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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

???????
OUTRA TRAPALHADA??
A PT-SGPS que já conseguiu reduzir o valor do património líquido da empresa de 5.000 milhões para menos de 600 milhões, prepara-se agora para o reduzir para 300 milhões ou menos.
Em pouco mais de um ano o valor da empresa pode ser reduzido em 94%, e não acontece nada? Tudo isto é normal??!!
E a CMVM? Mais uma vez nada tem a dizer?
Não foi o CA da PT-SGPS que disse que o negócio da fusão poderia ser revertido? E então? Enquanto houver possibilidade de reversão da fusão nenhuma outra possibilidade pode ser encarada.
Assinar agora um acordo com a Altice é o disparate dos disparates, aliás na linha dos anteriores.
Só há uma estratégia para a PT-SGPS, desfazer a fusão. Caso tal se mostre impraticável exercer todos os poderes que possa ter dentro da OI para valorizar a sua posição, saindo da empresa de forma honrosa ou participando efectivamente do controle da mesma.
Tudo o resto são trapalhadas, se é que não mais operações dolosas, em prejuízo de todos os stakeholders.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014



GRÉCIA, O LABORATÓRIO

O ano acaba com a garantia de eleições antecipadas na Grécia, o que é uma óptima notícia para os cientistas políticos, mas tudo leva crer que péssima para a população grega, já tão sofrida.
A notícia é boa para os cientistas políticos porque abre a possibilidade de surgirem respostas reais a uma série de questões e esse interesse será tanto maior quanto maiores forem as mudanças na Grécia, quase que quanto pior melhor.
Quais são as grandes questões em aberto:
- Como reage um eleitorado da periferia europeia depois de sofrer anos de austeridade, quando tem de escolher entre uma solução "realista" e a "aventura" mais ou menos populista?
- Caso a direita ganhe até que ponto os apoios europeus serão mais vigorosos do que até aqui?
- Caso o Syriza ganhe vai rapidamente transformar-se num realista ou irá mesmo partir a loiça toda?
- Irá o Syriza iniciar de facto uma nova experiência de socialismo democrático? Com que contornos? Irá destruir a economia?
- Como irá a Comissão europeia gerir os acontecimentos subsequentes? E o Banco Central Europeu?
- Que solidariedades internacionais irá o Syriza conseguir? Vamos assistir a experiências que destabilizem ainda mais o equilíbrio geopolítico da região?
- Qual vai ser a reação dos outros eleitorados europeus aos acontecimentos na Grécia? O Syriza vai ser uma vacina contra os populismos na Europa ou o início de uma nova vaga?

e por aí fora...

Tempos interessantes..., esperemos que os custos sociais não sejam demasiado grandes.

domingo, 28 de dezembro de 2014




AS PT's , OS TRABALHADORES , OS ACIONISTAS E A AG

Vem agora Isabel dos Santos queixar-se do Conselho de Administração da SGPS por ter inviabilizado a sua OPA, não sei o que aquele conselho fez, sei sim das dificuldades postas pela CMVM. Seja como for duvido da capacidade actual do grupo de Isabel dos Santos para se lançar na aventura de um "operador de base lusófona", face às dificuldades previsíveis para o futuro próximo da economia angolana.
Muito provavelmente ficaremos todos sem saber se a solução de Isabel dos Santos seria boa ou não para trabalhadores da PT Portugal e/ou para os acionistas da PT-SGPS.

O que parece estar agora sobre a mesa é apenas a decisão de autorizar ou não a venda da PT Portugal à Altice, decisão essa que vai depender dos acionistas da PT-SGPS. Quem são hoje os acionistas desta empresa? Será que a OI directa ou indirectamente já controla parte do capital suficiente para conseguir esta aprovação? Esta aprovação faz sentido para os acionistas não ligados à OI? A aprovação é boa ou má para os trabalhadores da PT Portugal?

Para responder a estas questões temos de voltar atrás e responder a uma outra pergunta, como é que foi possível uma operação de fusão em que os acionistas da empresa perderam mais de 80% do valor do seu património (1)? Vinte desses 80% são consequencia da operação da Rio Forte, de qualquer modo os outros 60% são apenas consequencia directa da fusão. Ninguém viu nada? Nem a SEC americana? Nem a CMVM? Nem o CA da PT-SGPS? Nem as Comissões de Auditoria, os auditores externos, as Comissões de trabalhadores, os sindicatos?

Se não fosse de mau gosto fazer uma comparação com o holocausto diria que a forma como acionistas e trabalhadores se deixaram cozinhar em lume brando é semelhante. Talvez seja melhor ficarmos pela história do rei que ia nú, numa monarquia absoluta nunca ninguem na corte reconheceria semelhante facto, as cortes existem e vivem de exactamente  não o fazer, elas existem apenas para  elogiar as vestes do rei, mesmo que toda agente saiba que ele vai nú. Ou seja, em toda esta história, para que tudo tivesse corrido bem, faltou apenas a criança inocente, de olhar límpido e claro que tivesse, em devido tempo, gritado a verdade, faltou na PT como faltou no BES. E como entre nós nunca há culpados, o único culpado é óbviamente a criança que não gritou, procure-se a criança!

E agora? Para trabalhadores e acionistas a única solução boa seria a reversão da fusão, o que o próprio CA da SGPS veio apresentar como possível, se assim for a venda da PT à Altice tem de ser parada na proxima AG.

Caso a fusão não seja reversível a venda à Altice pode ser a solução menos má para os trabalhadores, não porque aquela empresa não venha a fazer grandes cortes no pessoal ou porque seja certo que venha a concretizar o seu anunciado desejo de se converter num grande operador de telecomunicações, mas apenas porque será melhor para os trabalhadores passar a um quadro claro com um novo acionista que pelo menos para já quer administrar a empresa, do que arrastar-se dentro de um grupo brasileiro que não tem qualquer interesse na empresa, além de a vender rapidamente, em bloco ou retalhada.

Quanto aos acionistas parece-me não fazer qualquer sentido a autorização da venda à Altice, o seu único poder efectivo dentro da OI reside nisso, o poder de autorizar uma possível venda da PT, logo não o pode fazer sem contrapartidas, seja no limite do ideal a reversão da fusão mesmo que com algumas perdas ou, no mínimo dos mínimos, com uma compensação que reduzisse de forma significativa a sua actual perda de mais de 80%.

Vamos ver o que se segue até à Assembleia Geral de 12 de Janeiro.




(1)- em termos aproximados, no processo de fusão a PT- SGPS entregou à OI e seus acionistas a PT-Portugal com valor equivalente à sua dívida, mais algumas participações societárias e 4.300 milhões de euros, o que daria um valor superior a 5.000 milhões para o patrimonio líquido da PT-SGPS naquela data, actualmente o valor da empresa é inferior a 1.000 milhões

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O CA DA PT-SGPS E A VENDA DA PT

Vem agora o CA da PT-SGPS dizer que tem dois pareceres que podem fundamentar a anulação da fusão com a OI.

Não podemos esquecer que foi este CA, com apenas algumas alterações, que aprovou todo o negócio PT/OI, pelo que  este tipo de notícias tem de ser visto com o maior cuidado.

Isto não quer dizer que a notícia em si não seja positiva, e que o CA não tenha feito bem em obter estes pareceres, mas apenas que isso não chega, é aliás muito pouco.

Todos sabemos que, por um lado, pareceres em Portugal pode haver tantos como professores de direito e por outro lado, que um parecer é apenas uma base para actuar, um parecer na gaveta não serve para nada.

Que vai o CA fazer com os pareceres? Essa é a grande questão. Vai iniciar acções em Portugal, Brasil e Estados Unidos para os tornar eficazes? Vai levá-los a uma Assembleia Geral de accionistas para que eles decidam o que fazer? Ou vai guardá-los com muito carinho, apenas para dizer que o CA fez a sua parte?
A CMVM E A OPA DE ISABEL

A digníssima CMVM que tem andado a dormir há longos anos, como o demonstram os casos da Cimpor, BCP, PT e BES, entre outros, resolveu agora acordar para mostrar serviço.

Formalmente a CMVM até pode ter razão, a lei diz que o valor oferecido em OPA não pode ser inferior à cotação média dos últimos seis meses, simplesmente esses últimos seis meses envolvem duas PT's diferentes, uma que teria 37%  da OI e outra que apenas tem 26%   . Logo é evidente que o que está em causa agora é a PT que tem apenas os referidos 26%  e mais um direito potencial futuro de aquisição do restante, pelo que seria a média das cotações depois de conhecida essa realidade que deveria ser considerada, sem se ter em conta as cotações de uma empresa que se julgava existir mas que na verdade não existia.

O problema dos reguladores que ao longo do tempo se vão demitindo do exercício das suas funções é que quando finalmente se sentem pressionados, não têm nem coragem, nem legitimidade, para fazer o que deve ser feito, limitando-se a refugiar-se em  interpretações restritas da lei.

Mais outro brilhante serviço que a Nação fica a dever à digníssima instituição.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

PORQUE NÃO DEIXAR FALIR A TAP?


