BANQUEIROS À PORTUGUESA E O BP
- DE JARDIM A SALGADO
Em todo o globo o mundo financeiro é um terreno complicado, em que é mais ou menos comum o surgimento de situações inesperadas muito graves, isto porque a sofisticação dos instrumentos financeiros e a alavancagem tornam difícil aos controladores e reguladores assegurar que os operadores não correm riscos desmedidos, de consequencias incontroláveis.
No caso do nosso pequeno pseudo-capitalismo, alguns serão induzidos a pensar que o que se passa é mais ou menos o mesmo do que no resto do mundo. Infelizmente os nossos problemas são bem mais prosaicos, eles estão ao nível da falta de sofisticação do nosso mercado e dos seus instrumentos, assim como da incompetência de reguladores e controladores.
Olhando para o passado recente da banca nacional a situação pode resumir-se da forma seguinte:
- BPP - um fundo de Investimento agressivo a quem o Banco de Portugal (BP) decidiu dar uma licença bancaria, não se sabe porquê
- BPN - um caso de policia, nacionalizado a bem dos prevaricadores
- BANIF - alguma vez preencheu de facto as condições para ser um banco? o BP achou que sim
- CGD - teoricamente o banco do Estado, na pratica foi a mãe de todos os negócios de grupos e mafias diversas, que originaram os bilionários prejuízos agora acumulados
- BPI - Aparentemente o único banco "normal", com os problemas normais numa grande crise internacional
Neste quadro restam os dois grandes bancos privados nacionais, bancos que tudo levaria a crer estarem fadados ao sucesso, quer nacional quer mesmo internacional, BCP e BES, e que estão hoje nas situações que todos mais ou menos conhecemos.
O BCP foi um dos "cases" mais importantes em Portugal, no que se refere à velocidade e segurança de lançamento de uma grande operação entre nós, de facto o BCP revolucionou a forma de lançar negócios no país, assim como de desenvolver o negocio bancário, e depois disso, durante uns bons anos continuou a ser um caso de enorme sucesso.
Tempos mais tarde tudo se perdeu, sob o olhar sempre desatento do BP, começaram os malabarismos diversos,e contra eles apenas se levantaram outros artistas que apenas queriam substituir-se aos malabaristas de serviço.
Hoje só é estranho como é que o banco era tão forte que resistiu aos malabarismos, às ondas de assaltantes, e depois a esta enorme crise, tudo sempre sob o olhar complacente do BP.
Com uma equipe de luxo, onde se perdeu o BCP?
O BES era outro caso fadado à nascença para o sucesso, não arrancou com o dinamismo do BCP, mas tinha atrás de si o peso da tradição e a imagem do grande banco nacional que sobrevivera/renascera independente após revolução, alem disso, tal como BCP, tinha também uma equipe de qualidade e um líder incontestado.
No entanto, há muito que não há praticamente escândalo económico em Portugal em que o nome do banco não seja envolvido. Na maior parte dos casos tudo fica por esclarecer de forma cabal, como é usual com a nossa justiça, no entanto a possibilidade de que se trate apenas de coincidencias ou azares, é cada vez menos plausível para o publico.
Agora o presidente do banco vem dizer que a origem de todos os problemas são dois casos de ausência total de controle interno dentro do grupo (Holding e Angola), o que por si só seria já alarmante, no entanto tudo leva a crer que as coisas sejam bem piores.
Aparentemente, um banco envolvido em tantos pequenos e grandes escândalos teve necessidade de se envolver em situações e com pessoas não muito recomendáveis, que poderiam ter aparente utilidade imediata, mas com riscos para o espírito do grupo, para as suas praticas, e finalmente, para a sua solidez. Como em tudo na vida os atalhos simplificadores pagam-se caros.
O BES seria assim dois mundos, o mundo formal com a sua tradição e a sua equipe de luxo, e o mundo informal, mais "dinâmico", habilidoso, actuando sempre nas margens da legalidade, que gravitava à sua volta e que o primeiro grupo julgava controlar.
Também aqui tudo sempre sob o olhar desatento do BP.
Ricardo Salgado vai conseguir manter-se? Vai conseguir fazer o seu sucessor? Seria saudável que alguma dessas coisas acontecesse? A resposta óbvia parece ser que não.
Embora estas questões possam parecer importantes, na verdade elas são já claramente secundarias.
A grande questão é saber como chegamos aqui, como foi possível? Para alem da incompetência, cegueira ou temor reverencial do BP, como foi possível a banca chegar a este ponto?
Para não procurar exemplos mais longe e ficar dentro da nossa área cultural, como é que aqui ao lado, Espanha produziu grandes bancos e banqueiros (a par de outros casos nada exemplares), e nós apenas este pântano doentio e pequenino?
Teria sido possível que Jardim e Salgado tivessem sido grandes banqueiros, com peso e prestigio internacionais, onde é que eles se perderam? Onde é que a nossa banca se perdeu? Para alem da ostensiva ausência de um BP o que fez que assim fosse?
A resposta a estas questões é agora especialmente importante, porque vivemos os dias em que a banca europeia mais poderosa resolveu deixar de jogar o jogo do faz de conta, como tem feito até agora, e decidiu que é tempo de encarar a sua recapitalização. Quem vai recapitalizar a banca portuguesa? Vai restar algum banco nacional no final do processo?
Finalmente o BP decidiu assumir o seu papel de regulador, auditor e controlador do sector, depois de anos de incompetência em que todos os partidos que passaram pelo poder, e não só, tiveram enormes responsabilidades. Também será de realçar o facto de pela primeira vez um governo ter resistido às pressões, que julgo imensas, para que mais uma vez se arranjasse uma pseudo-saída do problema, o que não teria sido mais do que um adiamento de um cancro que cresceria como uma bola de neve e que depois se tentaria transferir para o erário público. Claro que as limitações impostas pelos controles comunitários também vieram diminuir o espaço para as nossas tradicionais habilidades.
Toda a historia deve ter uma conclusão moral, julgo que também esta.
Todos estes "embrulhos" tiveram custos enormes para os accionistas envolvidos, tanto para os pequenos como para os controladores, para o país, tanto em termos de prejuízos materiais como de imagem, enfim e sobretudo, perdas incalculáveis para todos nós. Tudo isto porque os governos, os reguladores e os controladores se demitiram, deixando o campo aberto aos habilidosos e malabaristas.
Os únicos ganhadores de todos estes processos acabaram por ser precisamente esses habilidosos e malabaristas, cuja únicas qualidades são precisamente essas, e que se estas oportunidades não lhes tivessem sido abertas, seriam apenas os pobres diabos que efectivamente são, e não os homens muito ricos que alguns até serão.
Curiosamente até Jardim e Salgado acabam também por ser vitimas deste processo, em que foram protagonistas e responsáveis importantes. Serão certamente os dois homens ricos, também o seriam se tivessem trilhado outros caminhos, talvez até muito mais, veja-se Botin. Mas na verdade dificilmente terão a imagem publica que poderiam ter tido. Porquê terminar sem honra nem gloria envoltos em suspeitas, dúvidas e acusações?
Apesar dos custos sociais de toda esta historia nem tudo teria sido perdido, se pelo menos tivéssemos a certeza que nunca mais situações destas se repetiriam, e que o rigor, o trabalho e inteligência, passassem a ser critérios de avaliação mais importantes que as capacidades malabaristas nos bordos da legalidade.
sábado, 24 de maio de 2014
sábado, 4 de maio de 2013
A QUESTÃO DOS "SWAPS" É UMA FARSA ?
Não é estranho que o problema destes contratos de swap só apareça exactamente quando eles começam ser menos interessantes para os bancos?
Ontem as taxas de juro dispararam nos Estados Unidos, toda a gente sabe que as taxas vão subir num prazo mais ou menos curto, não será por isso que os bancos querem é sair destes contratos no ponto ideal, antes que eles se virem contra eles?
Foi por essa razão que foi montada esta grande encenação e se criou um escândalo com aqueles contratos ? Escândalo esse que ainda ninguém explicou. Onde estão os tais "contratos tóxicos"? E as tão faladas provas e responsáveis? Qual a justificação para a opacidade de todo o assunto?
O governo aparece agora como o cavaleiro andante impoluto que vai "renegociar de forma dura, nos tribunais se necessário", os referidos contratos. O primeiro "sucesso" das negociações foi uma redução inicial de 100 milhões nos 3.000 milhões. Para dar credibilidade à encenação o governo acha pouco e ameaça com tribunais, quer 500 milhões, será que é tudo teatro?
Mas a verdade é que, mesmo a custo zero, pode não ser bom para as empresas nesta altura sair de alguns contratos de swap de protecção da taxa de juro.
Se as empresas pagarem agora 2.500 milhões para sair dos presentes contratos, terão a médio prazo de pagar mais 4.000 ou 6.000 milhões em juros adicionais. Ou seja, esta pretensa operação de saneamento irá provavelmente custar às empresas e ao país mais de 8.000 milhões, o que só por si representa quase duas vezes o buraco orçamental tão propagado pelo governo.
Sair agora de alguns destes contratos pode ser o melhor presente que se pode oferecer à banca. Até este momento a banca não teve custos com a cobertura das suas posições porque o mercado evoluiu a seu favor, mas a banca sabe que agora o mercado vai evoluir contra ela, e a gestão das suas posições vai passar a ser dispendiosa. Será que a banca quer aproveitar o espantalho de um falso escândalo, agitando o perigo dos 3.000 milhões, para sair com um "acordo" que só pode ser bom para ela própria?
Sair dos contratos no ponto em que as potenciais perdas das empresas estão no máximo e em que os bancos vão ter de começar a ter despesas com protecção das suas posições, é o negocio ideal para a dita banca, e criminoso para o país.
É sempre esta a estratégia da banca neste tipo de operações, procurando antecipar as mudanças nos mercados e terminando com os contratos antes de começarem a correr contra ela, com a vantagem que é exactamente esse o momento em que o cliente está mais assustado com as perdas entretanto acumuladas.
Estes contratos celebrados pelas empresas tiveram custos de constituição e de manutenção, e acumulam agora perdas potenciais significativas, mas sair deles neste momento pode ser a pior solução para as empresas e para o país.
A opacidade com que este assunto está a ser tratado não é aceitável. Existem contrato tóxicos? Quais são? Quem são os responsáveis? Como vai ser negociado todo este dossier? Vai ser dado à banca o presente que ela quer?
É uma vergonha nacional se tudo isto não for bem conduzido e explicado!
Os países pobres não são pobres pela falta de recursos, são pobres porque são incompetentes e corruptos.
domingo, 14 de abril de 2013
A REMODELAÇÃO PODE FUNCIONAR
Estranhamente todos os comentadores estão contra a mini-remodelação de Passos, no entanto ela parece-me das poucas decisões acertadas tomadas recentemente pelo Primeiro -Ministro.
Marques Guedes vai fazer o que tem de ser feito nas suas áreas, de forma discreta, diligente, rigorosa e o mais consensual possível.
Poiares Maduro (que não conheço), parece que será a única pessoa neste governo com capacidade para "pensar Portugal" de uma forma minimamente criativa, mas, mais do que isso, julgo que ele poderá ter a capacidade de explicar aos portugueses o que efectivamente se passa, o que tem de ser feito e porquê, e assim conseguir dar ao país algum sentido para os tempos difíceis que se viveram e ainda se vão viver.
Poiares parece ter as capacidades para fazer o que este governo mais ou menos autista não conseguiu fazer até agora, ou seja, contar aos portugueses uma "história" minimamente compreensível e motivadora. Assim sendo, o seu papel no actual governo passará a ser crucial para o sucesso do mesmo e do país, pelo que a atribuição da gestão das verbas do QREN ao homem que vem para o governo para "pensar Portugal" e para explicar aos portugueses o que tem de ser feito me parece fazer todo o sentido, só assim ele terá poder suficiente para não se apenas um porta-voz do governo constantemente ultrapassado pelos acontecimentos, e se tornar um elemento marcante da governação nos próximos tempos, tanto mais que tem conhecimento técnico na área económica.
Estranhamente todos os comentadores estão contra a mini-remodelação de Passos, no entanto ela parece-me das poucas decisões acertadas tomadas recentemente pelo Primeiro -Ministro.
Marques Guedes vai fazer o que tem de ser feito nas suas áreas, de forma discreta, diligente, rigorosa e o mais consensual possível.
Poiares Maduro (que não conheço), parece que será a única pessoa neste governo com capacidade para "pensar Portugal" de uma forma minimamente criativa, mas, mais do que isso, julgo que ele poderá ter a capacidade de explicar aos portugueses o que efectivamente se passa, o que tem de ser feito e porquê, e assim conseguir dar ao país algum sentido para os tempos difíceis que se viveram e ainda se vão viver.
Poiares parece ter as capacidades para fazer o que este governo mais ou menos autista não conseguiu fazer até agora, ou seja, contar aos portugueses uma "história" minimamente compreensível e motivadora. Assim sendo, o seu papel no actual governo passará a ser crucial para o sucesso do mesmo e do país, pelo que a atribuição da gestão das verbas do QREN ao homem que vem para o governo para "pensar Portugal" e para explicar aos portugueses o que tem de ser feito me parece fazer todo o sentido, só assim ele terá poder suficiente para não se apenas um porta-voz do governo constantemente ultrapassado pelos acontecimentos, e se tornar um elemento marcante da governação nos próximos tempos, tanto mais que tem conhecimento técnico na área económica.
sábado, 9 de março de 2013
OS CHAVEZ
Chavez sempre foi visto como uma daquelas personagens teatrais só possíveis em países de terceiro mundo, filhas da esquerda revolucionaria e do populismo.
