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quarta-feira, 4 de dezembro de 2019



COMBATER A DEFLAÇÃO - UMA ABORDAGEM HETERODOXA 


São diversas as origens dos processos deflacionarios, de entre elas o crescimento geral da aversão ao risco, o envelhecimento das populações que também faz aumentar a referida aversão e a disseminação do sentimento de que os preços vão continuar a baixar (ou a não aumentar) o que leva ao adiamento das decisões de compra, isto nas economias mais ricas, deflação essa que, dentro do mesmo espaço monetário, se estende depois às economias mais pobres, aí mais pelas limitações económicas dessas populações do que pela sua aversão ao risco.
No sentido de reverter estes processos deflacionarios os governos europeus nada têm feito, tendo deixado o problema quase que apenas nas mãos do Banco Central Europeu, com as óbvias limitações que ele tem e os enormes riscos das suas medidas mais agressivas.
Isto embora existam medidas que os governos poderiam ter tomado, na área fiscal e outras, no sentido de tentar diminuir aquela aversão ao risco e levar ao aumento da inflação. Medidas aquelas a que varios países e em especial a Alemanha, se têm oposto com medo do regresso do descontrole orçamental pela Europa fora.
Apenas no Japão parece ter optado pela via fiscal para combater a deflação,com resultados ainda não claros.
A hipótese que defendo aqui seria uma solução em que fossem criados suplementos adicionais ao IVA, sempre que a inflação estivesse abaixo do objectivo para o período.
Os fundos obtidos por via daqueles adicionais seriam devolvidos de imediato à economia (ou até em parte antecipadamente), com o propósito de inflacionar essa economia.
Aquele processo seria repetido em ciclos o mais curtos possíveis, trimestralmente se tal fosse exequível.
O objectivo seria assim criar inflação por duas vias, fazendo as pessoas acreditar que ela iria acontecer de acordo com o planeado pelos governos e por outro, pela transferência de recursos de agentes económicos com aversão ao risco média, para agentes com aversão ao risco abaixo da media.
Neste quadro os governos deveriam deixar claro que sempre que inflação estivesse sensivelmente abaixo da meta, gerariam inflação por via fiscal até ela voltar a aproximar-se do objectivo. Em linhas gerais, as regras a divulgar e implantar seriam do tipo do exemplo abaixo:
1- Trimestralmente, sempre que a taxa de inflação anual seja inferior à meta fixada, serão tomadas as seguintes medidas:
a) activada uma taxa adicional e temporária sobre o IVA (e outros impostos que se julguem adequados - sobre a transacção de imóveis, automóveis, etc) destinada a compensar a diferença em relação ao objectivo verificada no trimestre
b) caso nos trimestres seguintes a inflação continue abaixo do respectivo objectivo, o governo repetirá o referido em a), aumentando de novo a taxa adicional
c) aquelas taxas adicionais deverão começar a ser retiradas gradualmente logo que a a inflação comece a subir e a aproximar-se do nível desejado.
2- Todos os recursos captados por via destas taxas adicionais deveriam ser de imediato devolvidos à economia, preferencialmente em investimentos de rápida concretização e de mão de obra intensiva.
Esta solução, se exequível, teria a vantagem de ser neutra em termos orçamentais, o que a faria mais palatável para os países do norte da Europa.
Como é evidente, este tipo de abordagem apenas faria sentido se aplicado à totalidade da zona monetária envolvida.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

CULPA DO CAPITALISMO OU DO ESTADO?  (1)
Louçã e Mortagua são os mais conhecidos e dedicados criticos locais do capitalismo, para eles o capitalismo é a origem de todos os males das nossas sociedades.
Aquele tipo de critica é tanto mais facil quanto eles nunca apresentam sequer um unico exemplo real de um modelo de sociedade alternativo, é verdade que noutros tempos já o fizeram, fossem os exemplos da Europa de leste, de Cuba ou da Venezuela, mas depois, quando se tornaram claros os desastres economicos, sociais e ambientais desses tão brilhantes exemplos, discretamente foram-se calando. Desde então ficámos com as criticas mas sem exemplos reais de alternativas.
Qualquer pretensão de tirar conclusões com base em comparações entre utopias e casos reais, além de não levar a lado nenhum é intelectualmente desonesto, mas isso foi o que a esquerda revolucionaria sempre fez e continua a fazer, não uma ou outra vez "por engano", mas de forma sistematica, vezes sem conta, pelo menos desde Estaline a Maduro, passando por Pol -Pot.
Não quero com isto dizer que o capitalismo seja um sistema perfeito para assegurar o crescimento economico e social das nossas sociedades, de facto não o é, nem o pretende ser. Talvez, como a democracia, o capitalismo seja apenas a menos má de entre todas as formas existentes para organizar as economias das nossas sociedades..
Mas mais importante que discutir a bondade do capitalismo é deixarmos este jogo que a esquerda sempre quis impor, do socialismo versus capitalismo.
Na verdade, o socialismo envolve um projecto teorico e messianico para resolução dos problemas globais da sociedade, com os resultados praticos que, até agora, todos conhecemos.
Por sua vez capitalismo é uma outra coisa completamente diferente, muito menos ambiciosa e mais simples, mas com a enorme vantagem de que funciona, o capitalismo é, em ultima analise, apenas um mecanismo de fixação de preços, e por essa via de optimização da alocação de recursos, é isso que ele pretende e pode assegurar, o resto são opções de organização das sociedades.
Não existe no capitalismo nenhum projecto messianico de salvação da humanidade, existe isso sim a garantia de um sistema que assegura o funcionamento economico das sociedades de acordo com os objectivos dessas sociedades.
Os regimes socialistas que existiram ao longo da nossa historia não caíram, ao contrario do que alguma direita gostava de dizer, por "comer criancinhas ao pequeno almoço" (coisa que até não terão feito, mas fizeram outras tão más quanto), aqueles regimes caíram apenas por uma razão simples e bastante mais prosaica, porque nunca conseguiram fixar preços de forma a assegurar que as suas economias funcionassem.
É curioso que tendo sido os economistas socialistas quem mais queimou pestanas e neuronios a estudar, discutir e elaborar teorias sobre a determinação do valor, tivessem sido incapazes de fixar o preço de uma simples batata, que fosse.
Quem primeiro compreendeu bem esse problema e assumiu a responsabilidade pelas mudanças necessarias para o resolver, foi Deng XiaoPing, o pai do "milagroso milagre" economico chinês, com a sua "Economia Socialista de Mercado" (provavelmente influenciado pelo estudo feito por Charles Bettelheim sobre o Capitalismo de Estado Nazi).
Deng conseguiu combinar a " eficiencia" do capitalismo com um Estado que cumpre as suas funções, apesar de o fazer dentro do quadro de uma ditadura, o que permitiu o milagre economico chinês.
O mal da maioria das sociedades ocidentais não é a existencia do capitalismo, é, isso sim, a incapacidade de criar aparelhos de Estado eficientes, num quadro democratico. Ou seja,a incapacidade de criar Estados fortes ecompetentes, que não sejam facilmente capturaveis por interesses privados, ou de corporações diversas.
Goste-se ou não a verdade é que quem tem falhado nas sociedades ocidentais não tem sido o capitalismo mas o Estado. No caso de Portugal isso acontece porque existe uma "Grande Coligaçaõ" que vai da extrema esquerda à extrema direita para que assim seja. Uns não querem um Estado que funcione porque apostam tudo no "quanto pior melhor", outros não o querem porque isso seria o fim das suas inumeras negociatas, pelo que na pratica todos preferem a existencia de um Estado fraco e incompetente..
(continua)
Voltando ao nosso tema, para mim é claro que as culpas que a esquerda gosta de imputar ao capitalismo não têm qualquer sentido, sendo o capitalismo, em ultima instancia, apenas um sistema de determinação de preços, desde que o faça de forma razoavel, não pode ser criticado por não resolver todos os problemas de uma sociedade..
Quando as coisas correm mal nas sociedades chamadas capitalistas isso acontece por causa do aparelho politico instalado, por causa do Estado e portanto dos seus politicos, em ultima instancia é sempre o Estado o responsavel, seja por intervir de menos ou demais, mas talvez sobretudo por intervir mal.
O capitalismo não é um sistema messianico para de forma global determinar a melhor forma de gerir as nossas sociedades, ele é apenas um sistema que através da liberdade dos diversos agentes economicos e sociais permite a optimização da alocação de recursos disponiveis numa determinada sociedade, conseguindo assim aquilo que as sociedades socialistas nunca conseguiram. ou seja, fixar preços para que as economias funcionem.
Para desempenhar o seu papel o capitalismo necessita de competição, de "guerras" entre interesses diversos, interesses por vezes sem escrupulos nem principios, é por isso que o capitalismo só pode funcionar em beneficio da sociedade se o respectivo Estado tiver a capacidade para fixar as regras do jogo, para fiscalizar o seu cumprimento e para punir de forma efectiva todas as infracções, tudo isso feito em devido tempo.
Sem um Estado forte e competente o capitalismo não pode funcionar de forma correcta, e desse modo o seu espirito fica prevertido e em lugar de levar à competição entre os melhores para produzir os melhores resultados, acaba por se juntar aos regimes socialistas na ineficacia, no compadrio e na corrupção.
Dado que não existe, pelo menos para já, alternativa ao capitalismo, por muito que isso custe à dupla Mortagua/Louçã, o que nós temos é de ter um Estado capaz de obrigar esse capitalismo a dar o melhor de si proprio.
O problema é que olhando à nossa volta fica claro que os nossos politicos ou estão de uma forma ou de outra capturados pelo sistema de troca de favores (corrupção em termos crus), ou pensam (como a nossa dupla L/M) que "quanto pior melhor" ou seja, julgam que estão a cumprir a sagrada missão de dar ao capital a corda para ele se enforcar, pelo que estão saudavelmente sempre prontos para criticar e apontar todos os crimes e falhas feitas à sombra do sistema, mas nada fazem para introduzir correcções no sistema (isso seria colaboracionismo!).
(continua)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016



