é pura e simplesmente um default, espera-se pelo menos que agora seja gerido de forma competente, ao contrário do que tem sido feito com todo este dossier.
Como disse (e escrevi aqui e no JN) desde o primeiro dia, o default era inevitável, apenas o lobby dos grandes bancos europeus e as limitações da Comissão Europeia o adiaram artificialmente, agora aqui está ele, só que muito mais caro.
Os problemas vão ser imensos, entre eles o dos CDS's, mas esta é a única via para uma verdadeira e saudável solução da crise Europeia, espera-se que nos detalhes se não destrua o que a decisão tem de positivo.
Curioso é que, mais uma vez, seja a mais criticada dos políticos europeus, Angela Merkel, a avançar com a solução.


RESPOSTA A PEDIDO DE EXPLICAÇÃO FEITO NO FACEBOOK

A razão porque digo finalmente é porque esta é única via para a efectiva solução do problema europeu, até agora tem-se andado apenas a adiar as questões (grega e do modelo global), e isso tem custos enormes porque os mercados sabem que é assim, e vão atacando os pontos fracos e destabilizando todo o edifício. Os mercados só vão parar quando a Europa tiver apresentado uma resposta coerente que seja de facto uma solução e não apenas um adiamento, e a decisão de hoje parece ser a base para uma solução efectiva.

No dia 10 de Maio de 2010, a seguir à reunião do Conselho Europeu que aprovou o pacote grego e o fundo de resgate, escrevi o que julgava que iria acontecer, o que logo a seguir se veio a confirmar e me levou a publicar o texto de 18 de Maio, textos esses que estão abaixo (parcialmente).

A questão é que primeiro as autoridades europeias foram apanhadas desprevenidas pela gravidade da situação grega (o que é no mínimo de estranhar em especial estando então o mundo em crise há dois anos), não conheciam a dimensão do problema e muito menos como o abordar. Quando em Maio o quadro já é mais claro faltou a coragem para a decisão ideal que teria sido o default imediato com gestão das consequencias (capitalização dos bancos gregos e credores, etc.), mas para além de todos os problemas do processo de decisão comunitáro na verdade continuava a ignorar-se exactamente a dimensão daquelas consequencias (do default) e como as gerir, ao que se juntou o lobby dos grandes bancos europeus altamente investidos em divida grega e a quem o default assustava enormemente.

A partir daí ficou claro para os mercados que a Europa era um edifício frágil sem capacidade de resolver os seus problemas, e começaram os ataques aos seus pontos fracos, Irlanda, Portugal, e agora Itália e Espanha, processo este que só vai terminar quando a Europa der provas de que sabe o que está a fazer e não a enrolar-se em adiamentos e pseudo-soluções. E qualquer solução passaria sempre pela reestruturação da dívida grega, o que só se poderia fazer por doações à Grécia (quem? como?) ou pelo default com negociação. O default é um caminho claro que os mercados percebem bem, ganha quem ganha, perde quem perde mas o assunto fica arrumado e o modelo europeu pode tornar-se um sistema coerente que não vale a pena atacar. Só que teria sido muito mais barato ter feito isto um ano atrás.



EURO - O PACOTE BILIONÁRIO (10/5/2010)
Será que vai chegar? A questão não é o montante mas toda mecânica de funcionamento que parece não desmerecer em nada as habituais confusões da burocracia europeia. Falta ainda que o BCE diga o que vai fazer da sua parte, será que daí vem alguma verdadeira novidade? infelizmente tudo leva a crer que não, vamos ver.
Caso não haja uma estratégia clara, coerente e inovadora os mercados não vão comprar a solução, mas provavelmente vão até aproveitar para fazer uma boa recuperação antes de voltarem a cair com maior violência, "cèst la vie".

A EUROPA ENLOUQUECEU? (18/5/2010)
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Na fatídica noite da reunião dos ministros das finanças (pós Conselho Europeu), quando foi apresentado o comunicado final, ficou logo claro que o mercado não ia "comprar" a solução apesar da dimensão do pacote, e não iria comprar porque não era clara e sobretudo porque não encarava a questão da reestruturação da dívida grega, o que foi visto pelo mercado como sendo maior a preocupação de salvaguardar interesses de alguns bancos do que o de verdadeiramente limpar a casa (e aquela reestruturação poderia ter sido feita sem premiar os especuladores cheios de CDSs). Depois daquela noite os mercados tiveram uma ligeira recuperação e logo de seguida afundaram de novo, o que deixou os políticos europeus no estado que temos constatado.
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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

REESTRUTURAÇÃO JÁ!
(Publicado no Jornal de Negócios do dia 14 de Dezembro 2010)

Na semana passada, a página inicial do Brookings Institution tinha como manchete "A Europa a caminho do terceiro mundo". O irónico é que a CE é o maior e um dos mais sólidos espaços do mundo, sob o ponto de vista económico e financeiro, no entanto, aquela profecia poderá vir a concretizar-se caso os políticos e os banqueiros europeus continuem as suas manobras dilatórias à espera que os problemas se vão resolvendo por si, enquanto, ao contrário, eles se vão agravando em ondas sucessivamente maiores.