Mas na verdade Chavez, pareça ou não personagem de uma ópera bufa, é sobretudo uma consequencia da histórica inconsciência social das elites venezuelanas, do seu afastamento em relação ao seu povo e até da própria divisão étnica entre ela, pretensamente "branca" e uma enorme maioria, mais ou menos índia.
Foi esta clivagem social e étnica que gerou Chavez, e tal como ele mais alguns dos actuais líderes da América Latina de origem espanhola, líderes da mesma escola embora menos estrionicos e com menos petróleo. Enquanto a visão de curto prazo das elites e a sua incapacidade para resolver os problemas dos diversos países continuarem, outros Chavez virão, alguns talvez mesmo bastante mais radicais.
A verdade é que enquanto estas elites não mudarem elas continuarão a produzir os seus Chavez, de forma mais ou menos regular, tanto mais agora que a causa ganhou um novo santo já embalsamado, este sim, filho do povo, ao contrario do "herói bolivariano" que ele idolatrizou e que não foi mais do que o agente dos interesses das elites locais da época.
Mas os Chavez ´não são um exclusivo do folclore latino americano, eles podem surgir por outros lados. Também nós tivemos já o nosso Chavez, também ele coronel, de nome Vasco Gonçalves, e que não teve o sucesso do outro porque não existia em Portugal nem o petroleo, nem uma base social para a personagem, o que não quer dizer que esta não possa vir a existir.
Com o aumento da indiferença das elites pelas questões sociais, com os crescentes níveis de incompetência e corrupção, reais ou não, mas apercebidos pelas populações, o mais natural é que os Chavez comecem a pipocar por esse mundo fora.
Chavez sempre foi visto como uma daquelas personagens teatrais só possíveis em países de terceiro mundo, filhas da esquerda revolucionaria e do populismo.
Mas na verdade Chavez, pareça ou não personagem de uma ópera bufa, é sobretudo uma consequencia da histórica inconsciência social das elites venezuelanas, do seu afastamento em relação ao seu povo e até da própria divisão étnica entre ela, pretensamente "branca" e uma enorme maioria, mais ou menos índia.
Foi esta clivagem social e étnica que gerou Chavez, e tal como ele mais alguns dos actuais líderes da América Latina de origem espanhola, líderes da mesma escola embora menos estrionicos e com menos petróleo. Enquanto a visão de curto prazo das elites e a sua incapacidade para resolver os problemas dos diversos países continuarem, outros Chavez virão, alguns talvez mesmo bastante mais radicais.
A verdade é que enquanto estas elites não mudarem elas continuarão a produzir os seus Chavez, de forma mais ou menos regular, tanto mais agora que a causa ganhou um novo santo já embalsamado, este sim, filho do povo, ao contrario do "herói bolivariano" que ele idolatrizou e que não foi mais do que o agente dos interesses das elites locais da época.
Mas os Chavez ´não são um exclusivo do folclore latino americano, eles podem surgir por outros lados. Também nós tivemos já o nosso Chavez, também ele coronel, de nome Vasco Gonçalves, e que não teve o sucesso do outro porque não existia em Portugal nem o petroleo, nem uma base social para a personagem, o que não quer dizer que esta não possa vir a existir.
Com o aumento da indiferença das elites pelas questões sociais, com os crescentes níveis de incompetência e corrupção, reais ou não, mas apercebidos pelas populações, o mais natural é que os Chavez comecem a pipocar por esse mundo fora.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
O BANQUEIRO COMENTADOR VOLTA A ATACAR
Como se não bastasse esta situação caricata, só possível em Portugal, de existir um banqueiro comentador, agora o referido comentador faz ainda questão de procurar demonstrar que tem sempre razão, mesmo contra a opinião pública em peso. Aparentemente apenas para provar que é mais inteligente que todos os idiotas nacionais.
Que diria o banco se um dia, um louco qualquer, resolvesse lançar uma campanha de boicote à instituição? Continuaria o comentador tão activo?
Como se não bastasse esta situação caricata, só possível em Portugal, de existir um banqueiro comentador, agora o referido comentador faz ainda questão de procurar demonstrar que tem sempre razão, mesmo contra a opinião pública em peso. Aparentemente apenas para provar que é mais inteligente que todos os idiotas nacionais.
Que diria o banco se um dia, um louco qualquer, resolvesse lançar uma campanha de boicote à instituição? Continuaria o comentador tão activo?
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
A QUESTÃO DAS PENSÕES
Podem resumir-se em quatro as diferentes posições "simplistas" que têm vindo a ser tomadas sobre este assunto:
- o sistema está falido e no futuro não haverá pensões para ninguém, pelo que desde já todos os pensionistas devem começar a ser penalizados
- as pensões estabelecidas são um direito intocável, independentemente das condições económicas do país e da forma como foram obtidas
- os sistemas de previdência que foram capitalizados pelos privados de forma correta têm de ser tratados de forma diferente dos da Previdência geral
- o governo arroga-se o direito de impor taxas especiais sobre as reformas mais altas, fazendo-o de uma forma totalmente arbitrária e dando tratamento desigual a cidadãos com rendimentos equivalentes
Para além destas posições simplistas sobre o assunto, tudo é ainda agravado pelo interesse, mais ou menos disfarçado, de alguns grupos em vir a reduzir a previdência pública em favor de um sistema de previdência privado. Operação esta que ninguém sabe como seria realizável sem a ruptura total da actual previdência pública.
Relativamente às quatro posições atrás referidas é importante notar:
- o sistema está de facto falido, no sentido em que não existem reservas acumuladas, pois os saldos verificados ao longo dos anos, por via da diferença entre as contribuições das empresas e dos trabalhadores e as pensões pagas, foram sendo gastos para pagar despesas correntes do estado. Mas não se pode por isso argumentar que os "velhos" sejam uns priviligeados que têm de ser penalizados pelos gastos do estado. Isto apesar de se saber que existe um numero considerável de beneficiários que pouco ou nada contribuíram para o sistema, dado que estes casos se encontram quase que totalmente ao nível das pensões mínimas, pelo que se trata sobretudo da correcção de uma injustiça histórica que o Estado/Previdência tem de suportar
- as pensões não são um direito intocável, numa época em que temos visto todos os direitos serem postos em causa face à situação de crise que vivemos, não há justificação para que com os valores das pensões não se passe o mesmo, em especial para as mais altas. Mas, mais do que isso, existem muitas pensões elevadas cujo montante nada tem a ver com os valores descontados ao longo de toda a carreira contributiva, e que foram fixadas arbitrariamente com base apenas no ultimo salário e em carreiras contributivas curtas, ou em função de outras justificações semelhantes
-não é justa qualquer distinção entre pessoas que tiveram o mesmo volume de descontos para os sistemas de previdência, seja por serem oriundas de diferente sistema de previdência ou por outras quaisquer razões. Se havia sistemas que estavam (ou foram apressadamente) capitalizados e outros não, é culpa de Estado, e o sistema (agora comum) não pode distinguir entre uns e outros
-a posição que o governo decidiu assumir face às pensões mais altas, para além de ter legalidade no mínimo duvidosa, não tem qualquer critério de justiça subjacente, nem é um sistema eficiente. Se se pretende reduzir as pensões acima de determinado valor a única via legal, justa e eficaz, é propor à Assembleia da República uma lei que permita recalcular todas essas pensões mais elevadas, em função dos descontos efectivamente efectuados por essas pessoas ao longo da sua carreira contributiva. Só se o governo assim fizer estará a corrigir situações erradas e injustas (poderá até propor nesse projecto de lei critérios mais rigorosos do que os existentes para as pensões mais baixas), o que o governo não pode é arbitrariamente fixar "impostos" especiais para determinado grupo de cidadãos, nem desligar a relação que tem de existir entre o valor total dos descontos efectuados ao longo da vida e a pensão a que se tem direito, fazê-lo é, para além de injusto, extremamente perigoso porque vai levar inexoravelmente à perversão do sistema, que em lugar de ficar mais viável o ficará cada vez menos.
Podem resumir-se em quatro as diferentes posições "simplistas" que têm vindo a ser tomadas sobre este assunto:
- o sistema está falido e no futuro não haverá pensões para ninguém, pelo que desde já todos os pensionistas devem começar a ser penalizados
- as pensões estabelecidas são um direito intocável, independentemente das condições económicas do país e da forma como foram obtidas
- os sistemas de previdência que foram capitalizados pelos privados de forma correta têm de ser tratados de forma diferente dos da Previdência geral
- o governo arroga-se o direito de impor taxas especiais sobre as reformas mais altas, fazendo-o de uma forma totalmente arbitrária e dando tratamento desigual a cidadãos com rendimentos equivalentes
Para além destas posições simplistas sobre o assunto, tudo é ainda agravado pelo interesse, mais ou menos disfarçado, de alguns grupos em vir a reduzir a previdência pública em favor de um sistema de previdência privado. Operação esta que ninguém sabe como seria realizável sem a ruptura total da actual previdência pública.
Relativamente às quatro posições atrás referidas é importante notar:
- o sistema está de facto falido, no sentido em que não existem reservas acumuladas, pois os saldos verificados ao longo dos anos, por via da diferença entre as contribuições das empresas e dos trabalhadores e as pensões pagas, foram sendo gastos para pagar despesas correntes do estado. Mas não se pode por isso argumentar que os "velhos" sejam uns priviligeados que têm de ser penalizados pelos gastos do estado. Isto apesar de se saber que existe um numero considerável de beneficiários que pouco ou nada contribuíram para o sistema, dado que estes casos se encontram quase que totalmente ao nível das pensões mínimas, pelo que se trata sobretudo da correcção de uma injustiça histórica que o Estado/Previdência tem de suportar
- as pensões não são um direito intocável, numa época em que temos visto todos os direitos serem postos em causa face à situação de crise que vivemos, não há justificação para que com os valores das pensões não se passe o mesmo, em especial para as mais altas. Mas, mais do que isso, existem muitas pensões elevadas cujo montante nada tem a ver com os valores descontados ao longo de toda a carreira contributiva, e que foram fixadas arbitrariamente com base apenas no ultimo salário e em carreiras contributivas curtas, ou em função de outras justificações semelhantes
-não é justa qualquer distinção entre pessoas que tiveram o mesmo volume de descontos para os sistemas de previdência, seja por serem oriundas de diferente sistema de previdência ou por outras quaisquer razões. Se havia sistemas que estavam (ou foram apressadamente) capitalizados e outros não, é culpa de Estado, e o sistema (agora comum) não pode distinguir entre uns e outros
-a posição que o governo decidiu assumir face às pensões mais altas, para além de ter legalidade no mínimo duvidosa, não tem qualquer critério de justiça subjacente, nem é um sistema eficiente. Se se pretende reduzir as pensões acima de determinado valor a única via legal, justa e eficaz, é propor à Assembleia da República uma lei que permita recalcular todas essas pensões mais elevadas, em função dos descontos efectivamente efectuados por essas pessoas ao longo da sua carreira contributiva. Só se o governo assim fizer estará a corrigir situações erradas e injustas (poderá até propor nesse projecto de lei critérios mais rigorosos do que os existentes para as pensões mais baixas), o que o governo não pode é arbitrariamente fixar "impostos" especiais para determinado grupo de cidadãos, nem desligar a relação que tem de existir entre o valor total dos descontos efectuados ao longo da vida e a pensão a que se tem direito, fazê-lo é, para além de injusto, extremamente perigoso porque vai levar inexoravelmente à perversão do sistema, que em lugar de ficar mais viável o ficará cada vez menos.
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
BOM SENSO DE CURTA DURAÇÃO
Primeiro Junker diz que as condições dadas à Grécia serão extendidas a Portugal e Irlanda, de seguida Passos e Gaspar confirmam a ideia como conquista da sua brilhante actuação.
Agora o Conselho Europeu vem dizer que não há "extensões", o caso grego é especial. Claro que o caso grego é especial, não era uma solução igual que se pretendia, mas apenas a extensão aos outros países da redução dos juros e do aumento dos prazos da dívida. Depois, como já é habitual, Passos e Gaspar confirmam que nunca pretenderam qualquer extensão das condições gregas.
Mais uma vez a pressão dos falcões (Alemanha, Áustria, Holanda e Finlândia) agora acompanhados pela França, veio travar aquele que era o entendimento inicial do Conselho Europeu.
Isto não seria grave se o objectivo dos ditos falcões fosse apenas ter os países em resgate sempre no fio da navalha para os obrigar a fazer o que tem de ser feito, mas a verdade é muito pior, o que os tais falcões pretendem é ter esses países sempre em posição de serem mandados "borda fora" do euro, se e quando as condições económicas o permitirem, e o acharem da sua conveniencia.
Nisto tudo o mais preocupante é a arrogância ignorante. Mais uma vez a Europa quer convencer-se e convencer o mundo que o seu problema está resolvido. Não está, nem sequer a caminho disso. A Europa insiste em não fazer o que precisa para resolver os seus problemas, o que é tanto mais grave quando a economia mundial volta a dar sinais de estagnação.
Mais uma vez o que se fez foi adiar problemas e apenas tirar, para já, a Grécia do banco das urgências. Os mercados responderam com descidas dos juros e subida do euro em relação ao dólar americano, que já passou o 1,3 e talvez até venha a chegar de novo ao 1,36. Depois, como vem sendo hábito, teremos nova crise, novas medidas, mais ou menos avulsas, e o empurrar de novo os problemas com a barriga sem os resolver. Até quando?
No meio disto tudo continuamos com o nosso pretenso comportamento de bom aluno, que seria até uma estratégia com sentido, se fossemos um bom aluno com personalidade, ideias e coragem, mas não como um pequeno aluno médio, que se limita a ser um lambe-botas de professores, ignorantes também eles, e no fundo desprezado pelos ditos professores e odiado pelos colegas.
Por este caminho vamos afundar-nos todos, entre egoísmos, miopia e incompetência.