Quantos biliões (milhares de milhões) custou já a TAP aos cofres do Estado português nos últimos 40 anos? Porque ninguem apresenta essas contas? Porque esse mesmo dinheiro não foi empregue a salvar outras empresas que foram à falencia? Para defender uma companhia de bandeira, aliás criação imperialista da longa noite fascista? Ou tudo isto acontece, apenas porque dada a sua relevancia os sindicatos se apoderaram da empresa como sendo coisa sua e fonte do seu poder? Porque é que hoje já poucos países têm verdadeiras companhias de bandeira e para nós isso é um drama nacional?

As empresas não pertencem apenas aos seus acionistas, mas tambem não pertencem exclusivamente aos seus trabalhadores, as empresas existem para satisfazer um cojunto complexo de interesses, começando pelos clientes e as comunidades em que as empreas estão inseridas, passando pelos fornecedores, pelos acionistas e trabalhadores. A ordem dos factores pode ser discutível mas isso não altera em nada as conclusões.

Se a TAP falir poderemos ter no máximo 6 meses de cofusão, mas entretanto outras companhias ocuparão o seu espaço, muito provavelmente com melhores preços e qualidade. Quanto aos trabalhadores, os melhores serão certamente recrutadas por outras empresas, provavelmente com melhores condições do que as que têm hoje.

Claro que eu, como a grande maioria dos portugueses gostaria de ver a TAP continuar, simplesmente  julgo que há preços que não vale a pena pagar, serão mais uns biliões para adiar um problema, tal como tem sido feito ao longo de 40 anos. Se a TAP falir que fique claro que os sindicatos assim o quizeram, tal como o pessoal que os apoiou.
MUNDO PERIGOSO - PAZ MUNDIAL?

Há muitas décadas que o nosso mundo não estava tão perigoso, e isto, hoje em dia à velocidade acelerada a que vivemos, quer dizer que rapidamente podemos estar à beira de uma catástrofe, daquelas que como tem sido habitual ao longo da história, toda a gente acha impossível até à véspera da respectiva confirmação, e alguns mesmo só muito depois de as primeiras bombas começarem a explodir.

A Rússia está à beira do abismo, o que a história tem demonstrado ser a situação mais perigosa, para a paz mundial, em que uma grande potencia militar pode estar. O médio oriente está ao rubro. Os mares da China há muito que não estavam tão quentes. A Europa está totalmente desorientada dentro das suas contradições internas e a sua fronteira a leste já está a arder. A América Latina continua mergulhada no seu populismo crónico. Os Estados Unidos como indiscutível grande potencia mundial tinham que deixar passar uma mensagem clara e coerente para o mundo, mas as divisões entre falcões, isolacionistas e moderados, levam a actuações contraditórias, que é exactamente o que o mundo não poderia ver agora.

Olhando para o quadro económico. A América Latina, o continente do populismo está de novo a mergulhar em grande confusão, com excepção, para já, apenas do Chile e da Colômbia. A Europa e o Japão são economias envelhecidas e estagnadas, com execpão quase que única do Reino Unido. Os Estados Unidos, apesar de serem a grande economia ocidental que apresenta melhores resultados continua a parecer incapaz de andar por si própria sem os imensos fluxos injectados pelo Banco Central. A China que tem sido o catalisador da economia mundial parece incapaz de continuar a desempenhar esse papel, face à necessidade de arrumar a própria casa. A Ásia, sem os motores da economia mundial a funcionar, em especial da China e do Japão, dificilmente conseguirá fugir à estagnação, numa época perigosa em que se abriram ás respectivas populações perspectivas de enriquecimento que se não vão confirmar. A Rússia, o maior país do mundo, com o petróleo a preço de banana é um deserto económico, com uma população reduzida,  envelhecida, alcoolizada, e dividida em termos étnicos e religiosos. África, que em breve será o continente mais populoso do mundo e que tem mostrado taxas de crescimento invejáveis, não tem pernas para andar sozinha num mundo que não sabe para onde vai.

A repentina e abrupta queda dos preços do petróleo, aparentemente uma óptima notícia para os países não produtores, pode ser o desplotar de todos as loucuras político-militares. Se é verdade que existem fortes razões económicas que  estão subjacentes a esta queda - queda da procura, aumento da oferta (esta em especial depois do shale gás nos EUA) - também é indiscutível que a queda dos preços tem sido potenciada pelos interesses da dupla habitual, Estados Unidos/Arábia Saudita, os primeiros para dar cheque à Rússia e os segundos para retirar espaço ao Irão.
Mas as consequencias negativas da queda dos preços do petróleo não se limitam aos países produtores, com o risco de falência das empresas exploradoras mais débeis, incluindo muitas das mais novas empresas americanas, os efeitos rapidamente se transmitirão às respectivas economias, em especial ao sector financeiro altamente envolvido no financiamento desta empresas, se assim for, depois seguir-se-á o filme que já conhecemos.

Há muito tempo que a paz mundial não estava em tão grande risco, caso não haja rapidamente algum bom senso, bastará apenas um pequeno fósforo para incendiar todo este imenso petróleo, que de repente, afinal sobra...


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

FOI COSTA QUE TRAMOU SÓCRATES?

Como é que numa terra tão dada a teorias da conspiração ninguém ainda levantou essa hipótese?
Esta é obviamente a possibilidade mais realista.
Na verdade Costa teve a oportunidade, tinha os meios e tinha o motivo, o que faria dele o suspeito perfeito em qualquer cenário de crime, porque é que até agora ninguém levantou a possibilidade?
Será que Costa tinha um álibi? Não me parece, só Marcelo acredita que um fim desonroso de Sócrates seria um pesadelo para Costa.
Ou será apenas porque os socráticos preferem agarrar-se a uma manobra maquiavelica da direita, ou dos sinistros magistrados?
Porque não mais uma manobra de mestre de António Costa? Obrigaram-no a ser candidato a 1º ministro quando o homem queria ser  Presidente, ainda queriam que tivesse de gerir o fantasma de Sócrates para o resto de vida? Sempre omnipresente sobre o seu governo?
Prender o homem era a solução ideal para todos os problemas, acabou-se com o mito, acabaram-se as fidelidades e todos os outros equívocos, e assim  Costa tornou-se o líder incontestado que salvou o partido num momento dramático. Podia haver melhor?
Depois de resolvido o problema do fantasma, dedicou-se a domar o partido, e a dar cheque ao PC e ao BE, ao mesmo tempo que deixava a direita pendurada.
Mais uma vez fez tudo certo, alguém poderia pensar que, recém chegado á liderança do partido e a um ano de eleições, fosse fazer uma abertura á direita? A guinada à esquerda era forçosa, o partido ainda saliva por essas coisas, e ao mesmo tempo entalou as esquerdas e deixou a direita a falar sózinha.
E se no futuro resolver fazer tudo ao contrario estará completamente à vontade, a sua equipe irá sempre para onde ele quizer, o partido irá sempre para onde lhe parecer estar o poder, e aos discursos empolados seguir-se á o realismo politico necessário.
Ainda não digo que o homem seja um génio, nem que vá ganhar as eleições, mas que até agora fez tudo certo disso não tenho dúvidas.
Quanto a ter sido o seu ministro da Justiça que tramou Sócrates, saber não sei, mas cada um tem direito à sua teoria da conspiração. De qualquer modo acho que já vai sendo tempo de Costa ir fazer uma visita a Évora, ter lá enviado o pobre do Soares foi uma boa idéia, mas não chega.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

ESTRANHA ALIANÇA

Mário Soares, Alberto João, Clara Ferreira Alves, Marinho Pinto, Sousa Tavares?
Ironias do destino.

terça-feira, 25 de novembro de 2014


CORRUPÇÃO

As sociedades ocidentais são relativamente tolerantes com a corrupção, em especial as do Sul. Já no Oriente, com a influencia do pensamento Confucionista, em que o colectivo se sobrepõe sempre ao individual, a corrupção é dos crimes mais graves, sendo muitas vezes equiparado ao assassinato com penas que chegam à condenação à morte ou  prisão perpétua.

Não quer isto dizer que no Oriente haja menos corrupção que no ocidente, salvo casos como os de Singapura, porque há sempre quem arrisque contando com a ineficiência dos sistemas de controle.
A grande diferença em relação ao Ocidente é que a corrupção não é vista apenas como um jogo que "quem pode pratica", mas como um crime com implicações sociais profundas, em que o custo menor são até as quantias pagas aos corrompidos. Na verdade, de forma indirecta, morre muito mais gente por causa da corrupção do que por causa de assassinatos.

Os efeitos indirectos da corrupção não podem ser escamoteados, ela começa por levar a decisões incorrectas, optando-se por soluções que não são as melhores ou são mais caras do que deviam, depois levam a que essas soluções sejam muitas vezes mal implantadas porque os corrompidos perdem o poder de controle dos  fornecedores que os corromperam. E esta é apenas a primeira onda de consequências da corrupção, mas que, por vezes leva de imediato a prédios, pontes ou estradas que ruíem repentinamente, causando vítimas.