O ORÇAMENTO DE COSTA/CENTENO
NEM "TIA", NEM MULTIPLICADORES.
APENAS TEATRO

É evidente que Bruxelas pode aprovar o Orçamento proposto pelo governo embora saiba que ele não vai ser cumprido.
Primeiro porque formalmente ele é "aprovável", dado que apresenta gastos adicionais de 1.050 milhões de euros, que na verdade são apenas 750 milhões porque 30% daquele valor retornará ao estado por via directa de IVA, IRS e outros impostos e taxas. Para cobrir esses 750 milhões Bruxelas aceita que o governo "arranje" apenas mais 675 milhões em aumentos de impostos e a criação de novos. Bruxelas está assim a dar uma "borla" de 75 milhões ao governo, mesmo sabendo que nada disto será cumprido.
E não será cumprido porque o governo terá muita dificuldade em recolher os tais 675 milhões onde ele diz, e mais cedo ou mais tarde irá apresentar de novo a conta à classe média, através do IVA, IRS, IMI, e outros.
Além disto, todos sabemos que para além daqueles 1.050 milhões existem outros tantos não assumidos, escondidos nas 35 horas, nas benemerências na educação, na saúde, na reversão de concessões, nas reivindicações das EP's, e um pouco por todos os ministérios. A soma destes dois efeitos levará o buraco de 2016 bem para além dos 1.000 milhões.
E para o ano de 2017, já não contando com novas "generosidades", podem desde já somar-se mais mil milhões, que advirão do simples custo adicional das medidas tomadas em 2016 com efeitos aumentados em 2017.
Sonhar que existirá um efeito positivo por acção dos multiplicadores, é mesmo só sonho, ou simples fraude intelectual. Quem vai investir e contratar pessoal no quadro que se criou de incerteza das regras laborais? Com a actual carga fiscal? Com a instabilidade fiscal total? Com a Intersindical em rédea solta? Com uma Frente Popular no poder? Com o previsível aumento das taxas de juro para financiamento? Estamos a brincar?
Centeno gosta de pensar que está a governar com o programa do PS, que era um programa que continha alguns riscos, mas que poderia fazer funcionar os tais multiplicadores. Mas a verdade é que não está, a sua pressa de ser ministro levou-o a aceitar gerir um programa que é apenas uma manta de retalhos,de uma Frente em fuga (para a frente).
Como sempre disse, o primeiro semestre de 2016 seria uma festa (aliás esperava melhor), o segundo seria tempo de começar a explicar a Bruxelas porque é que a realidade se recusa a aceitar o programado, no final do ano já ficará claro que o buraco adicional já vai acima de mil milhões e que se nada se fizer será de mais dois mil milhões em 2017.
Aí, Bruxelas, dar-nos-à a escolher, entre a porta da saída e um Orçamento draconiano para 2017.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

A ZONA EURO ESTÁ MAIS FORTE
Ao contrario de todos os disparates que se têm dito por aí, o facto de a chantagem grega não ter sido aceite não enfraquece o Euro, pelo contrário, reforça-o.
Isto porque uma moeda que é partilhada por um vasto e crescente número de estados só poderá ter credibilidade se viver sob regras claras e não ao sabor de chantagens individuais de qualquer estado membro.
Se a Europa tivesse cedido ao jogo grego teria morto o Euro a prazo mais ou menos curto. Teria ficado claro que, de chantagem em chantagem, a moeda iria morrer.
O que estava, e continua em causa para a Europa, não é o pagamento das dívidas astronómicas do Sul, que toda a gente sabe que são mais ou menos impagáveis. O que está em causa é que a Europa necessita de acabar de construir o sistema que permitirá que grande parte dessas dívidas venha a ser "absorvida" de forma natural por vias diversas, até lá as dívidas continuarão a constar das contabilidades nacionais dos países devedores e não existe alternativa a essa realidade.
Neste processo ficou claramente provado que a via que o Syriza pretendeu seguir não leva, nem levará, a lado nenhum, esperemos que o aviso seja compreendido por todos. A via Syriza foi inútil e negativamente agressiva, só justificável caso o objectivo real do Syriza fosse de facto a saída do Euro e até da Comunidade Europeia, criando uma situação de expulsão por culpa dos países ricos a explorar políticamente. Esta possível estratégia para uma saída revolucionária, é uma hipótese que ainda está de pé, os próximos dias nos esclarecerão...
Em termos práticos o que resta como lição para os outros países é que se podem conseguir alguns pequenos sucessos no âmbito comunitário usando linhas de negociação mais duras, desde que tal se faça com moderação. Para ir para além daqueles pequenos ganhos, apenas conseguindo criar grupos de pressão constituídos por vários países se poderão almejar objectivos mais importantes.
O único grande problema que a questão grega representa para a Europa é geopolítico, por causa dos Balcâs, da Turquia, da Rússia, do Mediterrâneo Oriental, das ondas migratórias, etc Mas também neste quadro ceder ao Syriza não era garantia de melhorar a situação, antes pelo contrario. Por incompetência, ou propositadamente, o Syriza até conseguiu desperdiçar o único trunfo efectivo que tinha.
O Euro está mais forte. Isso quer dizer que os mercados vão ficar calmos? Não forçosamente, é da natureza dos mercados a instabilidade, a agitação, e acontecimentos como estes têm muito a explorar, mas será tudo fogo de artifício, de facto nada de grave aconteceu.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015



O NEOLIBERALISMO NA EUROPA -I


Não vou falar de Von Mises, nem de (Von) Hayek, a minha intenção aqui é bastante mais prosaica.

Vou falar desse neoliberalismo que é a política que os partidos socialistas praticam depois de ganharem eleições.
E também daquele outro, mais radical, que aqueles mesmos partidos praticam depois de terem tentado concretizar os seus programas eleitorais, e a que apressadamente recorrem, a meio dos seus mandatos, tentando não sucumbir à derrota eleitoral que se aproxima. Deste segundo caso Hollande é o melhor exemplo, que chegou mesmo ao ponto de passar a governar por decreto-lei, para acelerar as reformas neoliberais que ele abjurara, e por via desse artifício  evitar o desgaste público nas suas hostes.

Enfim, o neoliberalismo filho de Margaret Tatcher, e que levou a que ela dissesse que o seu maior orgulho era o New Labour, seu enteado talvez.
Sim, o neoliberalismo, "esse monstro, desumano, capitalista, perverso e fonte de todos os males" das nossas sociedades...

Agora sem ironias. O neoliberalismo está longe dos verdadeiros liberais libertários que odeiam o estado sob qualquer forma e que pensam que o principal papel do cidadão é vigiar o pouco estado que tenha de existir  O neoliberalismo é sobretudo um sistema não dogmático que conhece os perigos e a falta de capacidade dos estados para actuarem  de forma sistemática em todas as áreas da vida social e que por isso julga que fora das áreas que são da sua  competencia especifica, justiça, defesa e segurança o papel dos estados tem de ser analisado, discutido e decidido cuidadosamente, para bem da sociedade.

Como foi possível surgir já na segunda metade do século XX o neoliberalismo? Ainda por cima no Reino Unido com todas as suas tradições de apoio social e sindicais?