A melhor coisa que até hoje se escreveu sobre a crise europeia veio de Berkeley, é o artigo de Barry Eichengreen, "Europe´s Inevitable Haircut", claro, curto e preciso (ver project-syndicate). Em países sem moeda própria, limitados à desvalorização interna, esta não vai resolver nada sem a reestruturação das dívidas públicas e, essa reestruturação, vai ter implicações pesadas na banca cuja recapitalização tem de ser encarada em simultâneo, sob risco de o sistema ruir como um todo. Em termos resumidos é este o teor do referido artigo.

A origem de todo este enorme problema foi a maneira como a Europa decidiu reagir na primeira fase da crise mundial, "a crise é um problema americano, nós não temos activos tóxicos e por isso o problema resume-se a uma falta de liquidez momentânea fruto da crise nos USA". E como o problema era apenas americano, só se tomaram medidas para melhorar a liquidez e nada de significativo se fez no sentido de melhorar a solvência, que entretanto tinha sido fortemente afectada e continuou a deteriorar-se dia após dia.

A tradição europeia de uma contabilidade "mais flexível" que a americana tem a vantagem que dá para esconder muita coisa debaixo do tapete por algum tempo. No entanto, esconder por longos períodos elefantes debaixo do dito tapete começa a ser cada dia mais difícil, e cada vez que um dos elefantes se mexe os mercados agitam-se, crescentemente nervosos (estranhamente!) .

E assim, como o problema era americano, estamos hoje numa situação muito pior que a do outro lado do Atlântico. Grande parte dos nossos bancos está descapitalizada, ao que se junta o facto de que, ao contrário dos USA onde parte importante dos estragos da bolha imobiliária foram absorvidos pelas agências federais, no nosso caso aqueles estragos continuam orgulhosamente nos balanços dos bancos à espera de melhores dias.

Mas na verdade ninguém quer encarar o problema de fundo que cresce de dia para dia: os países ricos fartos de pagarem os vícios dos pobres, os pobres desconfiados dos ricos, a banca tentando empurrar ilusoriamente os problemas, transferindo para as dívidas públicas já impagáveis todos os podres que pode, num processo em que o bolo aumenta todos os dias e cada vez é mais difícil de solucionar. Tudo num jogo de faz de conta em que, a troco de ganhos ilusórios de curto prazo, todos simulam acreditar na solvibilidade da outra parte. Até ao inevitável desenlace final.

Estamos a viver os últimos tempos da oportunidade para resolver a crise sem perder totalmente o controle dos acontecimentos, o que a acontecer, para além de devastar a Europa, terá repercussões mundiais difíceis de calcular. Resolver quer dizer fazer em simultâneo uma grande operação de reestruturação das dividas públicas e de capitalização da banca, signifique isso o que significar.

Recentemente falou-se muito das eurobonds como parte da solução do problema das dívidas públicas, compreensívelmente a reacção alemã foi fortemente contrária. No entanto, sejam eurobonds sejam outros instrumentos garantidos por outras entidades, a solução não pode afastar-se muito daí, só que para as tornar palatáveis só existe uma forma: estabelecer que todos os países que convertam parte da respectiva dívida em eurobonds terão de ficar impedidos de aceder directa ou indirectamente a qualquer outro financiamento para além dos estabelecidos nos respectivos planos de reestruturação. É limitação de soberania? É! Existe outra saída? Não vejo.

Todo este problema tem sido abordado apenas na óptica do bombeiro, sem soluções nem para as estruturas destruídas nem para os danos colaterais. Na verdade, a procura das soluções de longo prazo começa pela definição da percentagem máxima do PIB de cada país devedor que poderá realisticamente ser afectada ao serviço da dívida (2%, 3%, ?). Dessa resposta, e da análise da composição de cada dívida, dependerá a definição dos termos em que as dívidas serão reestruturadas. Dessa reestruturação resultarão impactos substanciais sobre a banca. Quais serão esses impactos? Como resolver os problemas de solvência e liquidez dos bancos? Esse será o segundo conjunto de respostas e dele resultarão forçosamente alterações importantes na banca europeia.

É fácil? Claro que não é. Mas quando era fácil nada foi feito, agora não parece existir outro caminho, feliz ou infelizmente. Acreditar em Mário Draghi que, na sua campanha para o BCE, diz que as crises financeiras não têm soluções rápidas "it`s a long war", é suicídio, esta não é uma crise normal num país normal.