Mas mais importantes ainda são os efeitos indirectos posteriores da corrupção, quer pelo exemplo, quer pelas consequências a nível de distribuição do poder.
Se o chefe rouba porque é que os outros não haverão de roubar?
Se a corrupção domina quem é que os chefes corruptos vão escolher? certamente quem lhes assegure o espaço necessário para as suas operações, e não os melhores.

E assim  as sociedades vão-se degradando, e nas fases mais avançadas de degradação social, a corrupção espalha-se  por toda a sociedade, tornando inevitável a ineficiência e o empobrecimento colectivos. E empobrecimento significa miséria, e miséria significa morte, muita morte.

domingo, 23 de novembro de 2014

DO ESTORIL À COVA DA BEIRA

Era uma vez a história de um menino rico cuja vida, contra todas as probabilidades, se viria a cruzar com a de um menino modesto e muito mais novo, mas que o acaso, as circunstancias, ou o destino, como se queira, fizeram com que viessem a partilhar tempos de gloria e infortúnio.

Ricardo Salgado nasceu em berço dourado, depois foi apanhado pela revolução de Abril no inicio da sua carreira profissional o que o fez andar  fora do país por alguns anos, quando regressou conseguiu impor-se como o novo líder da família, apesar de ser um Espírito Santo que de facto é um Salgado. Seguiram-se longos anos de sucessos diversos e poder crescente, até se tornar o DDT, depois foi o colapso que todos conhecemos, com os inerentes custos económicos e de imagem para o país, para um sem número de investidores que perderam tudo, ou grande parte do que tinham, e para a sua família.

Começando muito mais tarde, José Sócrates fez o percurso comum aos jovens políticos de província da nossa democracia, estruturas partidarias locais, depois nacionais, seguindo-se o Parlamento e mais tarde diversos cargos em varios governos, culminando como primeiro-ministro. Anos depois desgastado pela crise, e também por muitos casos mal explicados, perde as eleições e entra no seu "inferno astral".

Curiosamente a nossa comunicação social divide-se agora entre os que querem fazer todo o aproveitamento sensacionalista destas questões e os que vêm  de forma alarmista,  qualquer movimento da Justiça e das polícias, considerando existirem enormes riscos para as liberdades e garantias individuais.

Claro que o sensacionalismo é perigoso, e o ameaçar das liberdades individuais ainda muito mais, mas também é preciso não dramatizar com base em situações que não se verificaram. A verdade é que não existem imagens públicas da detenção de nenhum dos suspeitos/arguidos, e  umas simples fotografias de uns carros a passar não podem ser consideradas atentados às liberdades individuais, faz parte dos custos que figuras públicas têm de pagar em casos destes. Veja-se em comparação o caso dos  Estados Unidos onde se vêm na televisão suspeitos algemados e humilhados em público, sem qualquer justificação, basta lembrar Strauss-Khan.

Fala-se também em linchamento e condenação pública antes de a justiça o fazer, mas a verdade é que decida a Justiça o que decidir, a historia do BES não é explicável apenas pela crise, por azar , por pura incompetencia, ou outras razões que excluam totalmente algum comportamento doloso, toda a gente sabe disso. Como também todos sabemos que não é possível a um político que não seja rico ou não tenha tido cargos muito bem pagos, com o ordenado de primeiro-ministro ter um apartamento de luxo em Lisboa, ser cliente dos melhores alfaiates de Bevery Hills, e fazer anos sabáticos com uma vida mais ou menos luxuosa em Paris. Goste-se ou não, um primeiro ministro com aquelas condições, em Portugal nunca poderá ambicionar muito além de viver em Massamá e de passar férias na Manta Rota, ou coisa no género.
Um pato bravo qualquer pode ter montes de situações mal explicadas na sua vida, se for apanhado é problema dele, um homem público, em especial um primeiro ministro, não pode, não há como ter situações dessas numa democracia moderna.

Nada me move pessoalmente contra nenhuma das duas pessoas mencionadas, antes pelo contrario, conheci os dois em diferentes épocas e circunstancias da minha vida, e respeito a capacidade de trabalho, a energia e tambem a capacidade de conquistar poder que os dois sempre mostraram , mas lamento alguns dos caminhos pelos quais  enveredaram por razões que só eles saberão. Realço ainda que não me refiro ao aspecto político, não sou dos que pensam que Sócrates é responsável por todos os males do país, julgo mesmo que qualquer dos nossos primeiros ministros anteriores a ele, se lá tivesse estado naqueles anos, teria feito o mesmo ou pior do que ele fez, apertado entre a crise, os lobbies das construtoras, interesses diversos , e as políticas contraditorias da Europa, Sócrates fez o que o seu carácter voluntarioso, por vezes em excesso, lhe impunha que fizesse naquele quadro.

Sou contra sensacionalismos,  linchamentos públicos e versões simplistas de questões complexas, mas que muita coisa está podre neste reino que não é da Dinamarca e é uma república, isso não tenho dúvida. Agora a única coisa importante é tirar as necessarias lições do sucedido, e tomar as medidas indispensáveis para que não aconteçam de novo coisas semelhantes.

Nesse quadro a comunicação social tem um papel fundamental, mas não podemos estar optimistas, a verdade é que a comunicação social portuguesa  teve um papel relevante na destruição da monarquia constitucional e da 1ª República, e por outro lado,um papel muito menor do que por vezes se refere na queda da 2ª República. Que vai ela fazer com a 3ª?

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

O ÓDIO DE JARDIM GONÇALVES

A longa entrevista dada ontem à noite por Jardim Gonçalves à RTP parece ter como única finalidade destruir Carlos Costa.
Tratou-se de um rebuscado exercício de um homem que diz não estar a par de nada do que se passa no sector, que nada sabe do inquérito parlamentar, que nada sabe do que se passou no BES, etc. A única coisa que ele sabe é que Costa não exerceu o poder que tinha, e depois fez tudo errado.

O ódio destilado contra Costa é tão grande que Jardim até perdoa  a Ricardo Salgado, apesar do papel que este teve no ataque ao BCP.

Muita gente tem dúvidas sobre se as opções do Banco de Portugal foram as melhores, mas nenhum de nós sabe o quadro exacto em que foram tomadas, salvo Jardim, que não sabe nada do que se passa no país mas que sabe tudo sobre o Banco Central.
Também a questão do poder do BP para afastar Salgado é controversa, mas Salgado não era apenas  um banqueiro, ele era de facto o DDT, e para mais sentado num banco que de repente se soube que estava falido. Não daria neste caso para o BP usar tácticas de guerrilha administrativa sobre o BES, como Jardim insinuou.

Toda a entrevista foi sem dúvida um exercício exemplar, de inteligencia, de cinismo e de ódio.

Estará o país  tão podre que Carlos Costa possa acabar por ser a grande vítima de todo este processo?


quinta-feira, 30 de outubro de 2014

E A CMVM??!!

Foi o BCP, foi a CIMPOR, foi o BES, foi a PT, foi também o BPN, ou seja, umas dezenas de biliões de dólares que pura e simplesmente se evaporaram, e que fez a CMVM?
Que mais será preciso acontecer para que se perceba que a CMVM não existe?

Pior, seria bem melhor que não existisse, pelo menos não daria a errada sensação de segurança aos accionistas, outros investidores e ao publico em geral, julgando que são protegidos por um polícia dos mercados, que afinal dorme o tempo todo.
E para que a luxuosa instituição e seus quadros durmam descansada e cómodamente, o público vai pagando as taxas necessárias para os sustentar, segundo ela sem custos directos para o contribuinte, mas com custos incalculáveis para a sociedade.

E a vergonha internacional??!! Qualquer questão complexa, que leva a exame detalhado e forçosamente demorado em qualquer parte do mundo, é rapidamente aprovada pela CMVM, vejam-se as complexas operações da PT/OI.
Enquanto a CMV brasileira  estudou detalhadamente em cada fase como estavam protegidos os interesses dos accionistas da OI e continua a estudar a ultima fase do processo que ainda não está aprovada por ela, que fez a CMVM?? aprovou sempre  tudo rapida e urgentemente com enorme sentido do necessario esforço patriotico. Ter uma Comissão cheia de génios proporciona-nos esta vantagem!
De facto pode-se acusar a CMVM de tudo, menos de não ser rápida a decidir! Tudo menos empata! Ou será que se trata apenas de desejo de voltar rapidamente ao seu sono profundo??

Chegámos ao ponto em que já ninguém tem nem confiança,nem esperança, nas instituições nacionais, sejam reguladores, sejam tribunais. Neste ponto todas as nossas esperanças se concentram agora apenas no estrangeiro, seja o Luxemburgo, a Suissa, os Estados Unidos, o Brasil ou até, (porque não?) Angola. Em lugar de lutar para que as nossas instituições façam o seu papel, limitamo-nos a ter esperança que alguma entidade esrangeira o faça, o que óbviamente não irá acontecer.