Primeiro Junker diz que as condições dadas à Grécia serão extendidas a Portugal e Irlanda, de seguida Passos e Gaspar confirmam a ideia como conquista da sua brilhante actuação.
Agora o Conselho Europeu vem dizer que não há "extensões", o caso grego é especial. Claro que o caso grego é especial, não era uma solução igual que se pretendia, mas apenas a extensão aos outros países da redução dos juros e do aumento dos prazos da dívida. Depois, como já é habitual, Passos e Gaspar confirmam que nunca pretenderam qualquer extensão das condições gregas.
Mais uma vez a pressão dos falcões (Alemanha, Áustria, Holanda e Finlândia) agora acompanhados pela França, veio travar aquele que era o entendimento inicial do Conselho Europeu.
Isto não seria grave se o objectivo dos ditos falcões fosse apenas ter os países em resgate sempre no fio da navalha para os obrigar a fazer o que tem de ser feito, mas a verdade é muito pior, o que os tais falcões pretendem é ter esses países sempre em posição de serem mandados "borda fora" do euro, se e quando as condições económicas o permitirem, e o acharem da sua conveniencia.
Nisto tudo o mais preocupante é a arrogância ignorante. Mais uma vez a Europa quer convencer-se e convencer o mundo que o seu problema está resolvido. Não está, nem sequer a caminho disso. A Europa insiste em não fazer o que precisa para resolver os seus problemas, o que é tanto mais grave quando a economia mundial volta a dar sinais de estagnação.
Mais uma vez o que se fez foi adiar problemas e apenas tirar, para já, a Grécia do banco das urgências. Os mercados responderam com descidas dos juros e subida do euro em relação ao dólar americano, que já passou o 1,3 e talvez até venha a chegar de novo ao 1,36. Depois, como vem sendo hábito, teremos nova crise, novas medidas, mais ou menos avulsas, e o empurrar de novo os problemas com a barriga sem os resolver. Até quando?
No meio disto tudo continuamos com o nosso pretenso comportamento de bom aluno, que seria até uma estratégia com sentido, se fossemos um bom aluno com personalidade, ideias e coragem, mas não como um pequeno aluno médio, que se limita a ser um lambe-botas de professores, ignorantes também eles, e no fundo desprezado pelos ditos professores e odiado pelos colegas.
Por este caminho vamos afundar-nos todos, entre egoísmos, miopia e incompetência.
terça-feira, 27 de novembro de 2012
FINALMENTE ALGUM BOM SENSO
Ao fim de longas negociações, a Europa, ao que parece apenas graças ao FMI, lá acabou por reconhecer que de nada serve fazer de conta que os problemas não existem e continuar a adiar as inevitáveis soluções.
A Grécia, e por extensão Portugal e a Irlanda, vão ter juros mais baixos e aumento da maturidade das suas dívidas.
Não é o fim das crises, mas pelo menos permite que os deficits possam de facto começar a cair e com eles as dívidas públicas destes países.
Venceu o bom senso. O lamentável é que isso se deva apenas e tão só ao mau comportamento sistemático da Grécia e à razoabilidade do FMI, por si só a Europa não teria sido capaz de o fazer.
Para que as perspectivas de facto melhorem e toda a austeridade faça sentido, é necessário agora que se encontrem formas de garantir o financiamento à actividade das empresas competitivas.
Ao fim de longas negociações, a Europa, ao que parece apenas graças ao FMI, lá acabou por reconhecer que de nada serve fazer de conta que os problemas não existem e continuar a adiar as inevitáveis soluções.
A Grécia, e por extensão Portugal e a Irlanda, vão ter juros mais baixos e aumento da maturidade das suas dívidas.
Não é o fim das crises, mas pelo menos permite que os deficits possam de facto começar a cair e com eles as dívidas públicas destes países.
Venceu o bom senso. O lamentável é que isso se deva apenas e tão só ao mau comportamento sistemático da Grécia e à razoabilidade do FMI, por si só a Europa não teria sido capaz de o fazer.
Para que as perspectivas de facto melhorem e toda a austeridade faça sentido, é necessário agora que se encontrem formas de garantir o financiamento à actividade das empresas competitivas.
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
AS TROYKAS DESISTEM DE CONTROLAR OS DEFICITS, VIVA A BANCA-ROTA!
Está a acontecer em relação à Grécia, Portugal, Irlanda e até com a pré-troyka espanhola.
Parece ser uma boa notícia, mas não é, é mesmo exactamente o contrário.
Como todas as previsões que fazem têm-se comprovado erradas, agora as troykas decidiram que os deficits não importam, desde que as reformas preconizadas sejam feitas. Isto seria óptimo se as dívidas públicas dos países envolvidos parassem de aumentar, o que é impossível com a continuação dos deficits existentes, ou seja, esta postura "flexível" das troykas não resolve nada, limita-se a empurrar os problemas com a barriga.
Isto é como se a um doente grave o médico lhe dissesse que não o ia incomodar mais com o controle da febre, mas que de resto mantinha todo o tratamento, mesmo não estando a fazer efeito, como se bastasse ignorar os sintomas para que o doente se curasse.
Em vez de finalmente as troykas assumirem que os programas de ajustamento precisam de modificações, seja descida dos juros, seja apoio ao crescimento económico, as troykas limitam-se a empurrar todos estes países para uma inevitável banca-rota a prazo, decidindo depois se fazem o "hair-cut" das dívidas, ou os expulsam do euro.
Como todas as estratégias que passam por não enfrentar e simplesmente adiar os problemas reais, esta também só pode acabar mal, e ainda por cima desacreditar as dolorosas reformas que têm de facto de ser feitas, mas que neste contexto são muito mais difíceis de realizar e que poderão acabar por não servir para nada.
Todos sabemos da indisciplina grega, e que aquele país sempre tentou não implementar a maioria das reformas preconizadas, de qualquer forma vale a pena ver o gráfico abaixo sobre os sucessivos erros das previsões da troyka relativamente ao crescimento do Produto Interno grego de 2009 a 2012 (erros sempre superiores a 6%, entre a primeira estimativa e o resultado final):
http://rwer.wordpress.com/2012/11/09/folly-from-olly-the-disasterous-quality-of-the-economic-predictions-of-the-european-commission/
Está a acontecer em relação à Grécia, Portugal, Irlanda e até com a pré-troyka espanhola.
Parece ser uma boa notícia, mas não é, é mesmo exactamente o contrário.
Como todas as previsões que fazem têm-se comprovado erradas, agora as troykas decidiram que os deficits não importam, desde que as reformas preconizadas sejam feitas. Isto seria óptimo se as dívidas públicas dos países envolvidos parassem de aumentar, o que é impossível com a continuação dos deficits existentes, ou seja, esta postura "flexível" das troykas não resolve nada, limita-se a empurrar os problemas com a barriga.
Isto é como se a um doente grave o médico lhe dissesse que não o ia incomodar mais com o controle da febre, mas que de resto mantinha todo o tratamento, mesmo não estando a fazer efeito, como se bastasse ignorar os sintomas para que o doente se curasse.
Em vez de finalmente as troykas assumirem que os programas de ajustamento precisam de modificações, seja descida dos juros, seja apoio ao crescimento económico, as troykas limitam-se a empurrar todos estes países para uma inevitável banca-rota a prazo, decidindo depois se fazem o "hair-cut" das dívidas, ou os expulsam do euro.
Como todas as estratégias que passam por não enfrentar e simplesmente adiar os problemas reais, esta também só pode acabar mal, e ainda por cima desacreditar as dolorosas reformas que têm de facto de ser feitas, mas que neste contexto são muito mais difíceis de realizar e que poderão acabar por não servir para nada.
Todos sabemos da indisciplina grega, e que aquele país sempre tentou não implementar a maioria das reformas preconizadas, de qualquer forma vale a pena ver o gráfico abaixo sobre os sucessivos erros das previsões da troyka relativamente ao crescimento do Produto Interno grego de 2009 a 2012 (erros sempre superiores a 6%, entre a primeira estimativa e o resultado final):
http://rwer.wordpress.com/2012/11/09/folly-from-olly-the-disasterous-quality-of-the-economic-predictions-of-the-european-commission/
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
A ESQUERDA E ISABEL JONET
Alguém sabe de algum projecto assistencial que a esquerda tenha criado ou apoiado? Claro que não, depois das ideias de Zola e de algumas iniciativas do início do sec XX, nunca mais a esquerda teve qualquer acção nesse campo.
A esquerda radical sempre teve a teoria do quanto pior melhor, não fazendo por isso sentido qualquer apoio social que não seja aos seus camaradas de luta anti-capitalista. Por sua vez a esquerda moderada sempre achou este tipo de "caridadezinha" uma chatice pouco interessante, sobre uma questão que cabe ao estado social resolver.
Isabel Jonet não é nem uma mulher da política, nem uma intelectual, pelo que é fácil que nos tempos que correm tenha caído em considerações um pouco confusas. Isabel é apenas uma mulher de acção que dedicou a vida a um grande projecto social, uma causa que a esquerda radical julga prejudicial aos seus interesses e a moderada olha com desdém.
Perante tudo isto a verdadeira questão que se põe é a de saber o porquê desde súbito interesse das esquerdas por este "prejudicial, enfadonho e desprezível" tema. A resposta só pode ser uma, a esquerda acha que nos tempos que correm a conquista de uma organização poderosa, como é hoje o Banco Alimentar, pode ser um passo importante na sua estratégia de conquista do poder, isto mesmo sabendo que fecharia o dito Banco no dia em que conquistasse o poder.
Eu subscrevo o abaixo-assinado a favor de Isabel Jonet não pela correcção das suas declarações, mas simplesmente porque na verdade não é nada disso que está em causa.
Alguém sabe de algum projecto assistencial que a esquerda tenha criado ou apoiado? Claro que não, depois das ideias de Zola e de algumas iniciativas do início do sec XX, nunca mais a esquerda teve qualquer acção nesse campo.
A esquerda radical sempre teve a teoria do quanto pior melhor, não fazendo por isso sentido qualquer apoio social que não seja aos seus camaradas de luta anti-capitalista. Por sua vez a esquerda moderada sempre achou este tipo de "caridadezinha" uma chatice pouco interessante, sobre uma questão que cabe ao estado social resolver.
Isabel Jonet não é nem uma mulher da política, nem uma intelectual, pelo que é fácil que nos tempos que correm tenha caído em considerações um pouco confusas. Isabel é apenas uma mulher de acção que dedicou a vida a um grande projecto social, uma causa que a esquerda radical julga prejudicial aos seus interesses e a moderada olha com desdém.
Perante tudo isto a verdadeira questão que se põe é a de saber o porquê desde súbito interesse das esquerdas por este "prejudicial, enfadonho e desprezível" tema. A resposta só pode ser uma, a esquerda acha que nos tempos que correm a conquista de uma organização poderosa, como é hoje o Banco Alimentar, pode ser um passo importante na sua estratégia de conquista do poder, isto mesmo sabendo que fecharia o dito Banco no dia em que conquistasse o poder.
Eu subscrevo o abaixo-assinado a favor de Isabel Jonet não pela correcção das suas declarações, mas simplesmente porque na verdade não é nada disso que está em causa.
domingo, 11 de novembro de 2012
É TEMPO DE A ALEMANHA DEIXAR O EURO
Face às actuais posições da Alemanha, ou temos uma Europa com dois "euros" ou não teremos Europa, e assistiremos ainda ao agravar da crise económica mundial.
A Alemanha tem razão em querer forçar que os países "indisciplinados" façam as reformas que têm adiado desde sempre, e que continuarão a adiar se os não pressionarem a não o fazer. Só por via dessas reformas a Europa poderá encontrar o seu espaço num mundo cada vez mais competitivo.
Mas Merkel já não tem razão quando quer que essas reformas sejam feitas em simultâneo com o apertar de cinto generalizado em toda a Europa e sem incentivos especiais aos países em crise. Por essa via teremos um suicídio colectivo.
Face à obsessão alemã contra o crescimento, antes de serem eliminados os deficits em vários países europeus, a única saída que resta à Europa é que a Alemanha (juntamente com a Finlândia, Áustria e Holanda) deixem o euro e adoptem um novo "marco". Se isso não acontecer todo o projecto europeu estará em perigo.
Se a Alemanha se opõe a que no quadro do euro os países com menores deficits se comportem como locomotivas do crescimento do continente, facilitando por essa via o ajustamento das economias mais frágeis e em contracção, então a única solução é que estas economias mais frágeis voltem a ter acesso ao controle de uma política monetária, económica e fiscal mais coincidente com as suas necessidades de sobrevivencia, sem o que todo o edifício desmoronará.
Porque deve ser a Alemanha a sair e não o contrario? A lista de justificações é grande, apenas os pontos principais:
- o grosso da população da zona euro (220 milhões no total de 333 milhões), está em países que necessitam de um rigoroso ajustamento, portanto de um euro sem as exigências da Alemanha
- o regresso individual a antigas moedas por vários países europeus implicaria uma crise financeira colossal na Europa e no mundo, para alem de instabilidade politica e social incontroláveis nos países envolvidos
- um novo "marco", adoptado por quatro ou cinco países disciplinados e com economias homogéneas e estabilizadas, pode ser facilmente conseguido através de uma união monetária simples
- a criação de uma nova moeda para o bloco dos países em dificuldade seria inviável pela complexidade da operação e pela desconfiança que o processo induziria, e conduziria também a uma crise financeira mundial
- a criação de um novo "marco", para a Alemanha e outros países que a quisessem seguir, é a solução mais fácil, mais exequível, melhor para a Europa e para o mundo
- esta via será facilmente reversível no futuro, quando as economias hoje em dificuldade tiverem arrumado as suas casas e um euro único voltar a fazer sentido
A via de um euro sem a Alemanha não será por si só uma solução milagrosa, nem evitará as reformas nas economias menos competitivas, mas se gerida com competência, rigor e criatividade é a via que oferece maior potencial para os países envolvidos, para a Europa e para a economia mundial.