Nos últimos tempos tem sido moda criticar Merkel por tudo e por nada, ela foi claramente a “má da festa”. A minha opinião foi sempre contrária a essa ideia, desde o início do caso grego Merkel demonstrou ser a única bombeira profissional no meio do amadorismo voluntarista reinante. Agora está chegado o momento de Merkel demonstrar se é apenas essa bombeira escrupulosa, ou a estadista de que a Europa precisa.

domingo, 23 de maio de 2010

DERRUBAR O GOVERNO

Pelos seus erros a anterior direcção do PSD viabilizou a vitória do PS e a manutenção do actual governo.
De forma correta Passos Coelho abandonou a estratégia que vinha a ser seguida, concentrou a sua actuação nas críticas sobre as questões substanciais e assumiu uma posição de responsabilidade de estado face à crise que se vive.
No âmbito daquela actuação o PSD fez o que tinha de ser feito em relação à moção de censura do PCP, mas não é para mim claro que tenha explicado bem aos portugueses porque o faz.
É demasiado vago ter uns números para controlar mensal e trimestralmente, e um reforço da equipe que no Parlamento para isso dá apoio técnico. Por essa via corre-se o risco de basear toda a actuação do partido numa discussão de pequenos números, acusações de falta de informação, de informação errada, de interpretações equivocadas, etc., ou seja o habitual pântano quando se vai por estes caminhos.

O PSD não pode manter esta postura de viabilizar o actual governo sem se demarcar mais claramente dele, sob risco de perder o seu timing e entregar de novo o controle de todo o jogo a Sócrates, com os consequentes prejuízos para o país e para o partido.
Porque é que o PSD faz isto? porque não se sente em condições de participar de outras soluções governativas? ou porque teme que essas outras soluções não passem por ele? ou só porque as Presidenciais estão aí? ou porque o PS ainda não tem alternativa à chefia de governo actual? ou porque o PSD conta que o actual governo leve sozinho todo o desgaste de gerir a crise e depois lhe entregue o poder de mão beijada? ou por qualquer outra razão, baseada em fantasmas ou milagres salvadores?

Esta postura se for prolongada não é boa para o país, porque não vai pressionar o governo para fazer o que tem de ser feito, e que assim continuará pela via mais fácil para não correr riscos, e não é boa para o PSD porque inviabiliza o seu futuro político.
Quer queira quer não, mantendo a actual postura o PSD vai se enrolar com a actuação do actual governo de tal forma que lá na frente não vai aparecer ao eleitorado como alternativa, de facto terá sancionado tudo quanto de mau tiver sido feito, não terá mostrado coragem para assumir a liderança, e não terá provado a capacidade técnica de encontrar melhores soluções, então porque apoiar o PSD nessa altura?

Como este PSD tem dito desde o principio a grande questão de maior urgencia em termos económicos é a redução da despesa pública, sem essa redução feita de forma drástica não existe solução para a economia nacional, enquanto ainda der podemos aumentar impostos para tapar buracos no imediato mas isso não resolverá problema nenhum, antes os agravará para o futuro. A questão da redução da despesa é uma urgência nacional, se este governo a não fizer o PSD vai ter que avançar com uma moção de censura, para não se tornar conivente no arrastar de problemas que terão custos cada vez mais altos para o país e depois se tornarão mesmo insolúveis.
Mas como o PSD tem de ser um partido responsável não pode parecer que um dia acordou mal disposto e decidiu derrubar o governo, o PSD tem de dizer agora, num prazo curto, qual é o seu caderno de encargos para o governo e o timing para a sua execução, se o governo não cumprir com o previsto o PSD terá de avançar com a sua moção e caberá ao Parlamento encontrar a solução governativa que julgue melhor, sem dramatismos, como numa democracia adulta.
O PSD não pode é ficar como o garante de um governo que não faz o que tem de ser feito e com ele ir-se afundando sem honra nem glória (como se diria noutros tempos), enquanto o país se atola mais numa crise que ninguém sabe quanto tempo ainda vai durar, no âmbito de uma Europa que a tudo isto soma a sua própria crise de identidade, e para a qual o contributo de Portugal é cada vez menos credível face à irresponsabilidade que temos vindo a demonstrar.

terça-feira, 18 de maio de 2010

A EUROPA ENLOUQUECEU?

Os políticos europeus estão a entrar num pânico descontrolado que não tem objectivamente nenhuma razão de ser, a situação europeia não é cómoda mas está longe de ser dramática, a menos que se continuem a fazer erros sobre erros.