Este movimento resultou do efeito conjugado de dois acontecimentos com características opostas. Por um lado o alívio do fim da 2ª Grande Guerra encheu as populações de esperança, era o fim de tempos muito duros, era o momento das classes trabalhadores tomarem nas suas mãos os destinos da sociedade, é esse fenómeno que leva à inesperada derrota eleitoral de Churchill perante os trabalhistas. Mas simultâneamente, esse é também o tempo do princípio do fim do domínio económico da Europa sobre grande parte do 3º mundo.

Assistimos assim no pós guerra  ao surgimento do peso político das classes trabalhadoras e dos seus sindicalistas , em simultâneo com a perda de importância económica gradual da Europa no contexto mundial.
Aquela perda de importância deriva do aumento do peso  de outros poderes económicos actuando em espaços que anteriormente eram de "exploração" europeia quase exclusiva,  com destaque evidente para os Estados Unidos, mas também para outros estados e para os novos movimentos e estados independentes.

Poder-se-ia quase que dizer que o desenvolvimento do estado social se dá no pior momento histórico possível, exactamente quando a Europa deixa de poder com facilidade transferir acréscimos dos seus custos de produção para os seus mercados cativos. Este é o problema original do chamado Estado Social, a que no futuro se viriam a juntar outros

Mas na época,  o optimismo em relação ao futuro, conjugado com o poder económico  de que o Reino Unido ainda dispunha, permitiram  montar um sofisticado e caro estado social, estado esse não parou de crescer, tornando-se um peso cada vez mais difícil de suportar para uma sociedade que entretanto empobrecera em termos relativos.

Os  custos crescentes do estado social, por um lado, e a força cada vez maior dos sindicatos, por outro, conduziram à quase paralisação da economia do Reino Unido. A modernização era entravada pelos sindicatos, a despesa pública absorvia cada dia porções maiores do PIB,e tudo isto acontecia ao mesmo tempo em que o poder de exportar a qualquer preço se ia reduzindo.

É neste cenário que surge Tatcher. De braço de ferro em braço de ferro, a dama de aço, consegue limitar o poder dos sindicatos, controlar a despesa pública e relançar e modernizar a economia.
Ainda hoje odiada por uns, venerada por outros,  Tatcher foi o grande agente modernizador do Reino Unido, tendo desencadeado um processo que acabou por ser continuado pelos próprios trabalhistas com o New Labour.

Esta é a origem do neoliberalismo, a que os países da Europa continental foram resistindo e aplicando apenas esporádicamente em doses homeopáticas, até à crise de 2008.  Com excepção do caso alemão, aspenas quando a realidade se impõe e  são mesmo  obrigados a eliminar os bloqueios, corporativos e outros, que entravam a modernização e o crescimento, os países do continente recorreram à medicina neoliberal, tal como foi o caso da súbita e recente conversão francesa.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015



BENTO, O EXPLICADOR

Victor Bento tem sido o melhor explicador nacional de como as economias funcionam. Nunca disse nada de original, nunca sequer se preocupou em ser o mais actualizado dos economistas, mas sempre foi o que melhor explicou ao comum dos mortais os mecanismos da economia. De tal forma que até Cavaco, que séculos atrás até foi um bom economista, se apaixonou por Bento e o levou para o Conselho de Estado, certamente para explicar aos outros conselheiros aquilo que ele, Cavaco, nunca conseguiu fazer.

Tudo corria bem até à aventura do BES, Bento nunca foi um banqueiro, tinha umas ideias vagas também sobre esse assunto, e o governo e o BP, tal como ele, também estavam perdidos, depois foi o que todos sabemos... em resumo, as coisas correram mal. Vai daí Bento resolve repensar a sua visão da economia europeia, e como tinha pressa, e o país e a Europa não podiam esperar mais para conhecer as importantes revelações que tinha a fazer, decidiu não esperar pelo seu novo livro e entregou ao Observador o texto base da sua nova visão.

O texto de Bento parte de uma descoberta que ele fez recentemente, os países do Euro têm uma moeda única! Como têm uma moeda única mas orçamentos nacionais e balanças comerciais e de pagamentos também nacionais, acabaram por se gerar situações perversas para a recuperação da crise. Quase que parece o outro  Victor, o  Constâncio, que até à ida para Frankfurt sempre defendeu que com o Euro o facto de os países terem saldos positivos ou negativos nas suas balanças deixara de ter qualquer importância.

Até à revelação de Bento nunca ninguém se lembrara desta vertente das economias europeias, apenas ele, com o seu faro aguçadíssimo, agora o descobriu, e ao descobrir viu rapidamente que temos estado todos a ser enganados pela Europa rica, facto esse que no entanto, todos os economistas da esquerda já tinham "percebido" à bastante tempo.

Ou seja, depois do BES, Bento é um novo economista da esquerda! A esquerda não terá ganho grande economista, mas ganhou um grande explicador, o que já não é mau.

Como bom economista de esquerda Bento fica pelo meio do caminho, limita-se a dizer que o norte explorou o sul, e o fez para mal de todos, mas nunca diz o que deveria ter sido feito, talvez porque aí teria de dizer claramente o contrario de tudo quanto andou a dizer.

A Revelação de Bento, não é ainda motivo para o Nobel, mas é sem dúvida um passo importante!



terça-feira, 10 de fevereiro de 2015



A VERDADE SOBRE AS DÍVIDAS EUROPEIAS  - A GRÉCIA


Esta questão das dívidas nunca é abordada de forma global e sem preconceitos, uns porque querem esconder a verdade, e outros porque querem apenas transformar este assunto em arma de arremesso.
É importante  analisar esta problemática de uma forma realista e independente, sem segundas intenções, porque só depois disso se podem tomar opções conscientes sobre a forma como cada um pensa que o problema deve ser gerido.
Assim, existem à partida duas grandes questões:
.qual a origem das actuais dívidas públicas?
.as dívidas são "pagáveis"?

-Qual a origem das actuais dívidas públicas?
As actuais dívidas podem ser decompostas em três partestes, a dívida pré-crise, a dívida fruto da socialização dos prejuízos do sistema financeiro, e a dívida resultante do acumular dos novos deficits orçamentais entretanto verificados.
As dívidas "pré-crise"  normalmente apresentadas estão muito sub-avaliadas, porque era normal em todo o Sul esconder dívida do sector estatal em empresas públicas deficitárias, debaixo do tapete, do colchão e onde mais fosse possível... artifícios esses de desorçamentação diversa que depois foram eliminados. Na verdade essas dívidas efectivas na Europa do Sul eram já muito maiores do que aquilo que usualmente aparece referido, sendo em toda a região já no início da crise da ordem dos 100% do PIB, isto nos casos menos graves.
A outra componente, a socialização da dívida do sistema financeiro, é a componente injusta que resulta da total incompetência da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu. A Europa adiou enquanto foi podendo o reconhecimento de que vivia uma crise financeira, argumentando que isso era um problema americano ao qual o Euro estava imune. Assim, enquanto os EUA e o UK obrigaram o bancos a recapitalizarem-se com dinheiro público, contra a vontade dos respectivos accionistas que tiveram mais tarde de comprar ao estado as novas acções entretanto emitidas (estado esse que as vendeu realizando um lucro substancial), enquanto isso na Europa a questão foi sendo empurrado com a barriga, graças ao lobbie da banca, e como os problemas não foram encarados de frente logo no início, foram tornando-se maiores e acabaram por ser transferidos para os orçamentos dos estados em lugar de ter sido assumidos pela banca. A grande vítima deste processo foi a Irlanda, que tem a maior percentagem da sua dívida proveniente desta origem.
A terceira parte das dívidas é fruto de estes países terem continuado com deficits orçamentais e portanto com necessidade de recorrer a novos financiamentos.

- Estas dívidas são pagáveis?
Na generalidade dificilmente, basta pensar que mesmo a um juro médio de 2% indexado ao PIB  e amortizando as dívidas a 50 anos se teria um desembolso anual superior a 3% do PIB por cada 100% de dívida/PIB que se quizesse anular, o que não sendo totalmente incomportável seria no entanto muito limitativo do investimento público.
A Europa do norte, melhor, a Alemanha, vai impedir a reestruturação destas dívidas? Não acredito, a Alemanha sabe que é melhor para ela que as economias do sul ganhem dinamismo, mas o norte tem dois problemas, um  são os seus eleitorados e o outro  é a fé dos respectivos governos em que o sul venha mesmo a resolver os seus problemas e a aumentar a sua produtividade.
Os "incomportáveis" custos da dívida têm assim dois objectivos, obrigar o sul a fazer o trabalho de casa e não assustar os eleitorados do norte. Apenas isto, porque todos os governos sabem que um dia todas estas dívidas vão ser reestruturadas, só que seria um desastre duplo dizer isso publicamente neste momento.