Este não é um texto contra a Alemanha e os outros países que defendem políticas monetárias e económicas mais ortodoxas. É até um texto de compreensão dessas posições, por parte de países que com esforço têm as suas casas arrumadas e não querem correr o risco de vir a serem envolvidos em processos que comportam riscos que eles não precisam nem querem correr. Mas assim como é compreensível a posição desses países também eles têm de compreender que os outros países têm de procurar a solução dos seus problemas, reais e prementes, num enquadramento mais flexível.
Ao fim e ao cabo tratam-se de mais de 200 milhões de habitantes que necessitam de políticas que os outros pouco mais de 100 milhões não querem adoptar. Resta assim uma separação temporária e por mútuo acordo, que no quadro actual será sempre a melhor solução para todas as partes. Nesta perspectiva nem o BCE deveria sair de Frankfurt, nem os países que optassem por sair do euro deveriam deixar de ter representantes não executivos no banco.
É evidente que seria melhor para toda a Europa que fosse possível uma solução de compromisso sobre as grandes questões da política monetária, fiscal e economica, mas dado que parece amplamente demonstrado que tal não é possível, resta este caminho.
A existência de um euro comandado pela França irá fazer reavivar velhas rivalidades continentais, mas esse será o preço que a Alemanha terá de pagar por não querer correr outros riscos. Como sempre, não há almoços grátis.
Face às actuais posições da Alemanha, ou temos uma Europa com dois "euros" ou não teremos Europa, e assistiremos ainda ao agravar da crise económica mundial.
A Alemanha tem razão em querer forçar que os países "indisciplinados" façam as reformas que têm adiado desde sempre, e que continuarão a adiar se os não pressionarem a não o fazer. Só por via dessas reformas a Europa poderá encontrar o seu espaço num mundo cada vez mais competitivo.
Mas Merkel já não tem razão quando quer que essas reformas sejam feitas em simultâneo com o apertar de cinto generalizado em toda a Europa e sem incentivos especiais aos países em crise. Por essa via teremos um suicídio colectivo.
Face à obsessão alemã contra o crescimento, antes de serem eliminados os deficits em vários países europeus, a única saída que resta à Europa é que a Alemanha (juntamente com a Finlândia, Áustria e Holanda) deixem o euro e adoptem um novo "marco". Se isso não acontecer todo o projecto europeu estará em perigo.
Se a Alemanha se opõe a que no quadro do euro os países com menores deficits se comportem como locomotivas do crescimento do continente, facilitando por essa via o ajustamento das economias mais frágeis e em contracção, então a única solução é que estas economias mais frágeis voltem a ter acesso ao controle de uma política monetária, económica e fiscal mais coincidente com as suas necessidades de sobrevivencia, sem o que todo o edifício desmoronará.
Porque deve ser a Alemanha a sair e não o contrario? A lista de justificações é grande, apenas os pontos principais:
- o grosso da população da zona euro (220 milhões no total de 333 milhões), está em países que necessitam de um rigoroso ajustamento, portanto de um euro sem as exigências da Alemanha
- o regresso individual a antigas moedas por vários países europeus implicaria uma crise financeira colossal na Europa e no mundo, para alem de instabilidade politica e social incontroláveis nos países envolvidos
- um novo "marco", adoptado por quatro ou cinco países disciplinados e com economias homogéneas e estabilizadas, pode ser facilmente conseguido através de uma união monetária simples
- a criação de uma nova moeda para o bloco dos países em dificuldade seria inviável pela complexidade da operação e pela desconfiança que o processo induziria, e conduziria também a uma crise financeira mundial
- a criação de um novo "marco", para a Alemanha e outros países que a quisessem seguir, é a solução mais fácil, mais exequível, melhor para a Europa e para o mundo
- esta via será facilmente reversível no futuro, quando as economias hoje em dificuldade tiverem arrumado as suas casas e um euro único voltar a fazer sentido
A via de um euro sem a Alemanha não será por si só uma solução milagrosa, nem evitará as reformas nas economias menos competitivas, mas se gerida com competência, rigor e criatividade é a via que oferece maior potencial para os países envolvidos, para a Europa e para a economia mundial.
Este não é um texto contra a Alemanha e os outros países que defendem políticas monetárias e económicas mais ortodoxas. É até um texto de compreensão dessas posições, por parte de países que com esforço têm as suas casas arrumadas e não querem correr o risco de vir a serem envolvidos em processos que comportam riscos que eles não precisam nem querem correr. Mas assim como é compreensível a posição desses países também eles têm de compreender que os outros países têm de procurar a solução dos seus problemas, reais e prementes, num enquadramento mais flexível.
Ao fim e ao cabo tratam-se de mais de 200 milhões de habitantes que necessitam de políticas que os outros pouco mais de 100 milhões não querem adoptar. Resta assim uma separação temporária e por mútuo acordo, que no quadro actual será sempre a melhor solução para todas as partes. Nesta perspectiva nem o BCE deveria sair de Frankfurt, nem os países que optassem por sair do euro deveriam deixar de ter representantes não executivos no banco.
É evidente que seria melhor para toda a Europa que fosse possível uma solução de compromisso sobre as grandes questões da política monetária, fiscal e economica, mas dado que parece amplamente demonstrado que tal não é possível, resta este caminho.
A existência de um euro comandado pela França irá fazer reavivar velhas rivalidades continentais, mas esse será o preço que a Alemanha terá de pagar por não querer correr outros riscos. Como sempre, não há almoços grátis.
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
O EXEMPLO DE ITÁLIA E AS NOSSAS VACAS SAGRADAS
O governo italiano, apesar de ser de transição e não ter sido resultado directo de eleições, anunciou ontem o corte do numero de Províncias do país de 86 para 51, correspondendo portanto a um corte de quase um terço. É esperado que o Parlamento aprove a decisão que gerará economias da ordem dos quatro mil milhões de euros.
Uma lição clara para um país que desistiu de tocar nas mais de 300 vacas sagradas que são as nossas Câmaras, inventou falsas economias potenciais na fusão de freguesias, e não foi capaz de fazer nem uma, nem outra.
O governo italiano, apesar de ser de transição e não ter sido resultado directo de eleições, anunciou ontem o corte do numero de Províncias do país de 86 para 51, correspondendo portanto a um corte de quase um terço. É esperado que o Parlamento aprove a decisão que gerará economias da ordem dos quatro mil milhões de euros.
Uma lição clara para um país que desistiu de tocar nas mais de 300 vacas sagradas que são as nossas Câmaras, inventou falsas economias potenciais na fusão de freguesias, e não foi capaz de fazer nem uma, nem outra.
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
A CONFUSÃO DE FERNANDO ULRICH
Com o seu "aguenta, aguenta", Ulrich fez um mau serviço ao país e ao governo que ele diz apoiar.
Pior serviço terá ainda feito à sua imagem de banqueiro-comentador.
Claro que todos os povos aguentam muito mais do que aquilo que até agora tivemos de aguentar, e muitas vezes fazem-no mesmo ordeiramente e com espírito de missão, basta lembrar do que se passa durante as guerras, com os seus racionamentos e sacrifícios de toda a ordem.
Mas não é essa a questão, a verdade é que os povos aguentam tudo desde que compreendam a sua inevitabilidade e simultâneamente sintam que os sacrifícios podem valer a pena.
É aí, entre outras coisas, que o governo tem falhado ao não conseguir transmitir aos portugueses nem a inevitabilidade, nem o potencial do confuso caminho que está seguir.
Com amigos como Ulrich este governo não vai precisar de inimigos.
Com o seu "aguenta, aguenta", Ulrich fez um mau serviço ao país e ao governo que ele diz apoiar.
Pior serviço terá ainda feito à sua imagem de banqueiro-comentador.
Claro que todos os povos aguentam muito mais do que aquilo que até agora tivemos de aguentar, e muitas vezes fazem-no mesmo ordeiramente e com espírito de missão, basta lembrar do que se passa durante as guerras, com os seus racionamentos e sacrifícios de toda a ordem.
Mas não é essa a questão, a verdade é que os povos aguentam tudo desde que compreendam a sua inevitabilidade e simultâneamente sintam que os sacrifícios podem valer a pena.
É aí, entre outras coisas, que o governo tem falhado ao não conseguir transmitir aos portugueses nem a inevitabilidade, nem o potencial do confuso caminho que está seguir.
Com amigos como Ulrich este governo não vai precisar de inimigos.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
O DISCURSO QUE PASSOS NÃO FEZ NO CONSELHO EUROPEU
Minhas Senhoras, meus Senhores, Caros Colegas
Todos aqui presentes conhecem a disciplina, o esforço e a humildade com que o governo e o povo português se têm dedicado ao cumprimento do programa acertado com a "Troyka". Assim o temos feito porque estamos convictos que esse é o melhor caminho para Portugal, isto porque, tal como para a Europa como um todo, apenas o reforço da nossa capacidade competitiva pode assegurar o nosso futuro e o dos nossos filhos
Nós temos consciência dos excessos despesistas que existiram no nosso país (assim como em muitos outros) ao longo de vários anos, excessos esses que têm agora de ser corrigidos de forma drástica e rápida, ainda que com os inerentes pesados custos sociais, económicos e políticos. Sabemos de tudo isso e estamos dispostos a todos os esforços que sejam necessários para o fazer, sem desculpas, sem adiamentos, sem hesitações.
Mas, por outro lado não podemos deixar de ter em conta que um programa, qualquer que ele seja, só é bom se produzir resultados aproximados ao esperado, se assim não for fica claro que o programa em causa necessita no mínimo de ajustamentos importantes, sem os quais insistir no mesmo não apenas não levará à melhoria dos resultados, como gerará o efeito contrário.
Como todos sabem foi uma questão de principio sagrada para o meu governo cumprir integralmente as reformas e as duras medidas preconizadas no acordo com a Troyka, em alguns casos fomos mesmo mais longe que o estabelecido porque sabíamos que os objectivos de redução do deficit seriam difíceis de atingir.
Meus senhores, minhas senhoras, penso que pelo comportamento que sempre adoptámos, Portugal tem agora o direito moral de dizer à Europa que o programa apenas funcionou parcialmente, apesar de escrupulosamente cumprido, com custos sociais muito grandes para o povo português, custos estes que sabíamos inevitáveis.
De facto conseguiram-se resultados notáveis na balança comercial do país, mas não nos podemos iludir, os resultados obtidos têm a ver não apenas com o aumento das exportações, mas sobretudo com a diminuição do consumo privado e das importações de bens de equipamento, de qualquer modo tudo está correr bem nesta frente, até melhor do que o programado no plano.
Já no que respeita aos resultados obtidos do lado da diminuição do deficit orçamental, não podemos deixar de constatar que eles estão muito abaixo dos objectivos traçados, isto apesar de termos adoptado medidas para alem das preconizadas, e de termos feito todas as reformas e todas as privatizações programadas.
Apesar da magreza dos resultados obtidos face ao esforço realizado não teríamos qualquer dúvida em intensificar ainda mais esse esforço se não fosse o facto de ser agora claro que nos aproximamos da zona de uma espiral recessiva, em que as medidas para redução do deficit levam ao seu agravamento pela quebra da actividade económica e consequente redução das receitas fiscais e aumento da despesa publica fruto do inescapável aumento dos benefícios sociais.
Aproximamos-nos assim do momento em que os ganhos marginais de redução do deficit por via do aumento da austeridade, se vão reduzindo de forma progressiva e exponencial, correndo risco de rapidamente se entrar na zona perversa em que maior austeridade só gerará maiores deficits.
Alguns dados apenas para vos dar uma ideia do esforço que estamos a fazer. Neste momento em Portugal estamos com um nível de desemprego superior a 16% que ainda não parou de crescer, um salário mínimo inferior a 500 euros, um salário médio nacional inferior a 800, um imposto sobre o rendimento que para rendimentos superiores a 80.000 euros será já de 55%.
Sabemos que temos de cortar ainda mais na despesa pública, essencialmente pela reconfiguração do papel do Estado, porque muito pouco além disso poderemos já fazer num país em que o salário líquido de um médico é inferior a 2.000 euros e o de um ministro a 3.000.
Minhas senhoras e meus senhores, eu penso que se neste momento não trouxesse aqui junto de vós estas minhas preocupações estaria não só a trair o meu povo, como também a trair a Europa. Todos temos que, de cabeça fria, sem preconceitos nem oportunismos, procurar a melhor via para resolver os nossos problemas comuns.
Por isto tudo digo, o programa tal como está não vai resolver o nosso problema, logo também não vai resolver o problema europeu, não estou a pedir mais tempo, nem mais dinheiro, estou apenas a pedir que se repense a parte do programa que está a produzir resultados muito abaixo dos esperados e que nos pode conduzir a uma espiral recessiva.
Nós sabemos que há poucos anos atrás outras economias europeias, com destaque para a alemã, fizeram grandes reestruturações, com enorme visão antecipativa, disciplina e sacrifícios importantes dos seus trabalhadores. A Europa do sul não o fez, bem pelo contrário, julgando que havia chegado ao Eldorado, gastou o que tinha e o que não tinha, e em vez de reformar as suas economias agravou mesmo os seus vícios. Assim foi também em Portugal.