A actual situação europeia apesar de complicada é das menos difíceis do mundo no âmbito da actual crise. Em termos globais a nossa dívida é moderada, a nossa balança comercial é positiva, o nosso crescimento é débil mas não põe a sobrevivencia em risco, os nossos bancos estão tão falidos como os dos outros, vários estados de alguns pequenos países europeus estão também mais ou menos quebrados o que é caso vulgar no mundo de hoje, e por aí vai... Então porquê este histerismo que se apoderou de toda a gente? Pessoalmente julgo que tem a ver com uma certa arrogância europeia que se julgava um grande líder moral e guardião de uma certa forma de solidez financeira no mundo, e agora, de repente, a Europa sente-se completamente perdida, sem referencias e sem saber para onde se voltar, e vai daí e começa a disparar para todas as sombras que vê, ou até mesmo apenas pressente. Se os nossos políticos tivessem por perto alguns conselheiros dos que viveram por dentro o dia a dia das grandes crises financeiras dos últimos 20 anos talvez ajudasse, pelo menos a acalmar os espíritos.

Claro que existem os problemas institucionais que os outros países não têm, na verdade não somos um país mas apenas uma associação com regras pouco claras, muitos egos e muitos fantasmas, no entanto isso não tem que forçosamente agir contra nós, pode haver vantagens nesta ambiguidade. O que é necessário é saber o que é que se quer, se a Europa souber o que quer e acreditar nisso, o mundo vai acreditar. O problema é que a Europa não sabe o que quer e por isso não pode acreditar, e como é evidente também não se pode pedir ao mundo e aos mercados que acreditem naquilo em que nós próprios não acreditamos.
E não vale a pena esbracejar, insultar, culpar sinistras campanhas contra nós. Se acreditarmos e formos claros eles vão acreditar.

Andamos há muito tempo a queixarmos-nos dos mercados, dos especuladores, de uma campanha sinistra contra o Euro, das agências de rating, etc., em alguns casos com razão noutros sem, mas sempre mal, mal na forma, mal no timing, mal nas respostas, o que só agrava os problemas em vez de os resolver.

Na fatídica noite da reunião dos ministros das finanças (pós Conselho Europeu), quando foi apresentado o comunicado final, ficou logo claro que o mercado não ia "comprar" a solução apesar da dimensão do pacote, e não iria comprar porque não era clara e sobretudo porque não encarava a questão da reestruturação da dívida grega, o que foi visto pelo mercado como sendo maior a preocupação de salvaguardar interesses de alguns bancos do que o de verdadeiramente limpar a casa (e aquela reestruturação poderia ter sido feita sem premiar os especuladores cheios de CDSs). Depois daquela noite os mercados tiveram uma ligeira recuperação e logo de seguida afundaram de novo, o que deixou os políticos europeus no estado que temos constatado.

A Europa tem de ter um discurso coerente sobre o que quer, e tudo quanto tem dito é tudo menos coerente, diz que não faz bailouts e temos o caso grego, simula uma grande operação de salvaguarda do euro mas faz tudo por via de um SPV a financiar, agora quer ter uma feroz polícia fiscal mas dispensa uma política económica, assim não vai dar, não dá para acreditar, isso ninguém vai comprar.

Os mercados nem sequer são difíceis de serem convencidos, basta ver os "road-shows" empresariais, o que é indispensável é apenas ter um discurso totalmente coerente e transmitido de forma absolutamente convicta (se assim for até se pode mentir). O que não dá é para não ter coerência ou falta de convicção.

Mas no final a grande questão é salvaguardar a Comunidade Europeia, não se pode correr o risco de perder a Comunidade por causa de sermos incapazes de gerir o Euro, risco que se pode correr se se continuar a improvisar. Espero que neste momento existam grupos de especialistas dedicados 24 horas por dia a simular todos os cenários possíveis e que garantam que a Europa vai saber lidar da melhor forma com qualquer cenário que se venha a pôr.
Que se percam os anéis mas fiquem os dedos.
PREOCUPANTE, PREOCUPANTE MESMO, É O DEFICIT ALEMÃO

Finalmente parece que toda a gente compreendeu que não pode haver união monetária sem união económica.
Só que parece julgar-se que união económica se resume apenas a ter uma força policial europeia especializada em questões fiscais, que vai detectar, processar e impedir de actuar todos os "estados criminosos" que não respeitem os orçamentos aprovados pela UE. Só que uma união económica reduzida a isso é apenas a garantia de uma Europa que, embora tentando ser cada vez mais rigorosa, se irá afundar cada vez mais numa espiral recessiva sem fim.

A existência de uma união económica tem de implicar uma política económica para a dita união, e isso quer dizer que na actual crise mundial se por um lado existem países europeus que têm de apertar os respectivos cintos e enfrentar recessões internas, por outro lado os países que têm situações financeiras mais desafogadas têm de deixar para depois o seu apertar de cinto, sob risco de apenas se mergulhar o conjunto europeu numa recessão dolorosa e interminável.
Vem isto a propósito da intenção alemã de limitar constitucionalmente o seu deficit a 0,35% do GDP a partir de 2016, o que por si só não seria preocupante atendendo a que 2016 está ainda longe, no entanto essa decisão não só vai implicar a imediata tomada de medidas recessivas como vai alimentar ainda mais o tradicional terror alemão em relação a deficits e inflação.