- Que fazer?
 Até agora têm coexistido dois caminhos, caminhos esses que são melhor exemplificados pelos casos diametralmente opostos da  Irlanda e da Grécia.
A Irlanda , que foi de facto a grande vítima da incompetência europeia, aceitou as regras do jogo, não discutiu, não hesitou, fez rapidamente uma grande reestruturação da sua economia, com os custos sociais inerentes, e é hoje de novo o tigre celta, apesar de alguns problemas que ainda tem.
A Grécia foi sempre o doente que fez batota, aquele que diz ao médico que toma os remédios e não o faz, assim dedicou-se a simular reformas que não fez, impostos que não recolheu, etc A culpa, essa, foi sempre dos remédios e do médico, tudo no meio de uma confusão bem Mediterrânica. O resultado só podia ser o desastre que se verificou, não vale a pena dizer que a culpa é da Europa, da austeridade, etc,  a culpa é da Grécia, poderá não ser do seu povo, ou se se quiser, sê-lo-á apenas na medida em que continuou a suportar as suas elites.

- A Grécia
A Grécia do Syriza surge agora com um hipotético terceiro caminho, que teria pelo menos a vantagem de acabar com o faz de conta grego.O Syriza quer virar a mesa e começar tudo de novo. Tudo bem, concordo que existem outras soluções se a Europa der algum apoio, o que é estranho é que só agora o partido e o seu economista chefe parecem ter começado a pensar nisso, esse trabalho não devia ter sido feito antes das eleições? O Syriza esperava que a Europa se rendesse de joelhos às suas reivindicações que  se limitavam a que a Europa lhe passasse um cheque em branco, ainda por cima  ao seu pior aluno? Agora, em quinze dias a Grécia vai ter um plano alternativo minimamente credível?
Existem caminhos alternativos e essa experiência de um novo socialismo seria interessante, só que não existem alternativas que sejam um caminho fácil, acreditar nisso é a receita para o insucesso, o único caminho que resta à Grécia é o da austeridade distribuída de outra maneira, mas esse caminho também não é fácil, como percorrê-lo sem paralisar a economia?
Não sou dos que deseja o desastre para o Syriza, até porque a conta seria paga pelo povo grego, mas neste campo não existem milagres, se não existir uma proposta bem fundamentada não haverá aprovação e a Grécia estará à beira do desastre. e depois dele, a saída do euro.
A ilusão de que a Grécia é a carta que sustenta um castelo que  hipoteticamente seja o euro é apenas isso, uma ilusão.
Apostar tudo na sua importância geopolítica, esperando que isso viabilize o inviabilizável não é solução, por muitos telefonemas de Obama e Cameron que haja.
Uma Grécia fora do euro financiada por americanos, russos e ingleses? Possível?

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

REESTRUTURAÇÃO JÁ!
(Publicado no Jornal de Negócios do dia 14 de Dezembro 2010)

Na semana passada, a página inicial do Brookings Institution tinha como manchete "A Europa a caminho do terceiro mundo". O irónico é que a CE é o maior e um dos mais sólidos espaços do mundo, sob o ponto de vista económico e financeiro, no entanto, aquela profecia poderá vir a concretizar-se caso os políticos e os banqueiros europeus continuem as suas manobras dilatórias à espera que os problemas se vão resolvendo por si, enquanto, ao contrário, eles se vão agravando em ondas sucessivamente maiores.

A melhor coisa que até hoje se escreveu sobre a crise europeia veio de Berkeley, é o artigo de Barry Eichengreen, "Europe´s Inevitable Haircut", claro, curto e preciso (ver project-syndicate). Em países sem moeda própria, limitados à desvalorização interna, esta não vai resolver nada sem a reestruturação das dívidas públicas e, essa reestruturação, vai ter implicações pesadas na banca cuja recapitalização tem de ser encarada em simultâneo, sob risco de o sistema ruir como um todo. Em termos resumidos é este o teor do referido artigo.

A origem de todo este enorme problema foi a maneira como a Europa decidiu reagir na primeira fase da crise mundial, "a crise é um problema americano, nós não temos activos tóxicos e por isso o problema resume-se a uma falta de liquidez momentânea fruto da crise nos USA". E como o problema era apenas americano, só se tomaram medidas para melhorar a liquidez e nada de significativo se fez no sentido de melhorar a solvência, que entretanto tinha sido fortemente afectada e continuou a deteriorar-se dia após dia.

A tradição europeia de uma contabilidade "mais flexível" que a americana tem a vantagem que dá para esconder muita coisa debaixo do tapete por algum tempo. No entanto, esconder por longos períodos elefantes debaixo do dito tapete começa a ser cada dia mais difícil, e cada vez que um dos elefantes se mexe os mercados agitam-se, crescentemente nervosos (estranhamente!) .

E assim, como o problema era americano, estamos hoje numa situação muito pior que a do outro lado do Atlântico. Grande parte dos nossos bancos está descapitalizada, ao que se junta o facto de que, ao contrário dos USA onde parte importante dos estragos da bolha imobiliária foram absorvidos pelas agências federais, no nosso caso aqueles estragos continuam orgulhosamente nos balanços dos bancos à espera de melhores dias.

Mas na verdade ninguém quer encarar o problema de fundo que cresce de dia para dia: os países ricos fartos de pagarem os vícios dos pobres, os pobres desconfiados dos ricos, a banca tentando empurrar ilusoriamente os problemas, transferindo para as dívidas públicas já impagáveis todos os podres que pode, num processo em que o bolo aumenta todos os dias e cada vez é mais difícil de solucionar. Tudo num jogo de faz de conta em que, a troco de ganhos ilusórios de curto prazo, todos simulam acreditar na solvibilidade da outra parte. Até ao inevitável desenlace final.

Estamos a viver os últimos tempos da oportunidade para resolver a crise sem perder totalmente o controle dos acontecimentos, o que a acontecer, para além de devastar a Europa, terá repercussões mundiais difíceis de calcular. Resolver quer dizer fazer em simultâneo uma grande operação de reestruturação das dividas públicas e de capitalização da banca, signifique isso o que significar.

Recentemente falou-se muito das eurobonds como parte da solução do problema das dívidas públicas, compreensívelmente a reacção alemã foi fortemente contrária. No entanto, sejam eurobonds sejam outros instrumentos garantidos por outras entidades, a solução não pode afastar-se muito daí, só que para as tornar palatáveis só existe uma forma: estabelecer que todos os países que convertam parte da respectiva dívida em eurobonds terão de ficar impedidos de aceder directa ou indirectamente a qualquer outro financiamento para além dos estabelecidos nos respectivos planos de reestruturação. É limitação de soberania? É! Existe outra saída? Não vejo.

Todo este problema tem sido abordado apenas na óptica do bombeiro, sem soluções nem para as estruturas destruídas nem para os danos colaterais. Na verdade, a procura das soluções de longo prazo começa pela definição da percentagem máxima do PIB de cada país devedor que poderá realisticamente ser afectada ao serviço da dívida (2%, 3%, ?). Dessa resposta, e da análise da composição de cada dívida, dependerá a definição dos termos em que as dívidas serão reestruturadas. Dessa reestruturação resultarão impactos substanciais sobre a banca. Quais serão esses impactos? Como resolver os problemas de solvência e liquidez dos bancos? Esse será o segundo conjunto de respostas e dele resultarão forçosamente alterações importantes na banca europeia.

É fácil? Claro que não é. Mas quando era fácil nada foi feito, agora não parece existir outro caminho, feliz ou infelizmente. Acreditar em Mário Draghi que, na sua campanha para o BCE, diz que as crises financeiras não têm soluções rápidas "it`s a long war", é suicídio, esta não é uma crise normal num país normal.