Sabemos que tudo isso tem de ser corrigido, sabemos dos seus custos, temos pressa em fazê-lo, não regatearemos esforços, como não os regateámos até aqui, mas temos sempre de ter a certeza que estamos num caminho com alta probabilidade de sucesso. Sabemos ainda que as mudanças que temos de fazer serão muito mais dolorosas do que as que os outros países fizeram há alguns anos atrás, primeiro porque somos mais pobres e depois porque ao contrário de as fazer numa época de euforia económica as teremos de fazer numa época de recessão. Sabemos isso tudo, mas também sabemos que temos e queremos fazê-lo, tão rapidamente quanto possível.`
É pois neste quadro de pensamento em que eu, que muitas vezes fui criticado por querer ser o bom aluno da Europa, me atrevo a dizer-vos que o nosso programa tal como está não será suficiente para obter os resultados pretendidos e pode levar-nos para uma espiral recessiva, que seria destruidora para Portugal, mas também muito negativa para a Europa.
Humildemente vos digo, julgo que a solução efectiva do problema de Portugal, para além do cumprimento por nossa parte de todas as medidas acordadas, terá de passar por um dos três caminhos seguintes a nível europeu:
-a aceleração do crescimento dos países menos endividados do bloco
-a criação de linhas de financiamento especiais às empresas portuguesas viáveis
- o reescalonamento da dívida pública portuguesa (sem hair-cuts, com aumento de prazos e diminuição de alguns juros)
A questão que aqui vos deixo é sobretudo um problema de Portugal e do meu governo, mas certamente que os senhores compreendem que, apesar da nossa pequena dimensão, na época de incertezas em que vivemos este é também um problema europeu, que agora aqui vos ponho, com o espírito totalmente aberto e colaborativo que sempre tivemos, com vista à procura de soluções que sirvam as necessidades e interesses de todos.
O que nós pensamos que a Europa não pode fazer, é aquilo que nós e outros países fizemos por demasiado tempo, ao não enfrentar os problemas e ir empurrando as soluções sempre à espera de milagres impossíveis. A Europa não pode fazê-lo, e certamente não o fará.
Minhas Senhoras, meus Senhores, Caros Colegas
Todos aqui presentes conhecem a disciplina, o esforço e a humildade com que o governo e o povo português se têm dedicado ao cumprimento do programa acertado com a "Troyka". Assim o temos feito porque estamos convictos que esse é o melhor caminho para Portugal, isto porque, tal como para a Europa como um todo, apenas o reforço da nossa capacidade competitiva pode assegurar o nosso futuro e o dos nossos filhos
Nós temos consciência dos excessos despesistas que existiram no nosso país (assim como em muitos outros) ao longo de vários anos, excessos esses que têm agora de ser corrigidos de forma drástica e rápida, ainda que com os inerentes pesados custos sociais, económicos e políticos. Sabemos de tudo isso e estamos dispostos a todos os esforços que sejam necessários para o fazer, sem desculpas, sem adiamentos, sem hesitações.
Mas, por outro lado não podemos deixar de ter em conta que um programa, qualquer que ele seja, só é bom se produzir resultados aproximados ao esperado, se assim não for fica claro que o programa em causa necessita no mínimo de ajustamentos importantes, sem os quais insistir no mesmo não apenas não levará à melhoria dos resultados, como gerará o efeito contrário.
Como todos sabem foi uma questão de principio sagrada para o meu governo cumprir integralmente as reformas e as duras medidas preconizadas no acordo com a Troyka, em alguns casos fomos mesmo mais longe que o estabelecido porque sabíamos que os objectivos de redução do deficit seriam difíceis de atingir.
Meus senhores, minhas senhoras, penso que pelo comportamento que sempre adoptámos, Portugal tem agora o direito moral de dizer à Europa que o programa apenas funcionou parcialmente, apesar de escrupulosamente cumprido, com custos sociais muito grandes para o povo português, custos estes que sabíamos inevitáveis.
De facto conseguiram-se resultados notáveis na balança comercial do país, mas não nos podemos iludir, os resultados obtidos têm a ver não apenas com o aumento das exportações, mas sobretudo com a diminuição do consumo privado e das importações de bens de equipamento, de qualquer modo tudo está correr bem nesta frente, até melhor do que o programado no plano.
Já no que respeita aos resultados obtidos do lado da diminuição do deficit orçamental, não podemos deixar de constatar que eles estão muito abaixo dos objectivos traçados, isto apesar de termos adoptado medidas para alem das preconizadas, e de termos feito todas as reformas e todas as privatizações programadas.
Apesar da magreza dos resultados obtidos face ao esforço realizado não teríamos qualquer dúvida em intensificar ainda mais esse esforço se não fosse o facto de ser agora claro que nos aproximamos da zona de uma espiral recessiva, em que as medidas para redução do deficit levam ao seu agravamento pela quebra da actividade económica e consequente redução das receitas fiscais e aumento da despesa publica fruto do inescapável aumento dos benefícios sociais.
Aproximamos-nos assim do momento em que os ganhos marginais de redução do deficit por via do aumento da austeridade, se vão reduzindo de forma progressiva e exponencial, correndo risco de rapidamente se entrar na zona perversa em que maior austeridade só gerará maiores deficits.
Alguns dados apenas para vos dar uma ideia do esforço que estamos a fazer. Neste momento em Portugal estamos com um nível de desemprego superior a 16% que ainda não parou de crescer, um salário mínimo inferior a 500 euros, um salário médio nacional inferior a 800, um imposto sobre o rendimento que para rendimentos superiores a 80.000 euros será já de 55%.
Sabemos que temos de cortar ainda mais na despesa pública, essencialmente pela reconfiguração do papel do Estado, porque muito pouco além disso poderemos já fazer num país em que o salário líquido de um médico é inferior a 2.000 euros e o de um ministro a 3.000.
Minhas senhoras e meus senhores, eu penso que se neste momento não trouxesse aqui junto de vós estas minhas preocupações estaria não só a trair o meu povo, como também a trair a Europa. Todos temos que, de cabeça fria, sem preconceitos nem oportunismos, procurar a melhor via para resolver os nossos problemas comuns.
Por isto tudo digo, o programa tal como está não vai resolver o nosso problema, logo também não vai resolver o problema europeu, não estou a pedir mais tempo, nem mais dinheiro, estou apenas a pedir que se repense a parte do programa que está a produzir resultados muito abaixo dos esperados e que nos pode conduzir a uma espiral recessiva.
Nós sabemos que há poucos anos atrás outras economias europeias, com destaque para a alemã, fizeram grandes reestruturações, com enorme visão antecipativa, disciplina e sacrifícios importantes dos seus trabalhadores. A Europa do sul não o fez, bem pelo contrário, julgando que havia chegado ao Eldorado, gastou o que tinha e o que não tinha, e em vez de reformar as suas economias agravou mesmo os seus vícios. Assim foi também em Portugal.
Sabemos que tudo isso tem de ser corrigido, sabemos dos seus custos, temos pressa em fazê-lo, não regatearemos esforços, como não os regateámos até aqui, mas temos sempre de ter a certeza que estamos num caminho com alta probabilidade de sucesso. Sabemos ainda que as mudanças que temos de fazer serão muito mais dolorosas do que as que os outros países fizeram há alguns anos atrás, primeiro porque somos mais pobres e depois porque ao contrário de as fazer numa época de euforia económica as teremos de fazer numa época de recessão. Sabemos isso tudo, mas também sabemos que temos e queremos fazê-lo, tão rapidamente quanto possível.`
É pois neste quadro de pensamento em que eu, que muitas vezes fui criticado por querer ser o bom aluno da Europa, me atrevo a dizer-vos que o nosso programa tal como está não será suficiente para obter os resultados pretendidos e pode levar-nos para uma espiral recessiva, que seria destruidora para Portugal, mas também muito negativa para a Europa.
Humildemente vos digo, julgo que a solução efectiva do problema de Portugal, para além do cumprimento por nossa parte de todas as medidas acordadas, terá de passar por um dos três caminhos seguintes a nível europeu:
-a aceleração do crescimento dos países menos endividados do bloco
-a criação de linhas de financiamento especiais às empresas portuguesas viáveis
- o reescalonamento da dívida pública portuguesa (sem hair-cuts, com aumento de prazos e diminuição de alguns juros)
A questão que aqui vos deixo é sobretudo um problema de Portugal e do meu governo, mas certamente que os senhores compreendem que, apesar da nossa pequena dimensão, na época de incertezas em que vivemos este é também um problema europeu, que agora aqui vos ponho, com o espírito totalmente aberto e colaborativo que sempre tivemos, com vista à procura de soluções que sirvam as necessidades e interesses de todos.
O que nós pensamos que a Europa não pode fazer, é aquilo que nós e outros países fizemos por demasiado tempo, ao não enfrentar os problemas e ir empurrando as soluções sempre à espera de milagres impossíveis. A Europa não pode fazê-lo, e certamente não o fará.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
A COMUNICAÇÃO DO GOVERNO - III
As coisas estavam mal, agora vão ficar piores.
Diz-se que Passos Coelho quer pôr todos os ministros a falar sobre as grandes questões da governação. Para alem de dispersar os esforços e atenção dos pobres coitados, ainda lhes vai tirar tempo para trabalharem nas suas áreas.
Os primeiros resultados já se viram com a intervenção da ministra da Justiça sobre a reposição dos subsídios. A confusão na população só irá aumentar, a cacofonia será total.
No entanto é boa ideia envolver mais o ausente Portas no apoio público às grandes políticas do governo, mas, se ele o fizer "demasiado" bem, que não venham as ciumeiras habituais.
As coisas estavam mal, agora vão ficar piores.
Diz-se que Passos Coelho quer pôr todos os ministros a falar sobre as grandes questões da governação. Para alem de dispersar os esforços e atenção dos pobres coitados, ainda lhes vai tirar tempo para trabalharem nas suas áreas.
Os primeiros resultados já se viram com a intervenção da ministra da Justiça sobre a reposição dos subsídios. A confusão na população só irá aumentar, a cacofonia será total.
No entanto é boa ideia envolver mais o ausente Portas no apoio público às grandes políticas do governo, mas, se ele o fizer "demasiado" bem, que não venham as ciumeiras habituais.
domingo, 15 de abril de 2012
RELVAS E A COMUNICAÇÃO DO GOVERNO
Relvas é sem dúvida o animal político por excelência, hábil, lutador, corajoso e bom comunicador, mas o facto de ser um bom comunicador político não o faz um bom porta voz de um governo na situação actual do país.
Relvas é um bom comunicador para a luta política, aí ele está em casa, mas o porta-voz de que o governo e o país precisam nada tem a ver com isso. O porta-voz que é urgente encontrar tem de ser alguém que consiga criar uma grande empatia com a população, alguém que consiga transmitir a ideia de preocupação efectiva do governo com a carga que as medidas que vão sendo tomadas implicam, e simultâneamente convencer as pessoas da sua inexorabilidade.
Mesmo quando Relvas tenta fazer esse tipo de discurso é claro que o não consegue, as suas tentativas de transmitir uma preocupação genuína com os problemas da população são quase um esgar que não transmite confiança a ninguém, pode até ser que Relvas esteja preocupado com todos nós(?), mas a verdade é que ninguém acredita nisso.
Mesmo Passos Coelho, que é neste aspecto um bom comunicador e que quando quer consegue passar uma imagem honesta, de alguém efectivamente preocupado com os outros, começa a estar cansado de fazer esse papel, o que leva a que as suas intervenções sejam cada vez menos cuidadas neste campo. Mas, ainda que assim não fosse, o ideal nunca seria ter um chefe de governo "explicador" de tudo quanto se passa, quer pelo volume de trabalho que isso exigiria, quer pelo desgaste em termos de uma imagem que tem de se preservar para grandes momentos.
O governo tem alguns outros bons "comunicadores sociais", como Portas e até no seu modo muito especial Victor Gaspar, mas é evidente que nenhum deles poderá preencher esta lacuna, quer em termos de disponibilidade, quer em termos políticos.
É pois urgente para o país que Relvas encontre alguém que consiga transmitir à população uma "história" convincente e, tanto quanto possível mobilizadora, que torne menos difícil o atravessar dos próximos tempos. Já agora alguém que saiba de economia um bocado mais do que aquilo que ele sabe, para assim poder compreender a história que vai ter de contar.
Relvas é sem dúvida o animal político por excelência, hábil, lutador, corajoso e bom comunicador, mas o facto de ser um bom comunicador político não o faz um bom porta voz de um governo na situação actual do país.
Relvas é um bom comunicador para a luta política, aí ele está em casa, mas o porta-voz de que o governo e o país precisam nada tem a ver com isso. O porta-voz que é urgente encontrar tem de ser alguém que consiga criar uma grande empatia com a população, alguém que consiga transmitir a ideia de preocupação efectiva do governo com a carga que as medidas que vão sendo tomadas implicam, e simultâneamente convencer as pessoas da sua inexorabilidade.
Mesmo quando Relvas tenta fazer esse tipo de discurso é claro que o não consegue, as suas tentativas de transmitir uma preocupação genuína com os problemas da população são quase um esgar que não transmite confiança a ninguém, pode até ser que Relvas esteja preocupado com todos nós(?), mas a verdade é que ninguém acredita nisso.
Mesmo Passos Coelho, que é neste aspecto um bom comunicador e que quando quer consegue passar uma imagem honesta, de alguém efectivamente preocupado com os outros, começa a estar cansado de fazer esse papel, o que leva a que as suas intervenções sejam cada vez menos cuidadas neste campo. Mas, ainda que assim não fosse, o ideal nunca seria ter um chefe de governo "explicador" de tudo quanto se passa, quer pelo volume de trabalho que isso exigiria, quer pelo desgaste em termos de uma imagem que tem de se preservar para grandes momentos.
O governo tem alguns outros bons "comunicadores sociais", como Portas e até no seu modo muito especial Victor Gaspar, mas é evidente que nenhum deles poderá preencher esta lacuna, quer em termos de disponibilidade, quer em termos políticos.