É certo que uma Europa envelhecida não pode continuar a acumular deficits para gerações futuras virem a pagar, gerações essas que parecem não existir, mas dar o passo para dispositivos constitucionais tão limitativos como aqueles de que agora se fala é claramente perigoso.
Ao contrário do que muitas vezes se diz não é imoral que a Alemanha obrigue os outros a apertar o cinto e ela o não faça, imoral e suicida é que ela numa altura destas também o aperte.
Será que entre a irresponsabilidade dos PIIGS e os fantasmas alemães a Europa se vai afundar?

quinta-feira, 13 de maio de 2010

BRINCAR AOS PECs

O governo e as oposições andaram durante meses a brincar aos PECs, o governo continuava a tentar passar a imagem de que a situação não era especialmente grave, mas a contragosto lá avançou com uma "intenção de meio PEC", as oposições desancaram o projecto que por si só já era insuficiente, mas por fim o PSD lá acabou por viabilizar um "meio PEC reduzido".

Como sempre, depois de tanto disparate, acabou por ter de ser feito um PEC a sério, até mais duro do que teria de ter sido se tivéssemos feito o que tinha de ser feito no momento certo, vantagens da demagogia...
Mas o custo maior não foi o de termos um PEC um pouco mais pesado do que teria sido necessário, mas sim o de termos reforçado a nossa habitual imagem de irresponsabilidade, e pior ainda, de puro seguidismo em relação a Espanha.

Caro leitor, ao fim e ao cabo qual das duas é que é a verdadeira questão: Porque é que os mercados não confiam em nós??? ou alternativamente, Porque é que ainda há mercados que confiam em nós? O leitor que escolha.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

G7!

Parece que hoje vai haver uma conference-call do G7, demasiado tarde e demasiado cedo. E já agora também demasiado pouco e, simultâneamente, demasiado demais.
Tarde porque já há semanas que se deveria saber que toda a situação a nível mundial está embrulhada, cedo porque julgo que para já ninguém tem sequer uma pista para sair daqui. Pouco porque não vão ser uns telefonemas a resolver o assunto, demais porque vai alarmar sem soluções. É só rezar.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

PORQUE MERKEL TEM RAZÃO

As críticas a Merkel têm sido mais ou menos generalizadas por toda a Europa, pela sua alegada "falta de visão e de espírito europeu", fora da tradição alemã e sobretudo da visão de Helmut Khol e de Adenauer. Para estes críticos Merkel está apenas preocupada com as suas eleições regionais e outros aspectos da política interna alemã.

Julgo que aquelas críticas a Merkel não têm razão de ser, não se pode comparar a margem de manobra que a Alemanha de hoje tem com a que teve no tempo dos seus antecessores, por diversas razões mas sobretudo devido à dimensão e peso da crise económica que se vive, e cujos desdobramentos são ainda dificilmente previsíveis.

A teoria do aval claro e urgente à Grécia, que correu solta por essa Europa fora, e que apenas não se concretizou graças a Merkel, tinha como base uma política voluntarista muito arriscada não só para o Euro mas para a Europa como um todo. No estado actual da economia mundial não era possível à Europa e muito menos à Alemanha, avalizar nenhum país em dificuldades fora de um quadro legal bem definido, quadro esse que não existe, mesmo que esse país fosse conhecido pelo seu bom comportamento o que como todos sabemos não era sequer o caso.

Aquele aval não era (nem é) possível por uma simples razão, a situação financeira mundial está presa por fios débeis e a qualquer momento pode "despencar", pelo que todas as posições que se tomem têm de ter em conta esse quadro, tomar qualquer decisão sem ter aquele risco em consideração é uma atitude suicida, seria isso que o aval rápido e cego à Grécia teria significado para toda a Europa, tanto mais quanto não se trata de uma simples crise de liquidez mas de problemas de solvência.

Claro que a Grécia, Portugal ou a Irlanda são economias demasiado insignificantes para serem por si só um problema maior, mesmo nos tempos difíceis que correm, no entanto considerando-as em grupo e juntando Espanha e Itália, teremos riscos potenciais que podem atingir os triliões (US) de euros, ou seja, totalmente ingeríveis.

Merkel foi depois acusada de ter acabado por ceder em toda a linha, mais uma vez não foi assim, no quadro que foi aprovado ficou absolutamente claro, para a Europa e para o mundo, qual é limite da responsabilidade alemã se amanhã a Grécia entrar em incumprimento. O risco da pretensa solução rápida e voluntariosa era que com ela teríamos "um por todos e todos por um", até ao último euro nos cofres de Berlim...