Nos últimos tempos tem sido moda criticar Merkel por tudo e por nada, ela foi claramente a “má da festa”. A minha opinião foi sempre contrária a essa ideia, desde o início do caso grego Merkel demonstrou ser a única bombeira profissional no meio do amadorismo voluntarista reinante. Agora está chegado o momento de Merkel demonstrar se é apenas essa bombeira escrupulosa, ou a estadista de que a Europa precisa.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

AS CIDADES MAIS DINÂMICAS DO MUNDO

A revista Atlantic da semana passada trazia um interessante ranking em que elencava as 30 cidades mais dinamicas do mundo actual.
Começando pelo mais óbvio, da lista não consta nenhuma cidade europeia.
A América do Norte apresenta apenas duas cidades, e ambas se podem considerar surpresas, Austin (a ignorada capital do Texas) e Montreal.
No entanto as grandes surpresas aparecem nos dez primeiros classificados, estão preparados? Em primeiro lugar temos Istambul (afinal se calhar não era um mau negócio para a Europa decadente), em terceiro Lima (o que só é uma surpresa absoluta para quem anda distraído), em quinto Santiago, Manila em nono e o Rio em décimo. Que tal?
As restantes das dez primeiras são mais ou menos óbvios, Shenzhen(2), Singapura(4), Shangai(6), Guangzhou(7), Pequim(8).
Nas surpresas positivas são ainda de destacar Melbourne(14), Guadalajara(15), Buenos Aires(19), Belo Horizonte(22), Rhyad(24), e tambem o Egipto com o Cairo e Alexandria(28 e 29).
Nas surpresas negativas o destaque vai para Hong Kong com o seu último lugar(30) e para São Paulo com o seu 25º lugar, muito atrás não só do Rio e de Belo Horizonte, mas sobretudo de Lima e Santiago, ou até de Manila ou Guadalajara.
Tambem pela negativa é de destacar o facto de Kuala-Lumpur, Jacarta e Taipé surgirem no grupo de Belo Horizonte.
Não se pode considerar surpresa a India não ter nenhuma cidade nas dez primeiras, dado que tods as três logo a seguir são Indianas, Hyderabad(11), Mumbai(12) e Bangalore(13), a que se juntam Kolkata(16) e Chennai(17).
Como seria expectável China e Índia empatam com 5 cidades cada uma (para além das 4 do primeiro pelotão a China tem ainda Tianjin(18)).
É de destacar tambem que o Brasil acaba por sair bem na fotografia com três cidades no ranking, o que nessa perspetiva lhe daria um honroso terceiro lugar.
Como é óbvio estas classificações não são conclusões definitivas de profundos trabalhos científicos mas resultado de um trabalho do Brookings Institute focalizado num indicador, no entanto elas são importantes quanto mais não seja para que vamos atualizando a nossa visão do mundo em que vivemos.
Este trabalho pode dizer-se que é feito sobre fotografias, ou seja, instantaneos da realidade atual, o que quer dizer que nada impede que cidades que hoje vivem em euforia não sejam as deprimidas de amanhã e vice-versa, não se pretendeu fazer aqui uma análise da sustentabilidade de longo prazo das razões que levaram às presentes situações.
Quem pensa em emigrar também pode ver aqui uma fonte de informação importante, eu, por mim, deixando São Paulo, estou hesitante entre Istambul e Lima.
E AGORA QUE CHEGA A HORA DA VERDADE, QUE FAZER?

A EUROPA ENLOUQUECEU? (18/5/2010)

Os políticos europeus estão a entrar num pânico descontrolado que não tem objectivamente nenhuma razão de ser, a situação europeia não é cómoda mas está longe de ser dramática, a menos que se continuem a fazer erros sobre erros.

A actual situação europeia apesar de complicada é das menos difíceis do mundo no âmbito da actual crise. Em termos globais a nossa dívida é moderada, a nossa balança comercial é positiva, o nosso crescimento é débil mas não põe a sobrevivencia em risco, os nossos bancos estão tão falidos como os dos outros, vários estados de alguns pequenos países europeus estão também mais ou menos quebrados o que é caso vulgar no mundo de hoje, e por aí vai... Então porquê este histerismo que se apoderou de toda a gente? Pessoalmente julgo que tem a ver com uma certa arrogância europeia que se julgava um grande líder moral e guardião de uma certa forma de solidez financeira no mundo, e agora, de repente, a Europa sente-se completamente perdida, sem referencias e sem saber para onde se voltar, e vai daí e começa a disparar para todas as sombras que vê, ou até mesmo apenas pressente. Se os nossos políticos tivessem por perto alguns conselheiros dos que viveram por dentro o dia a dia das grandes crises financeiras dos últimos 20 anos talvez ajudasse, pelo menos a acalmar os espíritos.

Claro que existem os problemas institucionais que os outros países não têm, na verdade não somos um país mas apenas uma associação com regras pouco claras, muitos egos e muitos fantasmas, no entanto isso não tem que forçosamente agir contra nós, pode haver vantagens nesta ambiguidade. O que é necessário é saber o que é que se quer, se a Europa souber o que quer e acreditar nisso, o mundo vai acreditar. O problema é que a Europa não sabe o que quer e por isso não pode acreditar, e como é evidente também não se pode pedir ao mundo e aos mercados que acreditem naquilo em que nós próprios não acreditamos.
E não vale a pena esbracejar, insultar, culpar sinistras campanhas contra nós. Se acreditarmos e formos claros eles vão acreditar.

Andamos há muito tempo a queixarmos-nos dos mercados, dos especuladores, de uma campanha sinistra contra o Euro, das agências de rating, etc., em alguns casos com razão noutros sem, mas sempre mal, mal na forma, mal no timing, mal nas respostas, o que só agrava os problemas em vez de os resolver.

Na fatídica noite da reunião dos ministros das finanças (pós Conselho Europeu), quando foi apresentado o comunicado final, ficou logo claro que o mercado não ia "comprar" a solução apesar da dimensão do pacote, e não iria comprar porque não era clara e sobretudo porque não encarava a questão da reestruturação da dívida grega, o que foi visto pelo mercado como sendo maior a preocupação de salvaguardar interesses de alguns bancos do que o de verdadeiramente limpar a casa (e aquela reestruturação poderia ter sido feita sem premiar os especuladores cheios de CDSs). Depois daquela noite os mercados tiveram uma ligeira recuperação e logo de seguida afundaram de novo, o que deixou os políticos europeus no estado que temos constatado.

A Europa tem de ter um discurso coerente sobre o que quer, e tudo quanto tem dito é tudo menos coerente, diz que não faz bailouts e temos o caso grego, simula uma grande operação de salvaguarda do euro mas faz tudo por via de um SPV a financiar, agora quer ter uma feroz polícia fiscal mas dispensa uma política económica, assim não vai dar, não dá para acreditar, isso ninguém vai comprar.

Os mercados nem sequer são difíceis de serem convencidos, basta ver os "road-shows" empresariais, o que é indispensável é apenas ter um discurso totalmente coerente e transmitido de forma absolutamente convicta (se assim for até se pode mentir). O que não dá é para não ter coerência ou falta de convicção.

Mas no final a grande questão é salvaguardar a Comunidade Europeia, não se pode correr o risco de perder a Comunidade por causa de sermos incapazes de gerir o Euro, risco que se pode correr se se continuar a improvisar. Espero que neste momento existam grupos de especialistas dedicados 24 horas por dia a simular todos os cenários possíveis e que garantam que a Europa vai saber lidar da melhor forma com qualquer cenário que se venha a pôr.
Que se percam os anéis mas fiquem os dedos.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

PORQUE MERKEL TEM RAZÃO

As críticas a Merkel têm sido mais ou menos generalizadas por toda a Europa, pela sua alegada "falta de visão e de espírito europeu", fora da tradição alemã e sobretudo da visão de Helmut Khol e de Adenauer. Para estes críticos Merkel está apenas preocupada com as suas eleições regionais e outros aspectos da política interna alemã.

Julgo que aquelas críticas a Merkel não têm razão de ser, não se pode comparar a margem de manobra que a Alemanha de hoje tem com a que teve no tempo dos seus antecessores, por diversas razões mas sobretudo devido à dimensão e peso da crise económica que se vive, e cujos desdobramentos são ainda dificilmente previsíveis.

A teoria do aval claro e urgente à Grécia, que correu solta por essa Europa fora, e que apenas não se concretizou graças a Merkel, tinha como base uma política voluntarista muito arriscada não só para o Euro mas para a Europa como um todo. No estado actual da economia mundial não era possível à Europa e muito menos à Alemanha, avalizar nenhum país em dificuldades fora de um quadro legal bem definido, quadro esse que não existe, mesmo que esse país fosse conhecido pelo seu bom comportamento o que como todos sabemos não era sequer o caso.

Aquele aval não era (nem é) possível por uma simples razão, a situação financeira mundial está presa por fios débeis e a qualquer momento pode "despencar", pelo que todas as posições que se tomem têm de ter em conta esse quadro, tomar qualquer decisão sem ter aquele risco em consideração é uma atitude suicida, seria isso que o aval rápido e cego à Grécia teria significado para toda a Europa, tanto mais quanto não se trata de uma simples crise de liquidez mas de problemas de solvência.

Claro que a Grécia, Portugal ou a Irlanda são economias demasiado insignificantes para serem por si só um problema maior, mesmo nos tempos difíceis que correm, no entanto considerando-as em grupo e juntando Espanha e Itália, teremos riscos potenciais que podem atingir os triliões (US) de euros, ou seja, totalmente ingeríveis.