É pois urgente para o país que Relvas encontre alguém que consiga transmitir à população uma "história" convincente e, tanto quanto possível mobilizadora, que torne menos difícil o atravessar dos próximos tempos. Já agora alguém que saiba de economia um bocado mais do que aquilo que ele sabe, para assim poder compreender a história que vai ter de contar.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
A LAMENTÁVEL FORMA DE COMUNICAÇÃO DO GOVERNO
Este governo tem pela frente uma das mais difíceis missões que um governo poderia ter, e é evidente que uma boa comunicação seria uma ferramenta fundamental, quer para facilitar a vida ao governo, quer para tornar tudo menos doloroso à população.
Embora isto pareça evidente para qualquer pessoa, claramente não o é para o governo, e assim, os erros, as explicações embrulhadas e pouco convincentes, a falta da passagem de uma mensagem global, coerente e menos angustiante, não são para o governo razão de nenhuma preocupação.
É difícil explicar porque é assim. Será por puro desinteresse em gastar tempo com esta área? Será por o próprio governo não acreditar na possibilidade de fazer passar uma mensagem mais clara, mais coerente e menos dolorosa? Ou, mais grave, será que o governo não tem de facto uma visão estratégica integrada do que precisa ser feito, das suas justificações e até dos imponderáveis ainda existentes?
Tudo isto seria grave mesmo que daqui para frente não fossem necessárias novas medidas duras para a população, mas na verdade é pouco natural que assim seja, o que quer dizer que o governo arrisca vir a colocar-se desnecessariamente numa posição extremamente difícil, ao óptimisticamente supor que o bom senso de que o povo tem dado provas irá resistir a todo o desgaste, que o cansaço, o agravar do dia a dia e o aliciamento das pseudo-soluções milagrosas, irão trazer.
Para além do muito e difícil que ainda tem de ser feito para redução do "custo Portugal" (quer contra poderosos interesses instalados, quer possivelmente por via de mais austeridade), o governo tem de ter uma "história" simples, clara, e honesta, sobre o nosso presente e futuro próximos. Sem aquela "história" a cacofonia será difícil de disfarçar e não haverá mensagem que se possa passar.
E sem aquela mensagem, clara e coerente, o governo arrisca-se a vir a morrer na praia, com custos incalculáveis para o país.
Este governo tem pela frente uma das mais difíceis missões que um governo poderia ter, e é evidente que uma boa comunicação seria uma ferramenta fundamental, quer para facilitar a vida ao governo, quer para tornar tudo menos doloroso à população.
Embora isto pareça evidente para qualquer pessoa, claramente não o é para o governo, e assim, os erros, as explicações embrulhadas e pouco convincentes, a falta da passagem de uma mensagem global, coerente e menos angustiante, não são para o governo razão de nenhuma preocupação.
É difícil explicar porque é assim. Será por puro desinteresse em gastar tempo com esta área? Será por o próprio governo não acreditar na possibilidade de fazer passar uma mensagem mais clara, mais coerente e menos dolorosa? Ou, mais grave, será que o governo não tem de facto uma visão estratégica integrada do que precisa ser feito, das suas justificações e até dos imponderáveis ainda existentes?
Tudo isto seria grave mesmo que daqui para frente não fossem necessárias novas medidas duras para a população, mas na verdade é pouco natural que assim seja, o que quer dizer que o governo arrisca vir a colocar-se desnecessariamente numa posição extremamente difícil, ao óptimisticamente supor que o bom senso de que o povo tem dado provas irá resistir a todo o desgaste, que o cansaço, o agravar do dia a dia e o aliciamento das pseudo-soluções milagrosas, irão trazer.
Para além do muito e difícil que ainda tem de ser feito para redução do "custo Portugal" (quer contra poderosos interesses instalados, quer possivelmente por via de mais austeridade), o governo tem de ter uma "história" simples, clara, e honesta, sobre o nosso presente e futuro próximos. Sem aquela "história" a cacofonia será difícil de disfarçar e não haverá mensagem que se possa passar.
E sem aquela mensagem, clara e coerente, o governo arrisca-se a vir a morrer na praia, com custos incalculáveis para o país.
sábado, 31 de março de 2012
OS NEGÓCIOS DA CAIXA E A BRISA
Será que existe alguma improvavel boa justificação para que numa altura em que não existe crédito para financiar a actividade económica, a Caixa avance com centenas de milhões para esta operação?
Ou, como tem sido hábito, o banco público é mais uma vez um facilitador de negócios privados de duvidoso interesse geral?
Depois disto que argumentos vão restar para pedir à Troyka maior liberdade de financiamento à economia?
Como é que perante isto a Imprensa e as Oposições, sempre tão prontas a dramatizar falsos problemas, estão misteriosamente caladas?
Será mesmo que em Portugal apenas as moscas mudam (e pouco)?
Será que existe alguma improvavel boa justificação para que numa altura em que não existe crédito para financiar a actividade económica, a Caixa avance com centenas de milhões para esta operação?
Ou, como tem sido hábito, o banco público é mais uma vez um facilitador de negócios privados de duvidoso interesse geral?
Depois disto que argumentos vão restar para pedir à Troyka maior liberdade de financiamento à economia?
Como é que perante isto a Imprensa e as Oposições, sempre tão prontas a dramatizar falsos problemas, estão misteriosamente caladas?
Será mesmo que em Portugal apenas as moscas mudam (e pouco)?
quinta-feira, 21 de julho de 2011
FINALMENTE O DEFAULT GREGO!
Chamem-lhe temporário ou "selected", na verdade é pura e simplesmente um default, espera-se pelo menos que agora seja gerido de forma competente, ao contrário do que tem sido feito com todo este dossier.
Como disse (e escrevi aqui e no JN) desde o primeiro dia, o default era inevitável, apenas o lobby dos grandes bancos europeus e as limitações da Comissão Europeia o adiaram artificialmente, agora aqui está ele, só que muito mais caro.
Os problemas vão ser imensos, entre eles o dos CDS's, mas esta é a única via para uma verdadeira e saudável solução da crise Europeia, espera-se que nos detalhes se não destrua o que a decisão tem de positivo.
Curioso é que, mais uma vez, seja a mais criticada dos políticos europeus, Angela Merkel, a avançar com a solução.
RESPOSTA A PEDIDO DE EXPLICAÇÃO FEITO NO FACEBOOK
A razão porque digo finalmente é porque esta é única via para a efectiva solução do problema europeu, até agora tem-se andado apenas a adiar as questões (grega e do modelo global), e isso tem custos enormes porque os mercados sabem que é assim, e vão atacando os pontos fracos e destabilizando todo o edifício. Os mercados só vão parar quando a Europa tiver apresentado uma resposta coerente que seja de facto uma solução e não apenas um adiamento, e a decisão de hoje parece ser a base para uma solução efectiva.
No dia 10 de Maio de 2010, a seguir à reunião do Conselho Europeu que aprovou o pacote grego e o fundo de resgate, escrevi o que julgava que iria acontecer, o que logo a seguir se veio a confirmar e me levou a publicar o texto de 18 de Maio, textos esses que estão abaixo (parcialmente).
A questão é que primeiro as autoridades europeias foram apanhadas desprevenidas pela gravidade da situação grega (o que é no mínimo de estranhar em especial estando então o mundo em crise há dois anos), não conheciam a dimensão do problema e muito menos como o abordar. Quando em Maio o quadro já é mais claro faltou a coragem para a decisão ideal que teria sido o default imediato com gestão das consequencias (capitalização dos bancos gregos e credores, etc.), mas para além de todos os problemas do processo de decisão comunitáro na verdade continuava a ignorar-se exactamente a dimensão daquelas consequencias (do default) e como as gerir, ao que se juntou o lobby dos grandes bancos europeus altamente investidos em divida grega e a quem o default assustava enormemente.
A partir daí ficou claro para os mercados que a Europa era um edifício frágil sem capacidade de resolver os seus problemas, e começaram os ataques aos seus pontos fracos, Irlanda, Portugal, e agora Itália e Espanha, processo este que só vai terminar quando a Europa der provas de que sabe o que está a fazer e não a enrolar-se em adiamentos e pseudo-soluções. E qualquer solução passaria sempre pela reestruturação da dívida grega, o que só se poderia fazer por doações à Grécia (quem? como?) ou pelo default com negociação. O default é um caminho claro que os mercados percebem bem, ganha quem ganha, perde quem perde mas o assunto fica arrumado e o modelo europeu pode tornar-se um sistema coerente que não vale a pena atacar. Só que teria sido muito mais barato ter feito isto um ano atrás.
EURO - O PACOTE BILIONÁRIO (10/5/2010)
Será que vai chegar? A questão não é o montante mas toda mecânica de funcionamento que parece não desmerecer em nada as habituais confusões da burocracia europeia. Falta ainda que o BCE diga o que vai fazer da sua parte, será que daí vem alguma verdadeira novidade? infelizmente tudo leva a crer que não, vamos ver.
Caso não haja uma estratégia clara, coerente e inovadora os mercados não vão comprar a solução, mas provavelmente vão até aproveitar para fazer uma boa recuperação antes de voltarem a cair com maior violência, "cèst la vie".
A EUROPA ENLOUQUECEU? (18/5/2010)
..............
Na fatídica noite da reunião dos ministros das finanças (pós Conselho Europeu), quando foi apresentado o comunicado final, ficou logo claro que o mercado não ia "comprar" a solução apesar da dimensão do pacote, e não iria comprar porque não era clara e sobretudo porque não encarava a questão da reestruturação da dívida grega, o que foi visto pelo mercado como sendo maior a preocupação de salvaguardar interesses de alguns bancos do que o de verdadeiramente limpar a casa (e aquela reestruturação poderia ter sido feita sem premiar os especuladores cheios de CDSs). Depois daquela noite os mercados tiveram uma ligeira recuperação e logo de seguida afundaram de novo, o que deixou os políticos europeus no estado que temos constatado.
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Chamem-lhe temporário ou "selected", na verdade é pura e simplesmente um default, espera-se pelo menos que agora seja gerido de forma competente, ao contrário do que tem sido feito com todo este dossier.
Como disse (e escrevi aqui e no JN) desde o primeiro dia, o default era inevitável, apenas o lobby dos grandes bancos europeus e as limitações da Comissão Europeia o adiaram artificialmente, agora aqui está ele, só que muito mais caro.
Os problemas vão ser imensos, entre eles o dos CDS's, mas esta é a única via para uma verdadeira e saudável solução da crise Europeia, espera-se que nos detalhes se não destrua o que a decisão tem de positivo.
Curioso é que, mais uma vez, seja a mais criticada dos políticos europeus, Angela Merkel, a avançar com a solução.
RESPOSTA A PEDIDO DE EXPLICAÇÃO FEITO NO FACEBOOK
A razão porque digo finalmente é porque esta é única via para a efectiva solução do problema europeu, até agora tem-se andado apenas a adiar as questões (grega e do modelo global), e isso tem custos enormes porque os mercados sabem que é assim, e vão atacando os pontos fracos e destabilizando todo o edifício. Os mercados só vão parar quando a Europa tiver apresentado uma resposta coerente que seja de facto uma solução e não apenas um adiamento, e a decisão de hoje parece ser a base para uma solução efectiva.
No dia 10 de Maio de 2010, a seguir à reunião do Conselho Europeu que aprovou o pacote grego e o fundo de resgate, escrevi o que julgava que iria acontecer, o que logo a seguir se veio a confirmar e me levou a publicar o texto de 18 de Maio, textos esses que estão abaixo (parcialmente).
A questão é que primeiro as autoridades europeias foram apanhadas desprevenidas pela gravidade da situação grega (o que é no mínimo de estranhar em especial estando então o mundo em crise há dois anos), não conheciam a dimensão do problema e muito menos como o abordar. Quando em Maio o quadro já é mais claro faltou a coragem para a decisão ideal que teria sido o default imediato com gestão das consequencias (capitalização dos bancos gregos e credores, etc.), mas para além de todos os problemas do processo de decisão comunitáro na verdade continuava a ignorar-se exactamente a dimensão daquelas consequencias (do default) e como as gerir, ao que se juntou o lobby dos grandes bancos europeus altamente investidos em divida grega e a quem o default assustava enormemente.
A partir daí ficou claro para os mercados que a Europa era um edifício frágil sem capacidade de resolver os seus problemas, e começaram os ataques aos seus pontos fracos, Irlanda, Portugal, e agora Itália e Espanha, processo este que só vai terminar quando a Europa der provas de que sabe o que está a fazer e não a enrolar-se em adiamentos e pseudo-soluções. E qualquer solução passaria sempre pela reestruturação da dívida grega, o que só se poderia fazer por doações à Grécia (quem? como?) ou pelo default com negociação. O default é um caminho claro que os mercados percebem bem, ganha quem ganha, perde quem perde mas o assunto fica arrumado e o modelo europeu pode tornar-se um sistema coerente que não vale a pena atacar. Só que teria sido muito mais barato ter feito isto um ano atrás.
EURO - O PACOTE BILIONÁRIO (10/5/2010)
Será que vai chegar? A questão não é o montante mas toda mecânica de funcionamento que parece não desmerecer em nada as habituais confusões da burocracia europeia. Falta ainda que o BCE diga o que vai fazer da sua parte, será que daí vem alguma verdadeira novidade? infelizmente tudo leva a crer que não, vamos ver.
Caso não haja uma estratégia clara, coerente e inovadora os mercados não vão comprar a solução, mas provavelmente vão até aproveitar para fazer uma boa recuperação antes de voltarem a cair com maior violência, "cèst la vie".