Qual é de facto a situação financeira mundial? No quadro da grave crise em que ainda estamos mergulhados os diversos Estados injectaram quantidades astronómicas de dinheiro nas economias para evitar o colapso da actividade económica e financeira, e com ele todo o subsequente conjunto de desgraças agravadas para as populações (não vem agora ao caso se a política foi ou não correcta). Como consequência daquela actuação dos Estados eles próprios ficaram enormemente endividados, mesmo os que ainda o não estavam, as populações que na maioria dos casos já estavam sobre-endividadas ficaram ainda em piores condições (embora com o alívio temporário da queda das taxas de juro), as empresas que estavam menos endividadas aguentar-se-ão enquanto houver consumidores, e os bancos continuarão de pé enquanto haja dinheiro a custo praticamente zero, novas injecções de capital e não tiverem de avaliar os seus activos a preços de mercado efectivos.

Ou seja, estamos perante um castelo de cartas, que todos queremos que se estabilize e consolide, mas ao mesmo tempo não podemos deixar de tomar todas as precauções para o caso de as coisas correrem mal, e isso quer dizer que não há avais nem cheques em branco para ninguém. Aliás o processo grego tem vindo a confirmar a necessidade daquelas cautelas, com as sucessivas surpresas sempre que se aprofundam os números (cada cavadela uma minhoca).

Com este panorama de fundo tudo pode vir a acontecer no quadro monetário europeu se as coisas se complicarem mais a nível mundial, e como é evidente a Alemanha mais do que nenhum outro país tem que que estar preparada para o que der e vier, e exigir dos outros países da zona euro que façam a sua parte no sentido de tentar salvar tudo o que ainda não está totalmente perdido.

Pôr mais "dinheiro bom em cima de dinheiro mau" não resolve nada e só torna as coisas mais difíceis para todos. Se os países em dificuldades não quiserem, ou lhes for impossível, fazer o que tem de ser feito, não vai haver solução que não passe pelo repensar da zona euro.

Esperemos que Merkel, embora tendo razão, não "force a barra" para além do exequível.

(na sequência ver texto: O regresso do marco alemão?)
O REGRESSO DO MARCO ALEMÃO?
(publicado no Jornal de Negócios a 27/4/10)

Os países da zona euro em dificuldades, embora estejam em situações de gravidade e características diferentes, têm em comum vários aspectos dos quais é de realçar a baixa produtividade relativa (e padrões de consumo não consentâneos com ela), do qual todos os outros problemas em grande parte derivam: deficits comerciais e de transacções, peso da dívida pública relativamente ao PIB, endividamento externo das economias como um todo, reduzidos níveis de poupança, etc. Portugal e a Grécia são os países que fazem o pleno e padecem de todos aqueles males, embora o nosso país em doses mais reduzidas que os gregos. Os outros países têm situações negativas mais focalizadas em alguns sintomas concretos, o que não quer dizer situações globais menos graves, quer pela dimensão, quer por outros aspectos específicos.

Estamos assim perante um conjunto de países que tem de fazer um verdadeiro milagre económico no meio de uma crise mundial extremamente difícil, milagre económico porque terão de expandir as suas economias e simultâneamente reduzir o consumo interno, num quadro de investimentos reduzidos, economias abertas e uma moeda forte que não controlam, ou seja, terão de reforçar vendas ao exterior no momento em que esse é o objectivo de todos os outros seus concorrentes que para tal têm mais margem de manobra. Pode dizer-se que se tratam de missões quase impossíveis, será que alguém o vai conseguir? no quadro actual dificilmente. Na verdade o que toda a gente espera (ou apenas tem esperança?)é de que as coisas se comecem a compor na economia mundial e isso acabe por dar espaço para estes países virem a recuperar-se lentamente ao longo do tempo. Mas, e se assim não for?

Se não for assim, o destino serão as suspensões de pagamentos ao exterior, os incumprimentos, as renegociações de dívida, etc. Poderá isso ser feito no quadro do actual euro? Aqui temos de recordar que ninguém pode (pelo menos em teoria) ser expulso do euro mas pode sê-lo da UE, o que no entanto seria um caminho complicado e totalmente desintegrador da Europa. Mas por outro lado, ter países "em default" dentro do euro, além de extremamente complexo seria uma humilhação sem fim para os países da moeda forte (Alemanha, Holanda, Áustria e Finlândia) e um factor de destabilização das suas economias.

Dentro deste quadro pessimista, mas infelizmente longe de inverosímil, teríamos então uma situação extremamente grave com diversos países sem condições de honrarem os seus compromissos, mas que não poderiam ser expulsos do euro e para os quais a desvalorização da moeda se tornaria uma necessidade cada vez mais premente, e face à concentração do seu comércio dentro da própria Europa o ideal seria mesmo a desvalorização do seu euro em relação ao dos "países europeus de moeda forte".
Ou seja, dado que os incumpridores não podem ser expulsos, nem sair pelo seu pé porque tal levaria à falência generalizada das respectivas economias (endividadas em euros e operando em novas moedas), restaria como solução que fossem as economias fortes a sair do euro, o que nesse quadro seria a melhor solução para todos. Quando isso acontecesse essa nova moeda (ou moedas) teria uma rápida valorização ao mesmo tempo que o euro teria forte desvalorização.