Merkel foi depois acusada de ter acabado por ceder em toda a linha, mais uma vez não foi assim, no quadro que foi aprovado ficou absolutamente claro, para a Europa e para o mundo, qual é limite da responsabilidade alemã se amanhã a Grécia entrar em incumprimento. O risco da pretensa solução rápida e voluntariosa era que com ela teríamos "um por todos e todos por um", até ao último euro nos cofres de Berlim...

Qual é de facto a situação financeira mundial? No quadro da grave crise em que ainda estamos mergulhados os diversos Estados injectaram quantidades astronómicas de dinheiro nas economias para evitar o colapso da actividade económica e financeira, e com ele todo o subsequente conjunto de desgraças agravadas para as populações (não vem agora ao caso se a política foi ou não correcta). Como consequência daquela actuação dos Estados eles próprios ficaram enormemente endividados, mesmo os que ainda o não estavam, as populações que na maioria dos casos já estavam sobre-endividadas ficaram ainda em piores condições (embora com o alívio temporário da queda das taxas de juro), as empresas que estavam menos endividadas aguentar-se-ão enquanto houver consumidores, e os bancos continuarão de pé enquanto haja dinheiro a custo praticamente zero, novas injecções de capital e não tiverem de avaliar os seus activos a preços de mercado efectivos.

Ou seja, estamos perante um castelo de cartas, que todos queremos que se estabilize e consolide, mas ao mesmo tempo não podemos deixar de tomar todas as precauções para o caso de as coisas correrem mal, e isso quer dizer que não há avais nem cheques em branco para ninguém. Aliás o processo grego tem vindo a confirmar a necessidade daquelas cautelas, com as sucessivas surpresas sempre que se aprofundam os números (cada cavadela uma minhoca).

Com este panorama de fundo tudo pode vir a acontecer no quadro monetário europeu se as coisas se complicarem mais a nível mundial, e como é evidente a Alemanha mais do que nenhum outro país tem que que estar preparada para o que der e vier, e exigir dos outros países da zona euro que façam a sua parte no sentido de tentar salvar tudo o que ainda não está totalmente perdido.

Pôr mais "dinheiro bom em cima de dinheiro mau" não resolve nada e só torna as coisas mais difíceis para todos. Se os países em dificuldades não quiserem, ou lhes for impossível, fazer o que tem de ser feito, não vai haver solução que não passe pelo repensar da zona euro.

Esperemos que Merkel, embora tendo razão, não "force a barra" para além do exequível.

(na sequência ver texto: O regresso do marco alemão?)
O REGRESSO DO MARCO ALEMÃO?
(publicado no Jornal de Negócios a 27/4/10)

Os países da zona euro em dificuldades, embora estejam em situações de gravidade e características diferentes, têm em comum vários aspectos dos quais é de realçar a baixa produtividade relativa (e padrões de consumo não consentâneos com ela), do qual todos os outros problemas em grande parte derivam: deficits comerciais e de transacções, peso da dívida pública relativamente ao PIB, endividamento externo das economias como um todo, reduzidos níveis de poupança, etc. Portugal e a Grécia são os países que fazem o pleno e padecem de todos aqueles males, embora o nosso país em doses mais reduzidas que os gregos. Os outros países têm situações negativas mais focalizadas em alguns sintomas concretos, o que não quer dizer situações globais menos graves, quer pela dimensão, quer por outros aspectos específicos.

Estamos assim perante um conjunto de países que tem de fazer um verdadeiro milagre económico no meio de uma crise mundial extremamente difícil, milagre económico porque terão de expandir as suas economias e simultâneamente reduzir o consumo interno, num quadro de investimentos reduzidos, economias abertas e uma moeda forte que não controlam, ou seja, terão de reforçar vendas ao exterior no momento em que esse é o objectivo de todos os outros seus concorrentes que para tal têm mais margem de manobra. Pode dizer-se que se tratam de missões quase impossíveis, será que alguém o vai conseguir? no quadro actual dificilmente. Na verdade o que toda a gente espera (ou apenas tem esperança?)é de que as coisas se comecem a compor na economia mundial e isso acabe por dar espaço para estes países virem a recuperar-se lentamente ao longo do tempo. Mas, e se assim não for?

Se não for assim, o destino serão as suspensões de pagamentos ao exterior, os incumprimentos, as renegociações de dívida, etc. Poderá isso ser feito no quadro do actual euro? Aqui temos de recordar que ninguém pode (pelo menos em teoria) ser expulso do euro mas pode sê-lo da UE, o que no entanto seria um caminho complicado e totalmente desintegrador da Europa. Mas por outro lado, ter países "em default" dentro do euro, além de extremamente complexo seria uma humilhação sem fim para os países da moeda forte (Alemanha, Holanda, Áustria e Finlândia) e um factor de destabilização das suas economias.

Dentro deste quadro pessimista, mas infelizmente longe de inverosímil, teríamos então uma situação extremamente grave com diversos países sem condições de honrarem os seus compromissos, mas que não poderiam ser expulsos do euro e para os quais a desvalorização da moeda se tornaria uma necessidade cada vez mais premente, e face à concentração do seu comércio dentro da própria Europa o ideal seria mesmo a desvalorização do seu euro em relação ao dos "países europeus de moeda forte".
Ou seja, dado que os incumpridores não podem ser expulsos, nem sair pelo seu pé porque tal levaria à falência generalizada das respectivas economias (endividadas em euros e operando em novas moedas), restaria como solução que fossem as economias fortes a sair do euro, o que nesse quadro seria a melhor solução para todos. Quando isso acontecesse essa nova moeda (ou moedas) teria uma rápida valorização ao mesmo tempo que o euro teria forte desvalorização.

É verdade que as desvalorizações por si só não resolvem nada, elas apenas podem facilitar processos de ajustamento que por outras vias são mais difíceis ou até impossíveis, mas as desvalorizações são operações de reconhecimento de empobrecimento (elas não o criam apenas o reconhecem) e em que é transferida riqueza dos aforradores para os devedores, mas esse é o preço a pagar por quem não faz o que deve, quando deve.

Teríamos duas vias possíveis para um segundo e novo euro, na primeira hipótese a Alemanha abandonava o euro regressando ao marco ou coisa parecida e, de imediato ou posteriormente, algumas das outras economias a seguiam. A via alternativa seria a referida por Martin Taylor (ex-CEO do Barclays) da criação institucional de dois euros, um para o Sul e outro para o Norte (sudo e neuro), nesta hipótese todos os depósitos e compromissos financeiros seriam transformados 50% em cada uma das moedas que a partir desse momento começariam a divergir. Obviamente a primeira via seria a mais interessante para os países do sul.

É curioso voltar a Keynes em 1941 quando no seu texto sobre o novo sistema financeiro internacional defende a criação de várias uniões monetárias, entre as quais a germânica com a Alemanha, Holanda e Áustria (e também Suiça), e a união latina com França, Bélgica, Portugal, Espanha e Itália, neste quadro a Grécia ficava na união balcânica.

O fim do euro tal como o conhecemos é inevitável? Obviamente que não, mas se a crise se agravar o estreito caminho que tem pela frente irá tornar-se cada vez mais difícil e estreito e então poderá não haver outra saída. Seja como for, julgo mais do que nunca indispensável acelerar os mecanismos de controle e concertação das políticas fiscais e orçamentais dentro da zona euro, não só porque ainda há esperança, como porque um "novo euro" necessitaria ainda mais daqueles mecanismos.

terça-feira, 27 de abril de 2010

MEIO PEC TAMBEM SERVE?

Apesar de todos os que sabem alguma coisa de economia, quer em Portugal quer no estrangeiro, dizerem que as medidas do PEC seriam insuficientes e que seria necessário ir mais longe, afinal decidiu-se reduzir o PEC em vez de o aumentar, aparentemente devido ao encontro Sócrates/Passos Coelho.

Claro que o PSD tem razão quando diz que sobretudo o que é preciso é reduzir a despesa pública e não aumentar as receitas, mas a verdade é que conseguir no curto prazo efeitos significativos na redução da despesa é praticamente impossível, e a apresentação de resultados desta vez é urgente, a UE e os mercados precisam de sinais concretos e não apenas de intenções piedosas.

Perante este aparente acordo que pelo menos adiou a decisão relativa à redução dos limites máximos das deduções fiscais, Teixeira dos Santos, para salvar a honra do convento, terá forçado o primeiro ministro a avançar com o imposto das mais valias, ora este imposto é o mais traiçoeiro dos impostos, porque no caso de a crise se agravar (que é o caso em que estas receitas seriam mais necessárias) não vão existir mais valias, e logo não vão existir receitas!