A EUROPA ENLOUQUECEU? (18/5/2010)
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Na fatídica noite da reunião dos ministros das finanças (pós Conselho Europeu), quando foi apresentado o comunicado final, ficou logo claro que o mercado não ia "comprar" a solução apesar da dimensão do pacote, e não iria comprar porque não era clara e sobretudo porque não encarava a questão da reestruturação da dívida grega, o que foi visto pelo mercado como sendo maior a preocupação de salvaguardar interesses de alguns bancos do que o de verdadeiramente limpar a casa (e aquela reestruturação poderia ter sido feita sem premiar os especuladores cheios de CDSs). Depois daquela noite os mercados tiveram uma ligeira recuperação e logo de seguida afundaram de novo, o que deixou os políticos europeus no estado que temos constatado.
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domingo, 5 de junho de 2011
UMA VITÓRIA, OS FALHANÇOS, UMA OPORTUNIDADE PERDIDA, OS DISCURSOS, E AGORA A PARTE DIFÍCIL
Uma vitória clara do PSD, com alguma virtude do próprio na fase final da campanha, mas sobretudo graças aos erros da governação do PS e às dificuldades da crise. Não se deve no entanto ignorar que numa conjuntura destas o PSD deveria ter conseguido ir mais longe, não fossem os erros cometidos.
Falhanços: O enorme grau de abstenção numa época tão dramática da vida do país, e ainda os resultados das inúmeras sondagens divulgadas.
Oportunidade perdida: A de por fim sairmos claramente de um sistema de dois grandes partidos e "n" pequenos, para um sistema de três partidos grandes (mais n outros). Num país que não optou por um sistema fomentador do bi-partidarismo, viver-se sempre na ilusão da solução ideal de uma maioria absoluta de um só partido é uma aberração. O CDS tinha agora a oportunidade de passar os 15% e assim alterar as regras do jogo, julgo que só o voto útil no PSD o impediu, aquele alteração teria sido um passo importante para se entrar num novo estágio da vida democrática portuguesa, algum dia vai acontecer. A existencia de pelo menos três grandes partidos coligáveis dois a dois, é um passo indispensável ao nosso amadurecimento político.
Uma noite de bons discursos por parte de todos os líderes partidários, com destaque para os de Portas, Passos e, goste-se ou não, o "até ao meu regresso" de Sócrates.
Falta agora a parte difícil, e não será um Presidente e uma maioria que a irão tornar mais fácil, nos tempos mais próximos os desafios postos à governação são imensos, e a margem para erros extremamente reduzida. Em pouco tempo começará a ficar claro se, com mais ou menos dor, a nova maioria vai conseguir fazer face ao desafio ou se nos arrastará para o desastre, porque não existirá caminho do meio.
A escolha de uma equipe de elevada qualidade tecnica, de gente honesta e com energia, será apenas o primeiro e indispensável passo, difícil mesmo será pô-la a trabalhar em conjunto, de forma articulada e auto-motivadora, evitando a dispersão de energias em pequenas guerras, e egos exacerbados.
Uma vitória clara do PSD, com alguma virtude do próprio na fase final da campanha, mas sobretudo graças aos erros da governação do PS e às dificuldades da crise. Não se deve no entanto ignorar que numa conjuntura destas o PSD deveria ter conseguido ir mais longe, não fossem os erros cometidos.
Falhanços: O enorme grau de abstenção numa época tão dramática da vida do país, e ainda os resultados das inúmeras sondagens divulgadas.
Oportunidade perdida: A de por fim sairmos claramente de um sistema de dois grandes partidos e "n" pequenos, para um sistema de três partidos grandes (mais n outros). Num país que não optou por um sistema fomentador do bi-partidarismo, viver-se sempre na ilusão da solução ideal de uma maioria absoluta de um só partido é uma aberração. O CDS tinha agora a oportunidade de passar os 15% e assim alterar as regras do jogo, julgo que só o voto útil no PSD o impediu, aquele alteração teria sido um passo importante para se entrar num novo estágio da vida democrática portuguesa, algum dia vai acontecer. A existencia de pelo menos três grandes partidos coligáveis dois a dois, é um passo indispensável ao nosso amadurecimento político.
Uma noite de bons discursos por parte de todos os líderes partidários, com destaque para os de Portas, Passos e, goste-se ou não, o "até ao meu regresso" de Sócrates.
Falta agora a parte difícil, e não será um Presidente e uma maioria que a irão tornar mais fácil, nos tempos mais próximos os desafios postos à governação são imensos, e a margem para erros extremamente reduzida. Em pouco tempo começará a ficar claro se, com mais ou menos dor, a nova maioria vai conseguir fazer face ao desafio ou se nos arrastará para o desastre, porque não existirá caminho do meio.
A escolha de uma equipe de elevada qualidade tecnica, de gente honesta e com energia, será apenas o primeiro e indispensável passo, difícil mesmo será pô-la a trabalhar em conjunto, de forma articulada e auto-motivadora, evitando a dispersão de energias em pequenas guerras, e egos exacerbados.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
PASSOS-SÓCRATES
Passos tem vindo a crescer como candidato na última semana, deixando o seu anterior estilo de bom rapaz e mestre-escola, e assumindo uma postura mais segura e agressiva.
No entanto, não me parece ter havido um vencedor no debate de hoje, mas para Passos o simples facto de o não perder é já uma vitória importante.
Será que as coisas vão começar a compor-se para o PSD? Talvez, mas nunca é de menosprezar a capacidade do partido de fazer grandes erros políticos, como foi o caso ainda esta semana na forma como abordou a crítica ao programa das novas oportunidades.
Passos tem vindo a crescer como candidato na última semana, deixando o seu anterior estilo de bom rapaz e mestre-escola, e assumindo uma postura mais segura e agressiva.
No entanto, não me parece ter havido um vencedor no debate de hoje, mas para Passos o simples facto de o não perder é já uma vitória importante.
Será que as coisas vão começar a compor-se para o PSD? Talvez, mas nunca é de menosprezar a capacidade do partido de fazer grandes erros políticos, como foi o caso ainda esta semana na forma como abordou a crítica ao programa das novas oportunidades.
sábado, 14 de maio de 2011
O CDS E O MILAGRE DO SENHOR PASSOS (E DA MARKTEST)
A nova sondagem Público/TVI vem dizer práticamente o contrário da da Marktest, o PS sobe, o PSD desce, a esquerda radical desce, e o CDS não só sobe, como pela primeira vez iguala a soma do PCP com BE. Mais grave para o PSD é que isto acontece depois de o CDS lhe ter feito o favor de dizer que não governaria com Sócrates, e que portanto não haveria uma solução que não pasasse pelo PSD. Será que as sondagens neste país são uma brincadeira?
Goste-se ou não destes resultados, para qualquer analista que saiba alguma coisa de política elas fazem mais sentido do que os anteriores. A verdade é que o PSD até agora nada fez para merecer uma subida, antes pelo contrário, radicalizou o discurso com um líder sem o perfil para o fazer, vai diáriamente acumulando confusões e contradições, e para cúmulo do disparate tentou ainda massacrar o seu parceiro histórico. Estranho seria que esta história acabasse bem. Claro que o PSD ainda tem algum tempo, mas cada dia que passa é mais duvidoso que seja suficiente, tanto mais que não se vê qualquer sinal de mudança, nesta estratégia arrogante e suicida.
Parece ser chegado o momento de o CDS recolher os frutos do seu indiscutível bom trabalho, e dos erros do PSD. O partido tem conseguido transmitir uma imagem de trabalho rigoroso, de bom senso, e simultâneamente de firmeza na defesa das suas convicções fundamentais, o que perante as confusões do PSD sobressai ainda mais.
O CDS humildemente tentou uma coligação pré-eleitoral que o PSD arrogantemente desprezou, depois continuou sem hostilizar o PSD procurando até apoiá-lo na pré campanha, actuação essa que atingiu o ponto alto no debate com Socrates em que deu a entender não existir uma solução sem PSD. Em resposta teve apenas o recrudescimento dos ataques do PSD à sua base eleitoral, num comportamento meio arrogante, meio paternalista, de pretenso novo-rico.
Os dois avisos que aqui referi, que Portas deixou no debate com Socrates, continuam de pé, e cada vez mais fortes, um foi ao PSD para não ser agressivo em relação ao CDS, e o outro, de que existem várias interpretações possíveis para a dita recusa de governar com o PS. O PSD parece que continua surdo a tudo e todos, será que quer concorrer com Sócrates em termos de autismo político? Aí será dificil, Sócrates tem uma prática imbatível.
A nova sondagem Público/TVI vem dizer práticamente o contrário da da Marktest, o PS sobe, o PSD desce, a esquerda radical desce, e o CDS não só sobe, como pela primeira vez iguala a soma do PCP com BE. Mais grave para o PSD é que isto acontece depois de o CDS lhe ter feito o favor de dizer que não governaria com Sócrates, e que portanto não haveria uma solução que não pasasse pelo PSD. Será que as sondagens neste país são uma brincadeira?
Goste-se ou não destes resultados, para qualquer analista que saiba alguma coisa de política elas fazem mais sentido do que os anteriores. A verdade é que o PSD até agora nada fez para merecer uma subida, antes pelo contrário, radicalizou o discurso com um líder sem o perfil para o fazer, vai diáriamente acumulando confusões e contradições, e para cúmulo do disparate tentou ainda massacrar o seu parceiro histórico. Estranho seria que esta história acabasse bem. Claro que o PSD ainda tem algum tempo, mas cada dia que passa é mais duvidoso que seja suficiente, tanto mais que não se vê qualquer sinal de mudança, nesta estratégia arrogante e suicida.
Parece ser chegado o momento de o CDS recolher os frutos do seu indiscutível bom trabalho, e dos erros do PSD. O partido tem conseguido transmitir uma imagem de trabalho rigoroso, de bom senso, e simultâneamente de firmeza na defesa das suas convicções fundamentais, o que perante as confusões do PSD sobressai ainda mais.
O CDS humildemente tentou uma coligação pré-eleitoral que o PSD arrogantemente desprezou, depois continuou sem hostilizar o PSD procurando até apoiá-lo na pré campanha, actuação essa que atingiu o ponto alto no debate com Socrates em que deu a entender não existir uma solução sem PSD. Em resposta teve apenas o recrudescimento dos ataques do PSD à sua base eleitoral, num comportamento meio arrogante, meio paternalista, de pretenso novo-rico.
Os dois avisos que aqui referi, que Portas deixou no debate com Socrates, continuam de pé, e cada vez mais fortes, um foi ao PSD para não ser agressivo em relação ao CDS, e o outro, de que existem várias interpretações possíveis para a dita recusa de governar com o PS. O PSD parece que continua surdo a tudo e todos, será que quer concorrer com Sócrates em termos de autismo político? Aí será dificil, Sócrates tem uma prática imbatível.
quinta-feira, 12 de maio de 2011
terça-feira, 10 de maio de 2011
PASSOS - ASSIM NÃO!
Era o debate mais fácil que é possível ter-se, com o comunista mais educado e bonzinho do mundo! E no entanto foi um desastre, pelo menos para quem esteve atento.
Sem dúvida que Passos fez bem o seu papel de bom rapaz e mestre escola, mas isso é coisa fácil em debates com este tipo de opositor, é também verdade que até aproveitou bem o inicio do debate para atacar o PS, graças à simpatia de Jerónimo e da entrevistadora, mas como este debate em si não contava para nada o problema são os pormenores.
E o pormenor foi o IVA sobre a electricidade, de nada serve Passos dizer que foi apenas a título de exemplo hipotético. Já não se vai ver livre de ter levantado a possibilidade de aumentar o preço da electricidade em 17%, o que para alem de ser devastador para as famílias, o seria também para muitas empresas, em que a dedutibilidade do IVA e reduções de 3 ou 4% na taxa da segurança social não seriam suficientes para o compensar.
Com erros destes o milagre não vai acontecer, ainda há tempo, mas cada vez menos.
Era o debate mais fácil que é possível ter-se, com o comunista mais educado e bonzinho do mundo! E no entanto foi um desastre, pelo menos para quem esteve atento.
Sem dúvida que Passos fez bem o seu papel de bom rapaz e mestre escola, mas isso é coisa fácil em debates com este tipo de opositor, é também verdade que até aproveitou bem o inicio do debate para atacar o PS, graças à simpatia de Jerónimo e da entrevistadora, mas como este debate em si não contava para nada o problema são os pormenores.
E o pormenor foi o IVA sobre a electricidade, de nada serve Passos dizer que foi apenas a título de exemplo hipotético. Já não se vai ver livre de ter levantado a possibilidade de aumentar o preço da electricidade em 17%, o que para alem de ser devastador para as famílias, o seria também para muitas empresas, em que a dedutibilidade do IVA e reduções de 3 ou 4% na taxa da segurança social não seriam suficientes para o compensar.
Com erros destes o milagre não vai acontecer, ainda há tempo, mas cada vez menos.
OS RECADOS DE PORTAS?
Ao PSD: Olhem que eu me portei bem, até disse que não queria alianças com Sócrates, vejam lá agora vocês como se comportam!
Ao PS: Se tiver que ser, e o que tem de ser tem muita força, para além do Ministério dos Estrangeiros nós queremos o das Finanças (assim a chave do cofre não será do Sr Sócrates).
Ao PSD: Olhem que eu me portei bem, até disse que não queria alianças com Sócrates, vejam lá agora vocês como se comportam!
Ao PS: Se tiver que ser, e o que tem de ser tem muita força, para além do Ministério dos Estrangeiros nós queremos o das Finanças (assim a chave do cofre não será do Sr Sócrates).
segunda-feira, 9 de maio de 2011
PORTAS/SÓCRATES
Portas esteve claramente melhor, mas Sócrates apesar do ar cansado aguentou-se bem, atendendo à posição difícil em que se encontra.
Na prática ninguém terá mudado de campo por causa do debate, o único ponto marcante e que poderá vir a ter consequencias futuras importantes, foi a afirmação contundente de Portas de que não apoiará um governo de Sócrates, tudo o resto foi mais do mesmo.