É verdade que as desvalorizações por si só não resolvem nada, elas apenas podem facilitar processos de ajustamento que por outras vias são mais difíceis ou até impossíveis, mas as desvalorizações são operações de reconhecimento de empobrecimento (elas não o criam apenas o reconhecem) e em que é transferida riqueza dos aforradores para os devedores, mas esse é o preço a pagar por quem não faz o que deve, quando deve.

Teríamos duas vias possíveis para um segundo e novo euro, na primeira hipótese a Alemanha abandonava o euro regressando ao marco ou coisa parecida e, de imediato ou posteriormente, algumas das outras economias a seguiam. A via alternativa seria a referida por Martin Taylor (ex-CEO do Barclays) da criação institucional de dois euros, um para o Sul e outro para o Norte (sudo e neuro), nesta hipótese todos os depósitos e compromissos financeiros seriam transformados 50% em cada uma das moedas que a partir desse momento começariam a divergir. Obviamente a primeira via seria a mais interessante para os países do sul.

É curioso voltar a Keynes em 1941 quando no seu texto sobre o novo sistema financeiro internacional defende a criação de várias uniões monetárias, entre as quais a germânica com a Alemanha, Holanda e Áustria (e também Suiça), e a união latina com França, Bélgica, Portugal, Espanha e Itália, neste quadro a Grécia ficava na união balcânica.

O fim do euro tal como o conhecemos é inevitável? Obviamente que não, mas se a crise se agravar o estreito caminho que tem pela frente irá tornar-se cada vez mais difícil e estreito e então poderá não haver outra saída. Seja como for, julgo mais do que nunca indispensável acelerar os mecanismos de controle e concertação das políticas fiscais e orçamentais dentro da zona euro, não só porque ainda há esperança, como porque um "novo euro" necessitaria ainda mais daqueles mecanismos.

terça-feira, 27 de abril de 2010

MEIO PEC TAMBEM SERVE?

Apesar de todos os que sabem alguma coisa de economia, quer em Portugal quer no estrangeiro, dizerem que as medidas do PEC seriam insuficientes e que seria necessário ir mais longe, afinal decidiu-se reduzir o PEC em vez de o aumentar, aparentemente devido ao encontro Sócrates/Passos Coelho.

Claro que o PSD tem razão quando diz que sobretudo o que é preciso é reduzir a despesa pública e não aumentar as receitas, mas a verdade é que conseguir no curto prazo efeitos significativos na redução da despesa é praticamente impossível, e a apresentação de resultados desta vez é urgente, a UE e os mercados precisam de sinais concretos e não apenas de intenções piedosas.

Perante este aparente acordo que pelo menos adiou a decisão relativa à redução dos limites máximos das deduções fiscais, Teixeira dos Santos, para salvar a honra do convento, terá forçado o primeiro ministro a avançar com o imposto das mais valias, ora este imposto é o mais traiçoeiro dos impostos, porque no caso de a crise se agravar (que é o caso em que estas receitas seriam mais necessárias) não vão existir mais valias, e logo não vão existir receitas!

E se o PSD em vez de dramatizar o "aumento de impostos" sobre a classe média, ao mesmo tempo que no seu congresso houve quem defendesse claramente a redução significativa de todos os salários do país, viabilizasse com o PS o aumento temporário e gradual do IVA (podia começar com 0,5%), o que teria efeitos imediatos, daria credibilidade às nossas intenções e seria facilmente desmontável assim que começassem a aparecer resultados do lado da despesa?

Voltando à despesa pública, ainda mais importante e urgente do que eliminar desperdícios, é a necessidade de parar rapidamente esta corrente vertiginosa de crescimento do estado que todos os dias inventa novas funções, novos serviços, novas instalações, etc., tanto a nível da administração central como dos municípios, o que aliado ao Cavaquismo/Fontista que Sócrates no passado tanto criticou e de que agora se transformou no grande defensor, conduzem ao crescimento imparável de um monstro tentacular cada vez mais difícil de controlar.

Estamos claramente em zona de grande perigo mas ninguém parece preocupado, assim como é que a população pode compreender alguma coisa quando tiver que pagar a conta?

sábado, 27 de março de 2010

MERKEL VENCEU, TEMOS ESTADISTA?

Contra tudo e contra todos, incluindo o seu ministro das Finanças (Schaube), Angela Merkel foi a grande vencedora desta pequena guerra europeia que se arrastou por algumas semanas.