Será que a CMVM apenas dorme, ou já morreu e ninguem deu por isso?

terça-feira, 28 de outubro de 2014

POBRE ANTÓNIO COSTA

Estava ele a gozar os prazeres da vida, presidente incontestado da maior Câmara do país, para mais cheia de dinheiro que o governo lhe deu, patrono da cultura e das artes, comentador diletante, bem humorado e bem pago, com apoios desde a direita às franjas da esquerda radical, e ainda por cima com pouco trabalho porque o que tinha a fazer era facilmente delegável, quando senão....
Naquele quadro o objectivo óbvio era a Presidência, não só a presidência como a re-presidência, que o país já demonstrou que reelege qualquer mono, quanto mais a ele. Presidência de onde certamente sairia com maior unanimidade do que a rainha de Inglaterra.

Quem tramou o Costa? Guterres vai mesmo avançar? Ou foram  apenas os grupos de interesse do PS que acharam que era tempo de obrigar o homem a expôr-se? Eles tinham pressa e chegava de boa vida para Costa?

Estes partidos são maquinas de poder e quando estão muito tempo afastados dele, começam a ficar nervosos e a procurar soluções que lhes permitam o retorno ao poder. No caso do PS não era bem assim, mais ou menos feliz, o partido estava controlado por Seguro e tinha uma vaga esperança de chegar ao poder, apesar da falta de carisma do líder.

Só que essa vaga esperança não era suficiente para aplacar a ira e as ambições dos sectores mais carentes, eles tinham pressa, era preciso reduzir ao mínimo qualquer possibilidade de o governo não perder as eleições, eles precisavam de Costa, acontecesse o que acontecesse, esse era sem dúvida o melhor cavalo disponível. E assim, deram cabo da vida ao homem, já não há comentador, já não há boa vida, a imagem consensual vai desfazer-se, e vai dar muito, mas muito, trabalho.

Falemos agora dos carentes do poder, curiosamente neste caso os carentes são encabeçados pela brigada do reumático do partido, ele é Soares, ele é Almeida Santos, ele é Alegre, e até para surpresa geral conseguiram envolver nisto Sampaio, homem que até aqui tinha conseguido demonstrar bom senso e independência de pensamento, coisas da idade. Para além da brigada, existem óbviamente sempre montes de candidatos a lugares e negocios públicos e as maçonarias, a pressionarem pelo rápido regresso ao poder a qualquer custo. Não seria justo esquecer aqui os jovens turcos, também eles ansiosos por mostrar as suas habilidades, tal como os jovens cavaleiros que rodeavam D. Sebastião em Alquecer-Quibir, com os seus sonhos de glorias e saques diversos.

E tudo isto para quê? Se António Costa não ganhar as eleições irá perder grande parte do seu prestígio, e terá que recomeçar a vida política quase que do zero. Se as ganhar terá que fazer todo o mal que Passos não pôde ou não quis fazer, Costa irá fazer a revisão constitucional, e todas as outras reformas que a Europa vai exigir, não terá como as não fazer, a melhor opção será mesmo fazê-las logo que chegue ao governo, para ainda ter tempo de beneficiar dos seus efeitos, isto se a tal brigada míope e a direita o deixarem. A brigada impediu Seguro de viabilizar as medidas que a Europa queria, apenas para dificultar a vida a Passos Coelho, agora sobra para Costa fazer tudo o que já devia estar feito.

Seja como for, nada será como dantes para Costa, poderá não ser como passar do paraíso para o inferno, mas pelo menos para o purgatório será.






segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A MISSÃO QUASE IMPOSSÍVEL DE DILMA

São três os grandes desafios de Dilma. Se ela não souber responder-lhes o Brasil arriscará de novo uma solução não Constitucional.

- Conseguir controlar a voracidade de camaradas e aliados, desafio este que as condições da presente vitoria tornam ainda mais difícil.

- Voltar a pôr a economia a funcionar, coisa que não se vê que alguém no PT saiba fazer, a menos que nova onda de subida dos preços das matérias primas venha salvar o partido

- Conquistar as populações das grandes cidades, em especial a juventude, que ela já tinha perdido nas manifestações contra o campeonato do mundo e que os escândalos de corrupção afastam cada vez mais

Em que condições vai o Brasil estar quando dos Jogos Olímpicos de 2016?
Como vai Dilma conseguir chegar a 2018? Qual a solução constitucional se ela não tiver condições para chegar lá?

Há já quem oiça o tilintar das espadas ...



segunda-feira, 20 de outubro de 2014

A PT, A OI, OS CAMPEÕES NACIONAIS E A IMPRENSA

Como se deveria saber desde o início, o único interesse da OI na grande operação de fusão era os biliões que a PT lhe entregou, a ela e aos seus acionistas, acrescidos dos que a venda da propria PT e seus activos viria a gerar.
Só por interesses obscuros ou ingenuidade se poderia supor que as coisas fossem diferentes, o mercado de telecomunicações brasileiro é extremamente dificil, de enorme dimensão e exige investimentos extremamente vultuosos. Qualquer ilusão sobre uma possível estrategia lusófona, para mais por parte de um grupo descapitalizado, foi sempre apenas "wishfull thinking", mais uma vez por ingenuidade ou dolo, como se queira.

O caso da dívida da Rio Forte foi a cereja no topo do bolo para a OI, teve então a desculpa ideal para se livrar da PT e da gestão portuguesa, sem grandes custos de imagem, acabando por sair até mesmo como vítima das trapalhadas portuguesas,e realizando mais rapidamente todo o caixa possível para as suas necessidades no Brasil.

Agora vêem os grandes estrategas portugueses, com o seu duvidoso curriculum, alertar para a urgência de que o estado salve o campeão nacional, como se os estados pudessem fazer ou salvar campeões nacionais.
Os campeões nacionais fazem-se por si, não são feitos pelos estados, o que os estados podem fazer é estragar com mimos, hipotéticos campeões à custa do contribuinte. A PT já não tem possibilidade de vir a ser um campeão nacional, essa possibilidade, se é que existiu, já passou.

Seja a Altice, seja outra solução do mesmo tipo, mesmo que disfarçada sob a capa de um voluntarioso grupo de "patriotas" que vão salvar o tal campeão, é esse o destino de curto prazo da PT. Logo depois de esse novo proprietário arrumar a casa irá vendê-la, a um ou vários operadores de telecomunicações,  realizando uma significativa mais valia. Por ironia das coisas esse segundo negocio poderá mesmo ser contratado logo quando da efectivação do primeiro.

O mais preocupante de tudo isto é que à conta de delírios sobre campeões nacionais o contribuinte venha a ter que digerir mais uma enorme fatia dos custos de toda esta operação.
O facto de o estado estar falido não é garantia suficiente de que não venha a suportar os custos das habilidades que se vão seguir, infelizmente a historia da 3ª República mostra bem como isso tem sido feito.

E depois temos a nossa imprensa, que noutro país qualquer seria uma esperança de vigilância do interesse público mas que em Portugal é apenas um negocio monopolista como outro qualquer, que assegura apenas a maximização do seu poder e lucros.
Entre nós a imprensa ganha quando inventa campeões e seus agentes, que lhes pagam por isso, depois ganha vendendo jornais para explicar como esses campeões se afundam. Continuando no entanto sempre atenta a novo negocio que possa surgir de um possível "renascer"  de um campeão que possa voltar a ser fonte de receita.

Pobre país!

sábado, 24 de maio de 2014

BANQUEIROS À PORTUGUESA E O BP
 - DE JARDIM A SALGADO

Em todo o globo o mundo financeiro é um terreno complicado, em que é mais ou menos comum o surgimento de situações inesperadas muito graves, isto porque a sofisticação dos instrumentos financeiros e a alavancagem tornam difícil aos controladores e reguladores assegurar que os operadores não correm riscos desmedidos, de consequencias incontroláveis.

No caso do nosso pequeno pseudo-capitalismo, alguns serão induzidos a pensar que o que se passa é mais ou menos o mesmo do que no resto do mundo. Infelizmente os nossos problemas são  bem mais prosaicos, eles estão ao nível da falta de sofisticação do nosso mercado e dos seus instrumentos, assim como da incompetência de reguladores e controladores.

Olhando para o passado recente da banca nacional a situação pode resumir-se da forma seguinte:

- BPP - um fundo de Investimento agressivo a quem o Banco de Portugal (BP) decidiu dar uma licença bancaria, não se sabe porquê
- BPN - um caso de policia, nacionalizado a bem dos prevaricadores
- BANIF - alguma vez preencheu de facto as condições para ser um banco?  o BP  achou que sim
- CGD - teoricamente o banco do Estado, na pratica foi a mãe de todos os negócios de grupos e mafias diversas, que originaram os bilionários prejuízos agora acumulados
- BPI - Aparentemente o único banco "normal", com os problemas normais numa grande crise internacional

Neste quadro restam os dois grandes bancos privados nacionais, bancos que tudo levaria a crer estarem fadados ao sucesso, quer nacional quer mesmo internacional, BCP e BES, e que estão hoje nas situações que todos mais ou menos conhecemos.