E se o PSD em vez de dramatizar o "aumento de impostos" sobre a classe média, ao mesmo tempo que no seu congresso houve quem defendesse claramente a redução significativa de todos os salários do país, viabilizasse com o PS o aumento temporário e gradual do IVA (podia começar com 0,5%), o que teria efeitos imediatos, daria credibilidade às nossas intenções e seria facilmente desmontável assim que começassem a aparecer resultados do lado da despesa?

Voltando à despesa pública, ainda mais importante e urgente do que eliminar desperdícios, é a necessidade de parar rapidamente esta corrente vertiginosa de crescimento do estado que todos os dias inventa novas funções, novos serviços, novas instalações, etc., tanto a nível da administração central como dos municípios, o que aliado ao Cavaquismo/Fontista que Sócrates no passado tanto criticou e de que agora se transformou no grande defensor, conduzem ao crescimento imparável de um monstro tentacular cada vez mais difícil de controlar.

Estamos claramente em zona de grande perigo mas ninguém parece preocupado, assim como é que a população pode compreender alguma coisa quando tiver que pagar a conta?

domingo, 25 de abril de 2010

DÍVIDA E ESPECULADORES

O disparate é livre, essa liberdade já existia até antes do 25 de Abril, mas se não se praticasse tanto era capaz de ser bom para o país.
Vem isto a propósito do que se tem dito sobre a acção dos especuladores e de outras forças sinistras (sobretudo anglo-saxónicas) contra o euro, a Grécia e Portugal.

Neste âmbito merecem especial destaque as declarações de Francisco Louçã, não contra os anglo-saxões, mas contra os europeus continentais de França e da Alemanha que ele descobriu agora que detêm grande parte da dívida portuguesa, logo perigosos especuladores contra Portugal! Ora nós que devíamos comprar aquela dívida não o fazemos (e provavelmente Louçã também não) e preferimos outras aplicações que nos parecem mais interessantes, e por outro lado os fundos e os particulares daqueles países têm confiança em nós e compram a dívida que nós não compramos, fazem-nos um favor e são insultados na praça pública como especuladores!! Está tudo a delirar ou é só ignorância?

Vamos ver se de uma vez por todas se deixa de dizer tanto disparate, os especuladores só compram dívida pública quando ela está na bacia das almas, até lá eles só vendem dívida e quando muito compram CDS`s para especularem contra, não os emitentes de dívida, mas os compradores da dita dívida que depois são insultados como especuladores pelos nossos políticos.

Espero que o Prof Dr Louçã nunca veja os especuladores comprarem dívida nacional, porque se isso viesse a acontecer quereria dizer que ela já teria um desconto de pelo menos 50%, o que como é evidente significaria tão só e apenas estaríamos completamente falidos, e ele talvez mais perto do seu sonho revolucionário.

Também a versão da conspiração anglo-saxónica contra o euro é outra confabulação sem sentido, claro que os USA não gostariam de perder o seu papel chave no sistema monetário internacional mas certamente não é essa a sua maior preocupação neste momento, isto por duas razões, o euro nunca chegou perto de pôr aquela hegemonia em causa, e neste momento para a recuperação das exportações americanas um euro forte seria muito melhor que a debilitada moeda a que a crise mundial e os erros das economias europeias conduziram.

domingo, 18 de abril de 2010

GEORGE SOROS E O INET

Soros foi indiscutívelmente um dos grandes "traders" dos tempos modernos, por essa via tornou-se um homem muito rico (dos mais ricos do mundo utilizando critérios mais alargados), mas o que o distingue são sobretudo as suas preocupações com as questões sociais, políticas e económicas, raras em homens que tiveram o seu sucesso económico e que lhe permitiriam passar os últimos anos de vida a exibir o seu dinheiro, poder, ou até jovens namoradas, em lugar do tipo de preocupações que o ocupa.

A verdade é que Soros sempre sonhou em ficar na história não como um homem muito rico mas como um filósofo, e foi por isso que escreveu diversos livros sobre a sua "teoria de reflexividade", sem qualquer sucesso diga-se de passagem, até porque aquela teoria no que é aproveitável nada tem de original e para além desse aspecto é simplesmente uma grande confusão. É curioso que Soros pouco ou nada escreveu sobre como ganhar dinheiro nos mercados, apesar de isso ser a coisa sobre a qual ele comprovadamente sabe.

Na sua juventude Soros foi aluno de Karl Popper que o marcou profundamente e que ficou como a figura tutelar que ele procura não digo igualar mas de quem pelo menos quer sentir-se condigno discípulo, e é por isso que tem sido um filantropo que abraçou várias causas político/sociais e culturais sempre longe da habitual "caridadezinha internacional". Foi nesse âmbito que em 2009 ele criou o Institute of New Economic Thinking, instituto esse que agora em Abril realizou a sua sessão inaugural no King`s College em Cambridge (a casa de Keynes) com a quase totalidade da nata dos economistas do mundo.

Aquela sessão inaugural produziu uma série de conferencias que se podem ver no site do instituto e que são de enorme interesse (http://ineteconomics.org/), ou ainda no Youtube.

É verdadeiramente prodigiosa a quantidade de informação que hoje existe disponível à distância de um clic na internet, em todas as áreas mas também na da economia, neste campo para além do site do referido instituto gostaria de realçar, entre muitos outros, os sites europeu e americano que constam dos blogs do Só Curtas:
http://www.voxeu.org/ e http://economistsview.typepad.com/economistsview/.

terça-feira, 23 de março de 2010

VÁRIOS EUROS - O REGRESSO A KEYNES (1941)

Ainda durante a segunda grande guerra Keynes começou a desenvolver trabalhos com vista a definir a base a partir da qual seria possível que a economia mundial, depois de acabada a guerra, tivesse condições para entrar numa fase de crescimento global, longe do proteccionismo a que a crise de 1929 tinha conduzido o mundo. Sendo neste âmbito de destacar o texto produzido em 1941 "Proposals for an International Currency Union", de que vou aqui procurar dar uma ideia geral pelo seu interesse e actualidade quando se começa a falar de vários "euros".

Apesar de Keynes ser considerado um dos pais do sistema monetário internacional estabelecido em Bretton Woods, conjuntamente com o americano Dexter White, a verdade é que o que em 1944 foi consagrado em Bretton Woods difere substancialmente do que Keynes defendia em 1941, não sei o que dessa mudança correspondeu a evolução do pensamento do mestre e que parte resultou apenas do peso da realidade americana como grande vencedor do conflito e então a grande economia mundial com enormes superavits comerciais, e portanto a única com condições para financiar a recuperação.

Voltando ao documento de Keynes, a base do sistema seria um "International Clearing Bank" através do qual se realizariam todas as transacções internacionais num sistema fechado e por isso sempre em equilíbrio, porque os débitos de uns seriam os créditos de outros. Por outro lado, o grande objectivo seria que o sistema tivesse capacidade efectiva para pressionar quer países deficitários quer superavitários para corrigir essas situações que deveriam idealmente caminhar para um equilíbrio total, sem deficits nem excedentes. O documento pretendia também definir condições de comércio justas em termos globais longe da prática dos acordos bilaterais, limitando quer os impostos alfandegários e a fixação de quotas, quer os incentivos à exportação, numa rota que depois veio a ser abraçada pela OMC.

Defendia ainda Keynes que o ideal seria que os membros do sistema não fossem países mas "currency unions" agrupando países por razões políticas e geográficas, sistema este para o qual se deveria evoluir. Meramente a título de exemplo até porque o fim da guerra iria originar novas situações, Keynes considerava o estabelecimento de 11"unions" (América do Norte, América Central e do Sul, Império Britânico, URSS, Médio Oriente, Extremo Oriente, e 5 zonas na Europa para além do UK abrangido no Império). Sobre como operariam estas zonas monetárias tão longe da optimização Keynes não se debruça. É curioso olhar para a uniões europeias sugeridas:
- países germânicos incluindo a Suíça, a Holanda e a Áustria
- países escandinavos incluindo os estados bálticos
- a união latina - França, Bélgica, Itália, Espanha e Portugal
- Europa central - Polónia, Eslováquia, Hungria, etc
- União dos Balcans

O sistema funcionaria como de câmbios fixos, cada moeda com a sua relação fixada com o ouro, câmbios esses que obrigatoriamente seriam alterados para baixo ou para cima sempre que maiores distorções surgissem nos saldos comerciais de cada país. A título meramente de exemplo um país/zona monetária que tivesse na sua conta no clearing por mais de um ano um saldo superior a metade da média entre as suas importações e exportações num ano, seria obrigado a valorizar a sua moeda em 5%, correspondente desvalorização seria obrigatória para quem inversamente tivesse deficits de dimensão equivalente.