Ao contrário da imagem que se fez passar, Merkel não foi o osso duro de roer que dificultou uma solução rápida e fácil para o problema grego apenas por causa das suas preocupações com as eleições e com aspectos legais da Alemanha, a verdade é que essa tal solução fácil e rápida não existia, e não era mais do que uma via rápida para o desastre europeu.

Todos sabemos que o projecto Europeu tem uma boa costela latina, com muitos passos maiores que as pernas, na base do "tudo vai correr bem", "depois se resolve", etc. Isto embora os grandes da política europeia prefiram encarar o fenómeno como manifestação da sua enorme visão política, ou de forma mais prosaica e poética dizendo que o caminho se faz caminhando. Foi assim com o euro, sem orçamento centralizado, sem política fiscal comum, sem política económica e com uma enorme diversidade entre os diferentes estados não é claramente uma zona monetária óptima, está mesmo mais para péssima.

Há muito tempo que os euro-cépticos, euro-inimigos e especuladores ansiavam por este momento de verdade, para eles a grande oportunidade, um simples escorregar neste momento de crise global seria um abrir de porta a uma sucessão imparável de manobras e ataques a toda a construção europeia. Tudo é fácil enquanto o mar está calmo e as águas se não levantam, mas quando a borrasca começa não dá para fazer erros, tanto mais quando o navio está nas condições em que o navio europeu se encontra.

Foi então que os líderes europeus começaram a querer tapar o buraco grego de qualquer maneira desde que rápida. O voluntarismo correu solto, fazia-se um FME instantâneo, juntavam-se uns cobres, ou até pura e simplesmente declarava-se o apoio e depois logo se via. E Merkel teve a coragem de ir dizendo sempre que não, de improviso em improviso até ao desastre geral não é bem o estilo dela, haja alguém com bom senso!

A comunidade europeia nunca poderia ter dado um aval directo e cego à Grécia fora de um quadro regulamentar que talvez devesse existir mas que não existe. E pior ainda, se a crise internacional se agravasse iríamos depois ter as "grécias grandes" e aí como seria? continuaria o improviso voluntarioso então com precedentes já estabelecidos?
Trocando por miúdos caro leitor, suponha que tem dois ou três irmãos, simpáticos, bons rapazes, até trabalhadores, mas coitados a vida tem sido complicada, uns divórcios, filhos difíceis, certa tendência para gastar demais, etc., responda leitor! o seu aval ou o banco?

O projecto europeu parece agora fora de perigo, quanto ao euro as coisas não são assim tão fáceis, mesmo as exigências de Merkel por si só não serão suficientes para garantir que o sistema vá funcionar. Sem uma verdadeira política económica europeia se a crise se agudizar a solução de Martin Taylor dos "dois euros" poderá vir a ser a única saída, ou pelo menos a menos má.

Tem sido voz corrente por esta Europa que Merkel é apenas uma boa gerente nunca será uma estadista, faltam-lhe a visão e a capacidade de liderança de um Helmut Kohl, diz-se. Começo a achar que estão redondamente enganados, com o seu ar de ursinho triste Merkel deu um show, um espectáculo de determinação serena, de coragem para resistir a pressões sem fim, de inteligencia a negociar as saídas possíveis.

Agora que Obama finalmente se consegue afirmar como líder de facto, mais importante ainda é que a Europa tenha alguém à sua altura.

Acho que temos estadista, a Europa bem precisa, é material em falta há muito tempo.

terça-feira, 23 de março de 2010

O PEC

Este é daqueles documentos que qualquer governo gostaria de nunca ter de fazer, talvez isso ajude a explicar o que se tem passado com as apreciações de diversos comentadores económicos que teem tido mudanças substanciais ao longo do tempo conforme o documento foi passando das 9 páginas iniciais para as 110 finais. Houve de tudo, dos que de posições iniciais de concordância, ou até de elogio, evoluíram para posições de oposição radical, como houve aqueles que do tom crítico inicial evoluíram para posições de receptividade global em relação ao documento.

Claro que muito provavelmente a qualidade final do documento foi afectada pela promessa eleitoral de não subir os impostos, reinterpretada pelo governo na versão de não subir as taxas dos impostos, o que dificultou a saída de utilizar o aumento do IVA em lugar da redução das deduções fiscais, mas mesmo assim o resultado final não seria muito diferente. Ouvi economistas de vários quadrantes políticos elogiar o bom trabalho feito pela equipe do ministério das finanças.

Crítica total, clara e "fundamentada" ao documento apenas a vi da esquerda radical que defende outro modelo de desenvolvimento, modelo esse que no entanto nunca explicou qual é, pelo menos de uma forma global e coerente.

O PEC podia ser melhor? muito provavelmente sim. O PEC é mau? parece que não. O PEC podia ser radicalmente diferente? não se vê como.