O BCP foi um dos "cases" mais importantes em Portugal, no que se refere à velocidade e segurança de lançamento de uma grande operação entre nós, de facto o BCP revolucionou a forma de lançar negócios no país, assim como de desenvolver o negocio bancário, e depois disso, durante uns bons anos continuou a ser um caso de enorme sucesso.
Tempos mais tarde tudo se perdeu, sob o olhar sempre desatento do BP, começaram os malabarismos diversos,e contra eles apenas se levantaram outros artistas que apenas queriam substituir-se aos malabaristas de serviço.
Hoje só é estranho como é que o banco era tão forte que resistiu  aos malabarismos, às ondas de assaltantes,  e depois a esta enorme crise, tudo sempre sob o olhar complacente do BP.
Com uma equipe de luxo, onde se perdeu o BCP?

O BES era outro caso fadado à nascença para o sucesso, não arrancou com o dinamismo do BCP, mas tinha atrás de si o peso da tradição e a imagem do grande banco nacional que sobrevivera/renascera independente após  revolução, alem disso, tal como BCP, tinha também uma equipe de qualidade e um líder incontestado.
No entanto, há muito que não há praticamente escândalo económico em Portugal em que o nome do banco não seja envolvido. Na maior parte dos casos tudo fica por esclarecer de forma cabal, como é usual com a nossa justiça, no entanto a possibilidade de  que se trate apenas de coincidencias ou azares, é cada vez  menos plausível  para o publico.
Agora o presidente do banco vem dizer que a origem de todos os problemas são dois casos de ausência total de controle interno dentro do grupo (Holding e Angola), o que por si só seria já alarmante, no entanto tudo leva a crer que as coisas sejam bem piores.
Aparentemente, um banco envolvido em tantos pequenos e grandes escândalos teve necessidade de se envolver em situações e com pessoas não muito recomendáveis, que poderiam ter aparente utilidade imediata, mas com riscos para o espírito do grupo,  para as suas praticas, e finalmente, para a sua solidez. Como em tudo na vida os atalhos simplificadores pagam-se caros.
O BES seria assim dois mundos, o mundo formal com a sua tradição e a sua equipe de luxo, e o mundo informal, mais "dinâmico", habilidoso, actuando sempre nas margens da legalidade, que gravitava à sua volta e que o primeiro grupo julgava controlar.
Também aqui tudo sempre sob o olhar desatento do BP.

Ricardo Salgado vai conseguir manter-se? Vai conseguir fazer o seu sucessor? Seria saudável que alguma dessas coisas acontecesse? A resposta óbvia parece ser que não.
Embora estas questões possam parecer importantes, na verdade elas são já claramente secundarias.
A grande questão é saber como chegamos aqui, como foi possível? Para alem da incompetência, cegueira ou temor reverencial do BP, como foi possível a banca chegar a este ponto?
Para não procurar exemplos mais longe e ficar dentro da nossa área cultural, como é que aqui ao lado, Espanha produziu grandes bancos e banqueiros (a par de outros casos nada exemplares), e nós apenas este pântano doentio e pequenino?
Teria sido possível que Jardim e Salgado tivessem sido grandes banqueiros, com peso e prestigio internacionais, onde é que eles se perderam? Onde é que a nossa banca se perdeu? Para alem da ostensiva ausência de um BP o que fez que assim fosse?
A resposta a estas questões é agora especialmente importante, porque vivemos os dias em que a banca europeia mais poderosa resolveu deixar de jogar o jogo do faz de conta, como tem feito até agora,  e decidiu que é tempo de encarar a sua recapitalização. Quem vai recapitalizar a banca portuguesa? Vai restar algum banco nacional no final do processo?

Finalmente o BP decidiu assumir o seu papel de regulador, auditor e controlador do sector, depois de anos de incompetência em que todos os partidos que passaram pelo poder, e não só, tiveram enormes responsabilidades. Também será de realçar o facto de pela primeira vez um governo ter resistido às pressões, que julgo imensas, para que mais uma vez se arranjasse uma pseudo-saída do problema, o que não teria sido mais do que um adiamento de um cancro que cresceria como uma bola de neve e que depois se tentaria transferir para o erário público. Claro que as limitações impostas pelos controles comunitários também vieram diminuir o espaço para as nossas tradicionais habilidades.

Toda a historia deve ter uma conclusão moral, julgo que também esta.
Todos estes "embrulhos" tiveram custos enormes para  os accionistas envolvidos, tanto para os pequenos como para os controladores, para o país, tanto em termos de prejuízos materiais como de imagem, enfim e sobretudo, perdas incalculáveis para todos nós. Tudo isto porque os governos, os reguladores e os controladores se demitiram, deixando o campo aberto aos habilidosos e malabaristas.
Os únicos ganhadores de todos estes processos acabaram por ser precisamente esses habilidosos e malabaristas, cuja únicas qualidades são precisamente essas, e que se estas oportunidades não lhes tivessem sido abertas, seriam apenas os pobres diabos que efectivamente são, e não os homens muito ricos que alguns até serão.
Curiosamente até Jardim e Salgado acabam também por ser vitimas deste processo, em que foram protagonistas e responsáveis importantes. Serão certamente os dois homens ricos, também o seriam se tivessem trilhado outros caminhos, talvez até muito mais, veja-se Botin. Mas na verdade dificilmente terão a imagem publica que poderiam ter tido. Porquê terminar sem honra nem gloria envoltos em suspeitas, dúvidas e acusações?
Apesar dos custos sociais de toda esta historia nem tudo teria sido perdido, se pelo menos tivéssemos a certeza que nunca mais situações destas se repetiriam, e que o rigor, o trabalho e inteligência, passassem a ser critérios de avaliação mais importantes que as capacidades malabaristas nos bordos da legalidade.




sábado, 4 de maio de 2013


A QUESTÃO DOS "SWAPS" É UMA FARSA ?

Não é estranho que o problema destes contratos de swap só apareça exactamente quando eles começam ser menos interessantes  para os bancos?

Ontem as taxas de juro dispararam nos Estados Unidos, toda a gente sabe que as taxas vão subir num prazo mais ou menos curto, não será por isso que os bancos querem é sair destes contratos no ponto ideal, antes que eles se virem contra eles?

Foi por essa razão que foi montada esta grande encenação e se criou um escândalo com aqueles contratos ? Escândalo esse que ainda ninguém explicou. Onde estão os tais "contratos tóxicos"? E as tão faladas provas e responsáveis? Qual a justificação para  a opacidade de todo o assunto?

O governo aparece agora como o cavaleiro andante impoluto que vai "renegociar de forma dura, nos tribunais se necessário", os referidos contratos. O primeiro "sucesso" das negociações foi  uma redução inicial de 100 milhões nos 3.000 milhões. Para dar credibilidade à encenação o governo acha pouco e ameaça com tribunais, quer 500 milhões, será que é tudo teatro?

Mas a verdade é que, mesmo a custo zero, pode não ser bom para as empresas nesta altura sair de alguns contratos de swap de protecção da taxa de juro.

Se as empresas pagarem agora 2.500 milhões para sair dos presentes contratos, terão a médio prazo de pagar mais 4.000 ou 6.000 milhões em juros adicionais. Ou seja, esta pretensa operação de saneamento irá provavelmente custar às empresas e ao país mais de 8.000 milhões, o que só por si representa quase duas vezes o buraco orçamental tão propagado pelo governo.

Sair agora de alguns destes contratos pode ser o melhor presente que se pode oferecer à banca. Até este momento a banca não teve custos com a cobertura das suas posições porque o mercado evoluiu a seu favor, mas a banca sabe que agora o mercado vai evoluir contra ela, e a gestão das suas posições vai passar a ser dispendiosa. Será que a banca quer aproveitar o espantalho de um falso escândalo, agitando o perigo dos 3.000 milhões, para sair com um "acordo" que só pode ser bom para ela própria?

Sair dos contratos no ponto em que as potenciais perdas das empresas estão no máximo e em que os bancos vão ter de começar a ter despesas com protecção das suas posições, é o negocio ideal para a dita banca, e criminoso para o país.

É sempre esta a estratégia da banca neste tipo de operações, procurando antecipar as mudanças nos mercados e terminando com os contratos antes de  começarem a correr contra ela, com a vantagem que é exactamente esse o momento em que o cliente está mais assustado com as perdas entretanto acumuladas.

Estes contratos celebrados pelas empresas tiveram  custos de constituição e de manutenção, e acumulam agora perdas potenciais significativas, mas sair deles neste momento pode ser a pior solução para as empresas e para o país.

A opacidade com que este assunto está a ser tratado não é aceitável. Existem contrato tóxicos? Quais são? Quem são os responsáveis? Como vai ser negociado todo este dossier? Vai ser dado à banca o presente que ela quer?

É uma vergonha nacional se tudo isto não for bem conduzido e explicado!

Os países pobres não são pobres pela falta de recursos, são pobres porque são incompetentes e corruptos.

domingo, 14 de abril de 2013

A REMODELAÇÃO PODE FUNCIONAR

Estranhamente todos os comentadores estão contra a mini-remodelação de Passos, no entanto ela parece-me das poucas decisões acertadas tomadas recentemente pelo Primeiro -Ministro.