Portas esteve claramente melhor, mas Sócrates apesar do ar cansado aguentou-se bem, atendendo à posição difícil em que se encontra.
Na prática ninguém terá mudado de campo por causa do debate, o único ponto marcante e que poderá vir a ter consequencias futuras importantes, foi a afirmação contundente de Portas de que não apoiará um governo de Sócrates, tudo o resto foi mais do mesmo.
domingo, 8 de maio de 2011
A RADICALIZAÇÃO DE PASSOS
Aparentemente, agora só um milagre o pode salvar. Será que ele vai acontecer?
Não é que a estratégia seja errada em termos abstractos, o problema é saber quem no PSD terá a capacidade de a vender, a um eleitorado desconfiado e conservador, como é o nosso, ainda por cima num reduzido espaço de tempo.
Passos teve até agora um comportamento errático, com demasiados altos e baixos, e sobretudo sem nunca ter mostrado a força de um líder para uma grande mudança. Até este momento em nada se vislumbrou que tenha o carisma para liderar uma transformação da envergadura da proposta. Mas mesmo que esse carisma agora de repente se afirmasse, haveria ainda tempo útil para essa grande reconversão? É muito duvidoso, tanto mais que para a generalidade do eleitorado Passos é pouco conhecido, e apenas parece ser "um bom rapaz".
Se ele não o pode fazer sozinho, será que ele tem uma "equipe de ouro" para apresentar, com capacidade para fazer acontecer o milagre? Até agora também não parece existir qualquer coisa de parecido com isso. Isto para além dos problemas que eleições ganhas por "equipes" podem suscitar ao futuro da governação.
Será que no calor da batalha eleitoral Passos vai "explodir" como um grande líder que mobiliza o país? Aí estamos claramente no campo dos milagres, e não serei eu a negar a sua possibilidade, embora.... 8/5/11
Aparentemente, agora só um milagre o pode salvar. Será que ele vai acontecer?
Não é que a estratégia seja errada em termos abstractos, o problema é saber quem no PSD terá a capacidade de a vender, a um eleitorado desconfiado e conservador, como é o nosso, ainda por cima num reduzido espaço de tempo.
Passos teve até agora um comportamento errático, com demasiados altos e baixos, e sobretudo sem nunca ter mostrado a força de um líder para uma grande mudança. Até este momento em nada se vislumbrou que tenha o carisma para liderar uma transformação da envergadura da proposta. Mas mesmo que esse carisma agora de repente se afirmasse, haveria ainda tempo útil para essa grande reconversão? É muito duvidoso, tanto mais que para a generalidade do eleitorado Passos é pouco conhecido, e apenas parece ser "um bom rapaz".
Se ele não o pode fazer sozinho, será que ele tem uma "equipe de ouro" para apresentar, com capacidade para fazer acontecer o milagre? Até agora também não parece existir qualquer coisa de parecido com isso. Isto para além dos problemas que eleições ganhas por "equipes" podem suscitar ao futuro da governação.
Será que no calor da batalha eleitoral Passos vai "explodir" como um grande líder que mobiliza o país? Aí estamos claramente no campo dos milagres, e não serei eu a negar a sua possibilidade, embora.... 8/5/11
O VÍDEO DO ORGULHO NACIONAL
A ideia até foi boa, a produção também, no entanto o conteúdo é de uma pobreza franciscana.
Feito de algumas verdades, muitas meias-verdades, um sem fim de irrelevancias, e pior, afirmações perigosas (a ajuda de Salazar à Finlândia teve apoio de quem? e o que continha? etc.).
Mas grave mesmo, é que o orgulho e a cultura nacionais estejam tão em baixo, que até permita que os portugueses embandeirem em arco com este pequeno vídeo.
Agora resta apenas esperar que os finlandeses não se zanguem, e se limitem a achar graça a esta pequena curiosidade, provinciana e cabotina.
A ideia até foi boa, a produção também, no entanto o conteúdo é de uma pobreza franciscana.
Feito de algumas verdades, muitas meias-verdades, um sem fim de irrelevancias, e pior, afirmações perigosas (a ajuda de Salazar à Finlândia teve apoio de quem? e o que continha? etc.).
Mas grave mesmo, é que o orgulho e a cultura nacionais estejam tão em baixo, que até permita que os portugueses embandeirem em arco com este pequeno vídeo.
Agora resta apenas esperar que os finlandeses não se zanguem, e se limitem a achar graça a esta pequena curiosidade, provinciana e cabotina.
domingo, 1 de maio de 2011
CARTA DE AMOR
(Dado que na política, na economia e até nos mercados, a idiotice parece instalada, prefiro as cartas de amor - exercício de prosa poética)
Já não sou capaz de explicar nada do que se passa com a minha vida, ou pelo menos quase nada. Mas sobre como o mundo funciona, ao contrario, eu sei quase tudo. Na verdade sou um cosmólogo, as grandes abstracções sobre os desígnios do universo são facilmente inteligíveis para mim.
Conheço já todos os seus truques, as múltiplas formas através das quais ele nos leva a fazer as coisas erradas, para apenas depois, com um sorriso vago e subtil, nos deixar cair num estado de quase consciência, sentirmos algum mal-estar, e finalmente a pesada sensação de que o caminho não seria de facto por alí. Para então de novo partirmos, esforçada e corajosamente em sentido oposto, indo de surpresa em surpresa até ao inevitável fim, que apesar de conhecermos desde o inicio, de tão esperado tratamos também como nova surpresa.
Nesssas coisas ele já não me engana, conheço-lhe todos os truques, manhas, artifícios e subtilezas. Sei de todas as guerras dos homens, sei muito antes quando vão começar, sei até, ao mesmo tempo, quando e como vão acabar. Aí já nunca me engano. As coisas até já perderam a graça de tão evidentes. Afinal o Universo é apenas uma máquina como qualquer outra, e portanto entediantemente óbvia, quando se conhece mais intimamente.
Só a ti é que eu não percebo, escapas a todas as lógicas, tudo quanto espero sai ao contrario, acho que o Universo se enganou em qualquer coisa quanto deixou que te fizessem, porque defeito de fabrico não será, os deuses não deixariam, deve ser apenas algum pequeno desajustamento, mas que desencadeia efeitos em cadeia de dimensão perigosa, pelo menos para mim, para mim o grande cosmólogo.
E no entanto, o Universo parece não se preocupar, ele que pretende levar tudo a sério, qualquer pequena guerra com uns milhões de mortos, qualquer exercício de vaidade colectiva apenas um pouco mais notório, ou até um simples acontecimento desportivo desses com um pouco mais de público. Mas contigo, e o teu comportamento absurdo, desconcertante, com isso não, com isso ele em nada se preocupa, mesmo quando lhe chamo a atenção para a imprudência do que tu fazes, para os riscos para a humanidade, e ao fim e ao cabo para ele próprio, nada…, parece nem ouvir.
Apenas estes alheamentos do Universo em relação a ti é que ainda não consegui perceber, e não é por falta de eu lhe chamar a atenção, não. Também não é por falta de tempo dele, ao fim e ao cabo, ele não tem grande coisa para fazer, a máquina funciona sempre, quer ele lhe dê ou não atenção.
É evidente que ele tinha mais que tempo para tratar do teu caso, mas a verdade, tenho que o admitir, é que não quer, acho que é a maneira de se vingar de mim, ele não perdoa que eu lhe conheça as manhas e todos os truques baixos que usa, e então utiliza-te como forma de me exasperar. É isso, só pode ser isso. Começo a não saber o que fazer, ele está a pôr a minha sanidade em risco, acho que é isso que ele quer, aí eu já não poderei mais advinhar-lhe as intenções, denunciar-lhe as habilidades baratas, e todas essas coisas que fazem o espanto dos homens.
Até já lhe propus uma troca, entregar-lhe todo o meu saber cosmológico por conta de uma simples explicação de ti, mas nada, ele também não quer, acho que agora já só quer vingar-se, e vai querer que todos saibam que a minha ambição apenas me perdeu, que eu nunca devia ter tentado compreender como ele funciona, e que, quando eu estava quase lá, bastou ele estender essa pequena armadilha, que és tu, para fazer me perder para sempre.
Talvez tu pudesses ainda me salvar, se antes de ele me destruir por completo me contasses a verdade, se me explicasses os teus mistérios, se parasses com as tuas pequenas mentiras, talvez ainda desse tempo. Mas será que queres? Mas será que podes? Ele vai deixar que o faças? Tantas dúvidas e já resta tão pouco tempo.(Meu amor).
(Dado que na política, na economia e até nos mercados, a idiotice parece instalada, prefiro as cartas de amor - exercício de prosa poética)
Já não sou capaz de explicar nada do que se passa com a minha vida, ou pelo menos quase nada. Mas sobre como o mundo funciona, ao contrario, eu sei quase tudo. Na verdade sou um cosmólogo, as grandes abstracções sobre os desígnios do universo são facilmente inteligíveis para mim.
Conheço já todos os seus truques, as múltiplas formas através das quais ele nos leva a fazer as coisas erradas, para apenas depois, com um sorriso vago e subtil, nos deixar cair num estado de quase consciência, sentirmos algum mal-estar, e finalmente a pesada sensação de que o caminho não seria de facto por alí. Para então de novo partirmos, esforçada e corajosamente em sentido oposto, indo de surpresa em surpresa até ao inevitável fim, que apesar de conhecermos desde o inicio, de tão esperado tratamos também como nova surpresa.
Nesssas coisas ele já não me engana, conheço-lhe todos os truques, manhas, artifícios e subtilezas. Sei de todas as guerras dos homens, sei muito antes quando vão começar, sei até, ao mesmo tempo, quando e como vão acabar. Aí já nunca me engano. As coisas até já perderam a graça de tão evidentes. Afinal o Universo é apenas uma máquina como qualquer outra, e portanto entediantemente óbvia, quando se conhece mais intimamente.
Só a ti é que eu não percebo, escapas a todas as lógicas, tudo quanto espero sai ao contrario, acho que o Universo se enganou em qualquer coisa quanto deixou que te fizessem, porque defeito de fabrico não será, os deuses não deixariam, deve ser apenas algum pequeno desajustamento, mas que desencadeia efeitos em cadeia de dimensão perigosa, pelo menos para mim, para mim o grande cosmólogo.
E no entanto, o Universo parece não se preocupar, ele que pretende levar tudo a sério, qualquer pequena guerra com uns milhões de mortos, qualquer exercício de vaidade colectiva apenas um pouco mais notório, ou até um simples acontecimento desportivo desses com um pouco mais de público. Mas contigo, e o teu comportamento absurdo, desconcertante, com isso não, com isso ele em nada se preocupa, mesmo quando lhe chamo a atenção para a imprudência do que tu fazes, para os riscos para a humanidade, e ao fim e ao cabo para ele próprio, nada…, parece nem ouvir.
Apenas estes alheamentos do Universo em relação a ti é que ainda não consegui perceber, e não é por falta de eu lhe chamar a atenção, não. Também não é por falta de tempo dele, ao fim e ao cabo, ele não tem grande coisa para fazer, a máquina funciona sempre, quer ele lhe dê ou não atenção.
É evidente que ele tinha mais que tempo para tratar do teu caso, mas a verdade, tenho que o admitir, é que não quer, acho que é a maneira de se vingar de mim, ele não perdoa que eu lhe conheça as manhas e todos os truques baixos que usa, e então utiliza-te como forma de me exasperar. É isso, só pode ser isso. Começo a não saber o que fazer, ele está a pôr a minha sanidade em risco, acho que é isso que ele quer, aí eu já não poderei mais advinhar-lhe as intenções, denunciar-lhe as habilidades baratas, e todas essas coisas que fazem o espanto dos homens.
Até já lhe propus uma troca, entregar-lhe todo o meu saber cosmológico por conta de uma simples explicação de ti, mas nada, ele também não quer, acho que agora já só quer vingar-se, e vai querer que todos saibam que a minha ambição apenas me perdeu, que eu nunca devia ter tentado compreender como ele funciona, e que, quando eu estava quase lá, bastou ele estender essa pequena armadilha, que és tu, para fazer me perder para sempre.
Talvez tu pudesses ainda me salvar, se antes de ele me destruir por completo me contasses a verdade, se me explicasses os teus mistérios, se parasses com as tuas pequenas mentiras, talvez ainda desse tempo. Mas será que queres? Mas será que podes? Ele vai deixar que o faças? Tantas dúvidas e já resta tão pouco tempo.(Meu amor).
quinta-feira, 21 de abril de 2011
PSD A CAMINHO DOS 20% ?
Se Passos Coelho, Relvas e Diogo Campos, continuarem a falar, certamente não vai ser difícil ao PSD regressar gloriosamente à casa dos 20%.
Como dizia aqui, a 25 de Março, a histórica capacidade do PSD de destruir capital politico não é fácil de bater, agora é esperar para ver.
Mas a nossa salvação são as brilhantes e oportunas intervenções do PR, agora a bem do orgulho nacional, com a sua lição à Europa sobre solidariedade! Aliás numa linha de argumentação coincidente com a do BE, a democracia tem estas vantagens!
Que tal uma coligação PR/BE/PSD?
Se Passos Coelho, Relvas e Diogo Campos, continuarem a falar, certamente não vai ser difícil ao PSD regressar gloriosamente à casa dos 20%.
Como dizia aqui, a 25 de Março, a histórica capacidade do PSD de destruir capital politico não é fácil de bater, agora é esperar para ver.
Mas a nossa salvação são as brilhantes e oportunas intervenções do PR, agora a bem do orgulho nacional, com a sua lição à Europa sobre solidariedade! Aliás numa linha de argumentação coincidente com a do BE, a democracia tem estas vantagens!
Que tal uma coligação PR/BE/PSD?
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