Texto para reflectir em tempos em que não só a nossa zona monetária tem de ser repensada, como também temos de o fazer em relação à situação dos outros países europeus fora dela.
O PEC

Este é daqueles documentos que qualquer governo gostaria de nunca ter de fazer, talvez isso ajude a explicar o que se tem passado com as apreciações de diversos comentadores económicos que teem tido mudanças substanciais ao longo do tempo conforme o documento foi passando das 9 páginas iniciais para as 110 finais. Houve de tudo, dos que de posições iniciais de concordância, ou até de elogio, evoluíram para posições de oposição radical, como houve aqueles que do tom crítico inicial evoluíram para posições de receptividade global em relação ao documento.

Claro que muito provavelmente a qualidade final do documento foi afectada pela promessa eleitoral de não subir os impostos, reinterpretada pelo governo na versão de não subir as taxas dos impostos, o que dificultou a saída de utilizar o aumento do IVA em lugar da redução das deduções fiscais, mas mesmo assim o resultado final não seria muito diferente. Ouvi economistas de vários quadrantes políticos elogiar o bom trabalho feito pela equipe do ministério das finanças.

Crítica total, clara e "fundamentada" ao documento apenas a vi da esquerda radical que defende outro modelo de desenvolvimento, modelo esse que no entanto nunca explicou qual é, pelo menos de uma forma global e coerente.

O PEC podia ser melhor? muito provavelmente sim. O PEC é mau? parece que não. O PEC podia ser radicalmente diferente? não se vê como.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

PRÉMIO PARA GREENSPAN - REAL WORLD ECONOMICS REVIEW
22 February 2010

Greenspan wins Dynamite Prize in Economics

Alan Greenspan has been judged the economist most responsible for causing the Global Financial Crisis. He and 2nd and 3rd place finishers Milton Friedman and Larry Summers, have won the first–and hopefully last—Dynamite Prize in Economics.
In awarding the Prize, Edward Fullbrook, editor of the Real World Economics Review, noted that “They have been judged to be the three economists most responsible for the Global Financial Crisis. More figuratively, they are the three economists most responsible for blowing up the global economy.”
The prize was developed by the Real World Economics Review Blog in response to attempts by economists to evade responsibility for the crisis by calling it an unpredictable, “Black Swan” event. In reality, the public perception that economic theories and policies helped cause the crisis is correct.
The prize winners were determined by a poll in which over 7,500 people voted—most of whom were economists themselves from the 11,000 subscribers to the real-world economics review. Each voter could vote for a maximum of three economists.Fullbrook cautioned that not all economics and economists were bad. “Only ‘neoclassical’ economists caused the GFC. There are other approaches to economics that are more realistic—or at least less delusional—but these have been suppressed in universities and excluded from government policy making.”
“Some of these rebels also did what neoclassical economists falsely claimed was impossible: they foresaw the Global Financial Crisis and warned the public of its approach. In their honour, I now call for nominations for the inaugural Revere Award in Economics, named in honour of Paul Revere and his famous ride. It will be awarded to the 3 economists who saw the GFC coming, and whose work is most likely to prevent another GFC in the future.”
Dynamite Prize Citations
Alan Greenspan (5,061 votes): As Chairman of the Federal Reserve System from 1987 to 2006, Alan Greenspan both led the over expansion of money and credit that created the bubble that burst and aggressively promoted the view that financial markets are naturally efficient and in no need of regulation.
Milton Friedman (3,349): Friedman propagated the delusion, through his misunderstanding of the scientific method, that an economy can be accurately modeled using counterfactual propositions about its nature. This, together with his simplistic model of money, encouraged the development of fantasy-based theories of economics and finance that facilitated the Global Financial Collapse.
Larry Summers (3,023): As US Secretary of the Treasury (formerly an economist at Harvard and the World Bank), Summers worked successfully for the repeal of the Glass-Steagall Act, which since the Great Crash of 1929 had kept deposit banking separate from casino banking. He also helped Greenspan and Wall Street torpedo efforts to regulate derivatives.
In total 18,531 votes were cast. The vote totals for the other finalists were:
Fischer Black and Myron Scholes 2,016
Eugene Fama 1,668
Paul Samuelson 1,291
Robert Lucas 912
Richard Portes 433
Edward Prescott and Finn E. Kydland 403
Assar Lindbeck 375

domingo, 21 de fevereiro de 2010

MADEIRA - TRÊS LIÇÕES

Como de todas as catástrofes, já que não foi possível evitá-las, o mais importante é tirar delas lições para o futuro, e deste caso para mim ficam três lições, que muito provavelmente vão ser ignoradas como é habitual, mas que seria vital não esquecer por muito tempo.

Não me refiro a três lições para a Madeira, repisando os pormenores habituais, de uma forma mais abrangente refiro-ma a uma lição para a Madeira, outra para a região de Lisboa e outra para o país.

Para a Madeira trata-se da necessidade de repensar a ocupação de solos nas zonas urbanas e periferias críticas, e de encontrar soluções que minimizem ocorrências deste tipo, que os meteorologistas dizem que se vão intensificar nos próximos anos. E tudo isso tem de ser decidido agora no calor dos acontecimentos porque senão nunca o será, ou apenas depois de uma tragédia muito maior do que aquela a que agora assistimos. Eu estava na Madeira quando foram as inundações de 1979, e apesar de ter sido um pequeno fenómeno em relação ao de agora, foi assustador o suficiente.

A 2ª lição é para a região de Lisboa (e não vou falar de sismos), todos os mais velhos se lembram do que foram as inundações dos anos 60(?), com um número dramático de mortos em especial na periferia de Lisboa, pois a verdade é que se o mesmo fenómeno ocorresse de novo entre nós, os resultados seriam ainda muito mais dramáticos, a percentagem de área impermeabilizada aumentou imensamente, a ocupação de antigas linhas de água hoje deve estar perto dos 100%, o número de habitantes em zonas "frágeis" explodiu, etc. e tudo isto num tempo em que os especialista em assuntos do clima dizem que fenómenos extremos vão se tornar mais usuais, ou seja, estamos perto de uma catástrofe anunciada, mais ano menos ano. O que é que se tem feito? o que é que se pretende fazer?

A terceira lição é menos directa e mais política, quer entre nós, quer um pouco por todo o mundo, as situações mais dramáticas sob o ponto de vista mediático são as que teem maior impacto junto do público, no entanto as situações de "morte lenta", são muitas vezes muito mais importantes em termos das suas repercussões sociais e económicas. O que quero dizer com isto? apenas que situações como as da Madeira com largas dezenas de mortos são sem dúvida de um dramatismo absoluto, mas a existência de 500.000 desempregados no país, de milhares de empresas a fecharem as portas, sendo um fenómeno menos dramático em termos mediáticos, não o é menos (ao contrário)em termos sociais e económicos, e esta situação vai certamente originar muito mais mortes, violência, suicídios e rupturas sociais do que a catástrofe madeirense, só que a conta-gotas, o que tem pouco apelo mediático. Desemprego a estes níveis vai originar que muita gente de todas as idades passe a comer de forma não regular, que esses mesmos não vão ter acesso aos medicamentos de que precisariam, que a criminalidade, o alcoolismo e outra dependências irão aumentar, muitas famílias se irão desestruturar por completo, etc. Isto para não entrar pelos custos sociais em cadeia originados pelo mau funcionamento das economias. Todos sabemos que grande parte destas situações não tem solução de curto prazo, mas de qualquer modo não é de certeza com o triste espectáculo diário dos nossos políticos lutando todos entre si por migalhas de um poder imaginário, que as coisas poderão melhorar mais rapidamente. Isto sim, é um espectáculo escandaloso, mas que como não tem o impacto mediático de uma catástrofe, não só dá para levar, como ainda para agravar transformando tudo isto em simples espectáculo que vende

domingo, 14 de fevereiro de 2010

CIMPOR - IV

No início era o receio mas também a esperança, agora parece restar apenas o desânimo mais completo.

Era o receio de vermos partir centros de decisão nacionais, mas era também a esperança de um primeiro grande investimento brasileiro fazer uma base em Portugal para actuar a nível mundial, e assim mudar o nosso quadro empresarial, a nossa presença económica global e o nosso, historicamente apenas palavroso, relacionamento com o Brasil.

Tudo parece ter ido por água abaixo, três grandes grupos brasileiros tomam posições na empresa sobretudo para se bloquearem uns aos outros, daqui todos os males podem advir, paralisia, venda de activos, etc.

Será que os nossos problemas de dimensão, agravados pelo individualismo exacerbado de pequenas quintas, e pela visão de curto prazo, levam a que seja impossível Portugal ter uma empresa que seja um player mundial em alguma área?