Marques Guedes vai fazer o que tem de ser feito nas suas áreas,  de forma discreta, diligente, rigorosa e o mais consensual possível.

Poiares Maduro (que não conheço), parece que será a única pessoa neste governo com capacidade para "pensar Portugal" de uma forma minimamente criativa, mas, mais do que isso, julgo que ele poderá ter a capacidade de explicar aos portugueses o que efectivamente se passa, o que tem de ser feito e porquê, e assim conseguir dar ao país algum sentido para os tempos difíceis que se viveram e ainda se vão viver.

Poiares parece ter as capacidades para fazer o que este governo mais ou menos autista não conseguiu fazer até agora, ou seja,  contar aos portugueses uma "história" minimamente compreensível e motivadora. Assim sendo, o seu papel no actual governo passará a ser crucial para o sucesso do mesmo e do país, pelo que a atribuição da gestão das verbas do QREN ao homem que vem para o governo para "pensar Portugal" e para explicar aos portugueses o que tem de ser feito me parece fazer todo o sentido, só assim ele terá poder suficiente para não se apenas um porta-voz do governo constantemente ultrapassado pelos acontecimentos, e se tornar um elemento marcante da governação nos próximos tempos, tanto mais que tem conhecimento técnico na área económica.

sábado, 9 de março de 2013

OS CHAVEZ

Chavez sempre foi visto como uma daquelas personagens teatrais  só possíveis em países de terceiro mundo, filhas da esquerda revolucionaria e do populismo.

Mas na verdade Chavez, pareça ou não personagem de uma ópera bufa, é sobretudo uma consequencia da histórica inconsciência social das elites venezuelanas,  do seu afastamento em relação ao seu povo e até da própria divisão étnica entre ela, pretensamente "branca" e uma enorme maioria, mais ou menos índia.

Foi esta clivagem social e étnica que gerou Chavez, e tal como ele mais alguns dos actuais líderes da América Latina de origem espanhola, líderes da mesma escola embora menos estrionicos e com menos petróleo. Enquanto a visão de curto prazo das elites e a sua incapacidade para resolver os problemas dos diversos países continuarem, outros Chavez virão, alguns talvez mesmo bastante mais radicais.

A verdade é que enquanto estas elites não mudarem elas continuarão a produzir os seus Chavez, de forma mais ou menos regular, tanto mais agora que a causa ganhou um novo santo já embalsamado, este sim, filho do povo, ao contrario do "herói bolivariano" que ele idolatrizou e que não foi mais do que o agente dos interesses das elites locais da época.

Mas os Chavez ´não são um exclusivo do folclore latino americano, eles podem surgir por outros lados. Também nós tivemos já o nosso Chavez, também ele coronel, de nome Vasco Gonçalves, e que não teve o sucesso do outro porque não existia em Portugal nem o petroleo, nem uma base social para a personagem, o que não quer dizer que esta não possa vir a existir.

Com o aumento da indiferença das elites pelas questões sociais, com os crescentes níveis de incompetência e corrupção, reais ou não, mas apercebidos pelas populações, o mais natural é que os Chavez comecem a pipocar por esse mundo fora.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O BANQUEIRO COMENTADOR VOLTA A ATACAR

Como se não bastasse esta situação caricata, só possível em Portugal, de existir um banqueiro comentador, agora o referido comentador faz ainda questão de procurar demonstrar que tem sempre razão, mesmo contra a opinião pública em peso. Aparentemente apenas para provar que é mais inteligente que todos os idiotas nacionais.
Que diria o banco se um dia, um louco qualquer, resolvesse lançar uma campanha de boicote à instituição? Continuaria o comentador tão activo?

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

A QUESTÃO DAS PENSÕES

Podem resumir-se em quatro as diferentes posições "simplistas" que têm vindo a ser tomadas sobre este assunto:

- o sistema está falido e no futuro não haverá pensões para ninguém, pelo que desde já todos os pensionistas devem começar a ser penalizados

- as pensões estabelecidas são um direito intocável, independentemente das condições económicas do país e da forma como foram obtidas

- os sistemas de previdência que foram capitalizados pelos privados de forma correta têm de ser tratados de forma diferente dos da Previdência geral

- o governo arroga-se o direito de impor taxas especiais sobre as reformas mais altas, fazendo-o de uma forma totalmente arbitrária e dando tratamento desigual a cidadãos com rendimentos equivalentes

Para além destas posições simplistas sobre o assunto, tudo é ainda agravado pelo interesse, mais ou menos disfarçado, de  alguns grupos em vir a reduzir a previdência pública em favor de um sistema de previdência privado. Operação esta que ninguém sabe como seria realizável sem a ruptura total da actual previdência pública.

Relativamente às quatro posições atrás referidas é importante notar:

- o sistema está de facto falido, no sentido em que não existem reservas acumuladas, pois os saldos verificados ao longo dos anos, por via da diferença entre as contribuições das empresas e dos trabalhadores e as pensões pagas,  foram sendo gastos para pagar despesas correntes do estado. Mas não se pode por isso argumentar que os "velhos" sejam uns priviligeados que têm de ser penalizados pelos gastos do estado. Isto apesar de se saber que existe um numero considerável de beneficiários que pouco ou nada contribuíram para o sistema, dado que estes casos se encontram quase que totalmente ao nível das pensões mínimas, pelo que se trata sobretudo da correcção de uma injustiça histórica que o Estado/Previdência tem de suportar

- as pensões não são um direito intocável, numa época em que temos visto todos os direitos serem postos em causa face à situação de crise que vivemos, não há justificação para que com os valores das pensões não se passe o mesmo, em especial para as mais altas. Mas, mais do que isso, existem muitas pensões elevadas cujo montante nada tem a ver com os valores descontados ao longo de toda a carreira contributiva, e que foram fixadas arbitrariamente com base apenas no ultimo salário e em carreiras contributivas curtas, ou em função de outras justificações semelhantes

-não é justa qualquer distinção entre pessoas que tiveram o mesmo volume de descontos para os sistemas de previdência, seja por serem oriundas de diferente sistema de previdência ou por outras quaisquer  razões. Se havia sistemas que estavam (ou foram apressadamente) capitalizados e outros não, é culpa de Estado, e o sistema (agora comum)  não pode distinguir entre uns e outros

-a posição que o governo decidiu assumir face às pensões mais altas, para além de ter legalidade no mínimo duvidosa, não tem qualquer critério de justiça subjacente, nem é um sistema eficiente. Se se pretende reduzir as pensões acima de determinado valor a única via legal, justa e eficaz, é propor à Assembleia da República uma lei que permita recalcular todas essas pensões mais elevadas, em função dos descontos efectivamente efectuados por essas pessoas ao longo da sua carreira contributiva. Só se o governo assim fizer estará a corrigir situações erradas e injustas (poderá até propor nesse projecto de lei critérios mais rigorosos do que os existentes para as pensões mais baixas), o que o governo não pode é arbitrariamente fixar "impostos" especiais para determinado grupo de cidadãos, nem desligar a relação que tem de existir entre o valor total dos descontos efectuados ao longo da vida e a pensão a que se tem direito, fazê-lo é, para além de injusto, extremamente perigoso porque vai levar inexoravelmente à perversão do sistema, que em lugar de ficar mais viável o ficará cada vez menos.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

BOM SENSO DE CURTA DURAÇÃO

Primeiro Junker diz que as condições dadas à Grécia serão extendidas a Portugal e Irlanda, de seguida Passos e Gaspar confirmam a ideia como conquista da sua brilhante actuação.

Agora o Conselho Europeu vem dizer que não há "extensões", o caso grego é especial. Claro que o caso grego é especial, não era uma solução igual que se pretendia, mas apenas a extensão aos outros países da redução dos juros e do aumento dos prazos da dívida. Depois, como já é habitual, Passos e Gaspar confirmam que nunca pretenderam qualquer extensão das condições gregas.

Mais uma vez a pressão dos falcões (Alemanha, Áustria, Holanda e Finlândia) agora acompanhados pela França, veio travar aquele que era o entendimento inicial do Conselho Europeu.

Isto não seria grave se o objectivo dos ditos falcões fosse apenas ter os países em resgate sempre no fio da navalha para os obrigar a fazer o que tem de ser feito, mas a verdade é muito pior, o que os tais falcões  pretendem é ter esses países sempre em posição de serem mandados "borda fora" do euro, se e quando as condições económicas o permitirem, e o acharem da sua conveniencia.

Nisto tudo o mais preocupante é a arrogância ignorante. Mais uma vez a Europa quer convencer-se e convencer o mundo que o seu problema está resolvido. Não está, nem sequer a caminho disso. A Europa insiste em não fazer o que precisa para resolver os seus problemas, o que é tanto mais grave quando a economia mundial volta a dar sinais de estagnação.

Mais uma vez o que se fez foi adiar problemas e apenas tirar, para já, a Grécia do banco das urgências. Os mercados responderam com descidas dos juros e subida do euro em relação ao dólar americano, que já passou o 1,3 e talvez até venha a chegar de novo ao 1,36. Depois, como vem sendo hábito, teremos nova crise, novas medidas, mais ou menos avulsas, e o empurrar de novo os problemas com a barriga sem os resolver. Até quando?

 No meio disto tudo continuamos com o nosso pretenso comportamento de bom aluno, que  seria até uma estratégia com sentido, se fossemos um bom aluno com personalidade, ideias e coragem, mas não como um pequeno aluno médio, que se limita a ser um lambe-botas de professores, ignorantes também eles, e no fundo desprezado pelos ditos professores e odiado pelos colegas.

Por este caminho vamos afundar-nos todos, entre egoísmos, miopia e incompetência.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

FINALMENTE ALGUM BOM SENSO

Ao fim de longas negociações, a Europa, ao que parece apenas graças ao FMI, lá acabou por reconhecer que de nada serve fazer de conta que os problemas não existem e continuar a adiar as inevitáveis soluções.
A Grécia, e por extensão Portugal e a Irlanda, vão ter juros mais baixos e aumento da maturidade das suas dívidas.
Não é o fim das crises, mas pelo menos permite que os deficits possam de facto começar a cair e com eles as dívidas públicas destes países.
Venceu o bom senso. O lamentável é que isso se deva apenas e tão só ao mau comportamento sistemático da Grécia e à razoabilidade do FMI, por si só a Europa não teria sido capaz de o fazer.
Para que as perspectivas de facto melhorem e toda a austeridade faça sentido, é necessário agora que se encontrem formas de garantir o financiamento à actividade das empresas competitivas.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

AS TROYKAS DESISTEM DE CONTROLAR OS DEFICITS, VIVA A BANCA-ROTA!

Está a acontecer em relação à Grécia, Portugal, Irlanda e até com a pré-troyka espanhola.
Parece ser uma boa notícia, mas não é, é mesmo exactamente o contrário.

Como todas as previsões que fazem têm-se comprovado erradas, agora as troykas decidiram que os deficits não importam, desde que as reformas preconizadas sejam feitas. Isto seria óptimo se as dívidas públicas dos países envolvidos parassem de aumentar, o que é impossível com a continuação dos deficits existentes, ou seja, esta postura "flexível" das troykas não resolve nada, limita-se a empurrar os problemas com a barriga.

Isto é como se a um doente grave o médico lhe dissesse que não o ia incomodar mais com o controle da febre, mas que de resto mantinha todo o tratamento, mesmo não estando a fazer efeito, como se bastasse  ignorar os sintomas para que o doente se curasse.

Em vez de finalmente as troykas assumirem que os programas de ajustamento precisam de modificações, seja descida dos juros, seja apoio ao crescimento económico, as troykas limitam-se a empurrar  todos estes países para uma inevitável banca-rota a prazo, decidindo depois se fazem o "hair-cut" das dívidas, ou os expulsam do euro.

Como todas as estratégias que passam por não enfrentar e simplesmente adiar os problemas reais, esta também só pode acabar mal, e ainda por cima desacreditar as dolorosas reformas que têm de facto de ser feitas, mas que neste contexto são muito mais difíceis de realizar e que poderão acabar por não servir para nada.

Todos sabemos da indisciplina grega, e que aquele país sempre tentou não implementar a maioria das reformas preconizadas, de qualquer forma vale a pena ver o gráfico abaixo sobre os sucessivos erros das previsões da troyka relativamente  ao crescimento do Produto Interno grego de 2009 a 2012 (erros sempre superiores a 6%, entre a primeira estimativa e o resultado final):


http://rwer.wordpress.com/2012/11/09/folly-from-olly-the-disasterous-quality-of-the-economic-predictions-of-the-european-commission/

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A ESQUERDA E ISABEL JONET

Alguém sabe de algum projecto assistencial que a esquerda tenha criado ou apoiado? Claro que não, depois das ideias de Zola e de algumas iniciativas do início do sec XX, nunca mais a esquerda teve qualquer acção nesse campo.

A esquerda radical sempre teve a teoria do quanto pior melhor, não fazendo por isso sentido qualquer apoio social que não seja aos seus camaradas de luta anti-capitalista. Por sua vez a esquerda moderada sempre achou este tipo de "caridadezinha" uma chatice pouco interessante, sobre uma questão que cabe ao estado social resolver.

Isabel Jonet não é nem uma mulher da política, nem uma intelectual, pelo que é fácil que nos tempos que correm tenha caído em considerações um pouco confusas. Isabel é apenas uma mulher de acção que dedicou a vida a um grande projecto social, uma causa que a esquerda radical julga prejudicial aos seus interesses e a moderada olha com desdém.

Perante tudo isto a verdadeira questão que se põe é  a de saber o porquê desde súbito interesse das esquerdas por este "prejudicial, enfadonho e desprezível"  tema. A resposta só pode ser uma, a esquerda acha que nos tempos que correm a conquista de uma organização poderosa, como é hoje o Banco Alimentar, pode ser um passo importante na sua estratégia de conquista do poder, isto mesmo sabendo que fecharia o dito Banco no dia em que conquistasse o poder.

Eu subscrevo o abaixo-assinado a favor de Isabel Jonet não pela correcção das suas declarações, mas simplesmente porque na verdade não é nada disso que está em causa.

domingo, 11 de novembro de 2012

É TEMPO DE A ALEMANHA DEIXAR O EURO


Face às actuais posições da Alemanha, ou temos uma Europa com dois "euros" ou não teremos Europa, e assistiremos ainda ao agravar da crise  económica mundial.

A Alemanha tem razão em querer forçar que os países "indisciplinados" façam as reformas que têm adiado desde sempre, e que continuarão a adiar se os não pressionarem a não o fazer. Só por via dessas reformas a Europa poderá encontrar o seu espaço num mundo cada vez mais competitivo.

Mas Merkel já não tem razão quando quer que essas reformas sejam feitas em simultâneo com o apertar de cinto generalizado em toda a Europa e sem incentivos especiais aos países em crise. Por essa via teremos um suicídio colectivo.

Face à obsessão alemã contra o crescimento, antes de serem eliminados os deficits em vários países europeus, a única saída que resta à Europa é que a Alemanha (juntamente com a Finlândia, Áustria e Holanda) deixem o euro e adoptem um novo "marco". Se isso não acontecer todo o projecto europeu estará em perigo.

Se a Alemanha se opõe a que no quadro do euro os países com menores deficits se comportem como locomotivas do crescimento do continente, facilitando por essa via o ajustamento das economias mais frágeis e em contracção, então a única solução é que estas economias mais frágeis voltem a ter acesso ao controle de uma política monetária, económica e fiscal mais coincidente com as suas necessidades de sobrevivencia, sem o que todo o edifício desmoronará.

Porque deve ser a Alemanha a sair e não o contrario? A lista de justificações é grande, apenas os pontos principais:

- o grosso da população da zona euro (220 milhões no total de 333 milhões), está em países que necessitam de um rigoroso ajustamento, portanto de um euro sem as exigências da Alemanha

- o regresso individual a antigas moedas por vários países europeus implicaria uma crise financeira colossal na Europa e no mundo, para alem de instabilidade politica e social incontroláveis nos países envolvidos

- um novo "marco", adoptado por quatro ou cinco países disciplinados e com economias homogéneas e estabilizadas, pode ser facilmente conseguido através de uma união monetária simples

- a criação de uma nova moeda para o bloco dos países em dificuldade seria inviável pela complexidade da operação e pela desconfiança que o processo induziria, e conduziria também a uma crise financeira mundial

- a criação de um novo "marco", para a Alemanha e outros países que a quisessem seguir, é a solução mais fácil, mais exequível, melhor para a Europa e para o mundo

- esta via será facilmente reversível no futuro, quando as economias hoje em dificuldade tiverem arrumado as suas casas e um euro único voltar a fazer sentido

A via de um euro sem a Alemanha não será por si só uma solução milagrosa, nem evitará as reformas nas economias menos competitivas, mas se gerida com competência, rigor e criatividade é a via que oferece maior potencial para os países envolvidos, para a Europa e para a economia mundial.

Este não é um texto contra a Alemanha e os outros países que defendem políticas monetárias e económicas mais ortodoxas. É até um texto de compreensão dessas posições, por parte de países que com esforço têm as suas casas arrumadas e não querem correr o risco de vir a serem envolvidos em processos que comportam riscos que eles não precisam nem querem correr. Mas assim como é compreensível a posição desses países também eles têm de compreender que os outros países têm de procurar a solução dos seus problemas, reais e prementes,  num enquadramento mais flexível.

Ao fim e ao cabo tratam-se  de mais de 200 milhões de habitantes que necessitam de políticas que os outros pouco mais de 100 milhões não querem adoptar. Resta assim uma separação temporária e por mútuo acordo, que  no quadro actual será sempre a melhor solução para todas as partes. Nesta perspectiva nem o BCE deveria sair de Frankfurt, nem os países que optassem por sair do euro deveriam deixar de ter representantes não executivos no banco.

É evidente que seria melhor para toda a Europa que fosse possível uma solução de compromisso sobre as grandes questões da política monetária, fiscal e economica, mas dado que parece amplamente demonstrado que tal não é possível, resta este caminho.

A existência de um euro comandado pela França irá fazer reavivar velhas rivalidades continentais, mas esse será o preço que a Alemanha terá de pagar por não querer correr outros riscos. Como sempre, não há almoços grátis.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O EXEMPLO DE ITÁLIA  E AS NOSSAS VACAS SAGRADAS

O governo italiano, apesar de ser de transição e não ter sido resultado directo de eleições, anunciou ontem o corte do numero de Províncias do país de 86 para 51, correspondendo portanto a um corte de quase um terço. É esperado que o Parlamento  aprove a decisão que gerará economias da ordem dos quatro mil milhões de euros.
Uma lição clara para um país que desistiu de tocar nas mais de 300 vacas sagradas que são as nossas Câmaras, inventou falsas economias potenciais na fusão de freguesias, e não foi capaz de fazer nem uma, nem outra.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A CONFUSÃO DE FERNANDO ULRICH

Com o seu "aguenta, aguenta", Ulrich fez um mau serviço ao país e ao governo que ele diz apoiar.
Pior serviço terá ainda feito à sua imagem de banqueiro-comentador.
Claro que todos os povos aguentam muito mais do que aquilo que até agora tivemos de aguentar, e muitas vezes fazem-no mesmo ordeiramente e com espírito de missão, basta lembrar do que se passa durante as guerras, com os seus racionamentos e sacrifícios de toda a ordem.
Mas não é essa a questão, a verdade é que os povos aguentam tudo desde que compreendam a sua inevitabilidade e simultâneamente sintam que os sacrifícios podem valer a pena.
É aí, entre outras coisas, que o governo tem falhado ao não conseguir transmitir aos portugueses nem a inevitabilidade, nem o potencial do confuso caminho que está seguir.
Com amigos como Ulrich este governo não vai precisar de inimigos.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O DISCURSO QUE PASSOS NÃO FEZ NO CONSELHO EUROPEU

Minhas Senhoras, meus Senhores, Caros Colegas

Todos aqui presentes conhecem a disciplina, o esforço e a humildade com que o governo e o povo português se têm dedicado ao cumprimento do programa acertado com a "Troyka". Assim o temos feito porque estamos convictos que esse é o melhor caminho para Portugal, isto porque, tal como para a Europa como um todo, apenas o reforço da nossa capacidade competitiva pode assegurar o nosso futuro e o dos nossos filhos
Nós temos consciência dos excessos despesistas que existiram no nosso país (assim como em muitos outros) ao longo de vários anos, excessos esses que têm agora de ser corrigidos de forma drástica e rápida, ainda que com os inerentes pesados custos sociais, económicos e políticos. Sabemos de tudo isso e estamos dispostos a todos os esforços que sejam necessários para o fazer, sem desculpas, sem adiamentos, sem hesitações.
Mas, por outro lado não podemos deixar de ter em conta que um programa, qualquer que ele seja, só é bom se produzir resultados aproximados ao esperado, se assim não for fica claro que o programa em causa necessita no mínimo de ajustamentos importantes, sem os quais insistir no mesmo não apenas não levará à melhoria dos resultados, como gerará o efeito contrário.
Como todos sabem foi uma questão de principio sagrada para o meu governo cumprir integralmente as reformas e as duras medidas preconizadas no acordo com a Troyka, em alguns casos fomos mesmo mais longe que o estabelecido porque sabíamos que os objectivos de redução do deficit seriam difíceis de atingir.
Meus senhores, minhas senhoras, penso que pelo comportamento que sempre adoptámos, Portugal tem agora o direito moral de dizer à Europa que o programa apenas funcionou parcialmente, apesar de escrupulosamente cumprido, com custos sociais muito grandes para o povo português, custos estes que sabíamos inevitáveis.
De facto conseguiram-se resultados notáveis na balança comercial do país, mas não nos podemos iludir, os resultados obtidos têm a ver não apenas com o aumento das exportações, mas sobretudo com a diminuição do consumo privado e das importações de bens de equipamento, de qualquer modo tudo está correr bem nesta frente, até melhor do que o programado no plano.
Já no que respeita aos resultados obtidos do lado da diminuição do deficit orçamental, não podemos deixar de constatar que eles estão muito abaixo dos objectivos traçados, isto apesar de termos adoptado medidas para alem das preconizadas, e de termos feito todas as reformas e todas as privatizações programadas.
Apesar da magreza dos resultados obtidos face ao esforço realizado não teríamos qualquer dúvida em intensificar ainda mais esse esforço se não fosse o facto de ser agora claro que nos aproximamos da zona  de uma espiral recessiva, em que as medidas para redução do deficit levam ao seu agravamento pela quebra da actividade económica e consequente redução das receitas fiscais e aumento da despesa publica fruto do inescapável aumento dos benefícios sociais.
Aproximamos-nos assim do momento em que os ganhos marginais de redução do deficit por via do aumento da austeridade, se vão reduzindo de forma progressiva e exponencial, correndo risco de rapidamente se entrar na zona perversa em que maior austeridade só gerará maiores deficits.
Alguns dados apenas para vos dar uma ideia do esforço que estamos a fazer. Neste momento em Portugal estamos com um nível de desemprego superior a 16% que ainda não parou de crescer, um salário mínimo inferior a 500 euros, um salário médio nacional inferior a 800, um imposto sobre o rendimento que para rendimentos superiores a 80.000 euros será já de 55%.
Sabemos que temos de cortar ainda mais na despesa pública, essencialmente pela reconfiguração do papel do Estado, porque muito pouco além disso poderemos já fazer num país em que o salário líquido de um médico é inferior a 2.000 euros e o de um ministro a 3.000.
Minhas senhoras e meus senhores, eu penso que se neste momento não trouxesse aqui junto de vós estas minhas preocupações estaria não só a trair o meu povo, como também a trair a Europa. Todos temos que, de cabeça fria, sem preconceitos nem oportunismos, procurar a melhor via para resolver os nossos problemas comuns.
Por isto tudo digo, o programa tal como está não vai resolver o nosso problema, logo também não vai resolver o problema europeu, não estou a pedir mais tempo, nem mais dinheiro, estou apenas a pedir que se repense a parte do programa que está a produzir resultados muito abaixo dos esperados e que nos pode conduzir a uma espiral recessiva.
Nós sabemos que há poucos anos atrás outras economias europeias, com destaque para a alemã, fizeram grandes reestruturações, com enorme visão antecipativa, disciplina e sacrifícios importantes dos seus trabalhadores. A Europa do sul não o fez, bem pelo contrário, julgando que havia chegado ao Eldorado, gastou o que tinha e o que não tinha, e em vez de reformar as suas economias agravou mesmo os seus vícios. Assim foi também em Portugal.
Sabemos que tudo isso tem de ser corrigido, sabemos dos seus custos, temos pressa em fazê-lo, não regatearemos esforços, como não os regateámos até aqui, mas temos sempre de ter a certeza que estamos num caminho com alta probabilidade de sucesso. Sabemos ainda que as mudanças que temos de fazer serão muito mais dolorosas do que as que os outros países fizeram há alguns anos atrás, primeiro porque somos mais pobres e depois porque ao contrário de as fazer numa época de euforia económica as teremos de fazer numa época de recessão. Sabemos isso tudo, mas também sabemos que temos e queremos fazê-lo, tão rapidamente quanto possível.`
É pois neste quadro de pensamento em que eu, que muitas vezes fui criticado por querer ser o bom aluno da Europa, me atrevo a dizer-vos que o nosso programa tal como está não será suficiente para obter os resultados pretendidos e pode levar-nos para uma espiral recessiva, que seria destruidora para Portugal, mas também muito negativa para a Europa.
Humildemente vos digo, julgo que a solução efectiva do problema de Portugal, para além do cumprimento por nossa parte de todas as medidas acordadas, terá de passar por um dos três caminhos seguintes a nível europeu:
-a aceleração do crescimento dos países menos endividados do bloco
-a criação de linhas de financiamento especiais às empresas portuguesas viáveis
- o reescalonamento da dívida pública portuguesa (sem hair-cuts, com aumento de prazos e diminuição de alguns juros)
A questão que aqui vos deixo é sobretudo um problema de Portugal e do meu governo, mas certamente que os senhores compreendem que, apesar da nossa pequena dimensão, na época de incertezas em que vivemos este é também um problema europeu, que agora aqui vos ponho, com o espírito totalmente aberto e colaborativo que sempre tivemos, com vista à procura de soluções que sirvam as necessidades e interesses de todos.
O que nós pensamos que a Europa não pode fazer, é aquilo que nós e outros países fizemos por demasiado tempo, ao não enfrentar os problemas e ir empurrando as soluções sempre à espera de milagres impossíveis. A Europa não pode fazê-lo, e certamente não o fará.